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O Saltério Genebrino: Mais de 450 Anos

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Nesta edição da Clarion, comemoramos o fato de que há 450 anos, em 1562, foi publicada a primeira versão completa do Saltério de Genebra. Ele levou mais de vinte anos para chegar a esse ponto. Não tinha sido uma jornada fácil. Neste artigo, traçamos a história do Saltério Genebrino e oferecemos algumas reflexões sobre seu caráter e significado¹.

Em qualquer discussão histórica sobre o Saltério Genebrino, o nome de João Calvino sempre aparecerá. Sua compreensão sobre o culto e a adoração formam as bases para o Saltério Genebrino. Calvino acreditava que o ministério de louvor é uma parte importante do culto de adoração. Cantar os louvores de Deus era um ministério congregacional. Um dos problemas de Calvino com a adoração da Igreja Católica Romana era o fato de que a congregação não cantava mais: a maioria dos cânticos eram cantados pelo clero ou por cantores especializados. Calvino queria que a congregação cantasse novamente.

Outro aspecto importante do entendimento de Calvino sobre a adoração é a primazia dos salmos. Embora Calvino não se opusesse completamente ao canto dos hinos, não há dúvida de que ele preferia os salmos.

Havia, no entanto, um problema prático: como um grupo de vozes sem treinamento, numa congregação, poderia cantar os salmos? Uma congregação seria capaz de cantar as palavras dos salmos literalmente como eles são encontrados na Bíblia? Provavelmente não! Assim, Calvino adotou a prática que tinha visto e ouvido em Estrasburgo: ter a congregação cantando versões métricas dos salmos com melodias acessíveis para a média das pessoas.

Calvino fez mais do que apenas prover uma visão para um saltério em francês. Ele também iniciou sua produção. Vendo que as versões métricas dos salmos não existiam, ele iniciou a produção de um Saltério Francês. Ele iniciou o projeto enquanto servia uma igreja de refugiados franceses em Estrasburgo em 1539. Ele levou o projeto adiante por vinte e três anos até finalmente seu término em 1562.

Edições

O desenvolvimento histórico do Saltério Genebrino é interessante. Enquanto Calvino permaneceu como o homem que forneceu o estímulo para concluir o projeto, várias pessoas foram usadas para compor textos e melodias. A primeira edição (Estrasburgo, 1539) foi uma pequena coleção de vinte e dois salmos e hinos que incluiu treze versificações do talentoso poeta Clement Marot. Este homem era um poeta bem aclamado que tinha amigos em altos círculos. Até mesmo o rei francês, Francis I, o conhecia pessoalmente e gostava de seu trabalho. Não há dúvida de que o fato de Marot estar envolvido em versificar os salmos para o Saltério de Genebra, foi um fator importante para seu sucesso.

As melodias da primeira edição foram trazidas principalmente do livro de cânticos da igreja alemã em Estrasburgo. Uma das melodias mais famosas desta coleção é o atual Salmo 68, que foi composto por Matthias Greiter.

Depois de alguns anos, Calvino voltou para Genebra, e em 1542 uma nova edição do Saltério foi publicada. Em 1543 houve uma nova edição. O principal autor dos textos novamente foi Clement Marot. O principal compositor de melodias foi Guillaume Franc. Uma das melodias mais amadas desta coleção é a melodia do Salmo 24 (também usada para os salmos 62, 95 e 111).

Logo depois disso, Marot e Franc deixaram Genebra. A tarefa de Marot como poeta foi assumida pelo teólogo Theodore Beza. O papel de Franc como compositor de melodias foi assumido por Louis Bourgeois, que serviu nas igrejas de Genebra como uma espécie de diretor musical. Bourgeois compôs muitas melodias bem amadas, a mais famosa entre elas provavelmente é a melodia do Salmo 134 (o “centésimo”) que também é usada para o hino “Louvado seja Deus de quem todas as bênçãos fluem”. Em 1551 uma edição expandida de oitenta e três salmos foi publicada com várias novas melodias de Bourgeois e novos textos de Beza.

Infelizmente, o talentoso Bourgeois deixou Genebra logo depois disso. Ele cometera o erro de fazer melhorias na anotação do livro de salmos sem pedir permissão aos magistrados da cidade. Ele foi preso por seus esforços e Calvino teve que intervir para tirá