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Servos indignos

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Qual de vós, tendo um servo ocupado na lavoura ou em guardar o gado, lhe dirá quando ele voltar do campo: Vem já e põe-te à mesa? E que, antes, não lhe diga: Prepara-me a ceia, cinge-te e serve-me, enquanto eu como e bebo; depois, comerás tu e beberás? Porventura, terá de agradecer ao servo porque este fez o que lhe havia ordenado? Assim também vós, depois de haverdes feito quanto vos foi ordenado, dizei: Somos servos inúteis, porque fizemos apenas o que devíamos fazer” (Lucas 17.7-10)

A mensagem básica desta passagem é clara. Nada que façamos nos renderá a gratidão de Deus ou o fará endividado conosco. Esta mensagem também é relevante se quisermos salvaguardar os tesouros da graça de Deus descobertos na grande Reforma do século XVI. Duas questões óbvias surgem quando somos confrontados por esses versos:

  • Primeiro, qual é o contexto exato?
  • E em segundo lugar, como especificamente esta palavra do nosso Senhor se aplica a nós hoje?

Quanto à questão do contexto, parece mais propício ver uma relação direta entre essa curta parábola e as palavras imediatamente precedentes sobre a fé. Em vista das exigências impressionantes que o Senhor colocou diante deles, os discípulo gritaram: “Aumentar nossa fé“. Cristo, então, disse a Seus discípulos o que poderia ser realizado pela fé do tamanho de um grão de semente de mostarda, que é muito pequeno. Agora, através da fé (que é tão pequena) coisas tremendas e impressionantes podem acontecer, um perigo, então, pode se apresentar. Eles podem tornar-se ensoberbecidos e começar a imaginar que Deus será feliz por ter pessoas tão boas trabalhando para Ele, como se Deus fosse grato a elas. Por isso, para que os discípulos não caiam nesse tipo de tentação, o Senhor conta essa história.

O Senhor desenvolve seu raciocínio de uma forma muito forte e eficaz, utilizando-se da questão retórica. As respostas são tão óbvias que os discípulos se encontrarão sinalizando sua aprovação. A versão americana RSV traduz da seguinte forma: “Qualquer um de vocês que tem um servo…” Esta tradução é um pouco infeliz para a palavra original doulos, que claramente não é um servo, mas um escravo. O conceito de um escravo é bastante hostil para o pensamento moderno, pois ser escravo significa que sua autonomia e liberdade foram postas de lado em favor da vontade de outro que tem a autoridade sobre você. Se você fosse um escravo, você literalmente não pertenceria mais a si mesmo. Por esta razão, o conceito não era muito atraente para os gregos e/ou para os judeus helenizados da época de Cristo, apesar do fato de que a tradução grega do Antigo Testamento chamava Abraão, Moisés, Davi e os profetas de escravos de Deus.1 No que dizia respeito aos rabinos, um dos piores insultos que se podia lançar contra outro homem era chamá-lo de escravo. Você poderia ser excomungado por isso. Um provérbio rabínico atual afirmou que “Um cão é mais honrado (isto é, de maior valor diante de Deus) do que um escravo“. Ora, um cão era considerado o mais baixo das criaturas.2 Portanto, quando os discípulos ouviram o Senhor falando sobre um escravo, eles sabiam o que significava — alguém que é simplesmente a propriedade de seu senhor e que existe, por assim dizer, para o seu dono. Até o que ele faz ou produz não pertence a ele, mas ao seu senhor.

Bem, o Senhor Jesus diz: Qualquer um de vocês, que tem um escravo lavrando ou guardando ovelhas, lhe dirá quando ele vier do campo: Entre imediatamente e se sente à mesa? A resposta é tão óbvia que não precisa ser dada imediatamente. É claro que eles não diriam isso a um escravo. Por que eles deveriam? O escravo deve esse tipo de serviço a eles! Dizer isso seria virar o relacionamento de cabeça para baixo! O Senhor Jesus pode, portanto, continuar dizendo: E que, antes, não lhe diga: Prepara-me a ceia, cinge-te e serve-me, enquanto eu como e bebo; depois, comerás tu e beberás? Porventura, terá de agradecer ao servo porque este fez o que lhe havia ordenado? Até mesmo levantar essa questão é respondê-la. Claro que não! O senhor não está em dívida com o escravo! O escravo só fez o que ele devia fazer, a saber, trabalhar para o seu dono. Todas as energias e talentos do escravo não pertenciam ao Senhor? Portanto, não há o que agradecer ao escravo. Isso é inconcebível.

E então uma coisa surpreendente acontece. O Senhor faz a aplicação dessa história para que não haja dúvidas sobre o seu significado. Ele começa dizendo: Assim também vós. Para quem Jesus está falando? Lucas geralmente especificava o público, se eram as multidões, os discípulos, os apóstolos ou o círculo íntimo. Ele também faz isso aqui. Apesar de lermos sobre os discípulos no versículo 1, o versículo 5 fala de apóstolos. Portanto, devemos, entender os discípulos em um sentido restrito. Os apóstolos, que são os doze, são abordados aqui. Eles são como os escravos da parábola. De fato, quão forte essa percepção foi dada a eles!! Apesar das conotações negativas que um escravo tinha, os cristãos se orgulhavam na qualidade de escravos de Deus ou de Jesus Cristo. Alguns exemplos: Tiago fala de si mesmo como escravo de Deus (Tiago 1.1) e a auto-caracterização de Paulo como escravo de Jesus Cristo é bem conhecida. Embora todos os cristãos sejam escravos de Deus (1 Pedro 2.16; Romanos 6.22) ou de Jesus Cristo (1 Coríntios 7.22; Efésios 8.6), a aplicação dessa parábola é, em primeiro lugar, para os oficiais, os apóstolos; e também para os ministros da Palavra e àqueles que aspiram a esse ofício. De fato, alguns têm visto no trabalho que o escravo na história fez alusões à obra dos apóstolos e pregadores do evangelho, alusões dadas pelo Senhor a fim de reforçar esse ponto. Como o escravo da história, os apóstolos e pregadores do evangelho também trabalham no campo, que no caso deles é o povo de Deus (1 Coríntios 3.9; 1 Coríntios 9.10). Eles também pastoreiam as ovelhas e servem ou ministram às necessidades do povo.3 Contudo, seja o que for (se precisamos ou não, ler muito sobre isso), essa passagem claramente tem algo a nos dizer como ministros (servindo uma congregação ou de outro modo) e os que aspiram ao ofício.

Cristo diz: Assim também vós, depois de haverdes feito quanto vos foi ordenado, dizei: Somos servos inúteis, porque fizemos apenas o que devíamos fazer. Quando um trabalho é feito, pode haver certa satisfação pessoal. De fato, dentro do contexto dos homens, e como os humanos falam e pensam, um ministro pode ser facilmente elogiado. Especialmente quando ele recebe um chamado, então não há pessoa melhor. Contudo, Cristo nos ensina que, especialmente como ministros oficiais, devemos ir além das relações humanas na vida e olhar para Deus. Como Ele mede nossos trabalhos? Os ministros não trabalham para consistórios e os ministros designados para o ensino no seminário não estão a serviço do conselho de líderes, independentemente das impressões dos homens. Os ministros são escravos de Jesus Cristo, como qualquer cristão, mas com um fardo específico. Quando uma certa parte da tarefa é feita, não esperamos um agradecimento de Deus. Isso não é tornar-se um escravo que pertence a outro e cujas energias e talentos são propriedade do grande Senhor de todos nós.

Além do mais, se nós nos conhecemos como seres humanos frágeis, o ministro sábio que finalizou uma tarefa específica sempre dirá: Senhor abençoe o bom e perdoe o mal! Quando se olha para trás, pode-se ver muitas falhas e fraquezas na execução da tarefa. Sobretudo, com o passar do tempo, essas deficiências podem se tornar mais evidentes em nossa mente. Somos todos parte de um mundo muito frágil e rompido, e o pecado também atinge os teólogos. Deus nos deve gratidão?

O Senhor Jesus coloca as palavras em nossa boca sobre o que devemos falar, quando uma determinada tarefa é feita: “Somos escravos indignos; só fizemos o que era a nossa obrigação (isto é, literalmente, o que deveríamos ter feito) — o termo “indigno” exigi algum esclarecimento para que não nos entendamos mal. Significa que não fizemos nada além do que se esperava de nós, não quer dizer que não somos bons em nada, contudo, mostra que somos inúteis no sentido de que o Mestre, o Senhor Jesus, não exigiu mais dos Seus escravos do que esperava. Pode ser humilhante para todos nós lermos isso, mas é a realidade. Entretanto, é também reconfortante.

Eu escolhi este texto para a meditação da capela porque, como estudante, é um dos textos que na maioria das vezes, mais me lembra o Dr. Faber. Suponho que tenha sido o favorito dele, porque ajuda a manter a verdadeira perspectiva e evita de nos deixar levar pela nossa própria importância. Contudo, é também um consolo. Como escravos do Senhor Jesus Cristo, temos pouco com o que nos preocupar, a menos que façamos nossa tarefa e ofício. O Senhor quer que trabalhemos com uma única determinação. Como escravos, vivemos em um universo muito simples. O Senhor é nosso Mestre e nós existimos para Ele. O que isso significa quando “nos aposentamos“, se agora posso fazer uma aplicação pessoal ao nosso estimado diretor. Bem, é como o escravo vindo do campo. Ele terminou uma tarefa, mas o Senhor tinha outra esperando por ele. Os escravos nunca terminam. Por isso, todo ponto de descanso é um novo começo. A tarefa é infinita, para todos nós, também para aqueles que se aposentam. Nós somos escravos! Não há fim para o serviço! De fato, quando nossa tarefa como escravos de Cristo neste mundo termina, ou o dia do retorno de nosso Salvador chegou ou somos chamados desta vida para a Sua presença gloriosa. Somente então os filhos de Deus ouvirão as palavras: “Muito bem, servo bom e fiel; foste fiel no pouco, sobre o muito te colocarei; entra no gozo do teu Senhor” (Mateus 25.21). Mas, enquanto Deus der vida e força, nós temos nosso trabalho aqui e o Senhor mostrará a todos nós e também a você, Dr. Faber. Embora a tarefa seja interminável, também é Sua a ajuda e o auxílio. Afinal, estamos sob o cuidado completo do Senhor!

Que essa realidade encoraje a todos. Se nós, como estudantes, trememos muitas vezes com a grandiosidade daquilo que nos espera, ou mesmo se estamos no momento da caminhada ou até mesmo no final como aposentados. Que não nos esqueçamos do que é fundamental, que não temos que ganhar a nossa salvação por nossos trabalhos, se fosse dessa forma, falharíamos miseravelmente. Graças a Deus que podemos confessar Sola Gratia e que não nós, mas Ele é o objeto de todo louvor e honra: Soli Deo Gloria!

1 K.H. Rengstorf in Theological Dictionary of the New Testament, II, 268.
2 Ibid., 271-272.
3 Ver P.S. Minear in Journal of Biblical Literature, 83.1 (1974) 85; também conforme R.C.H. Lenski em seu comentário de Lucas, ad loc


Tradução: Morgana Mendonça.

Revisão: Iraldo Luna.

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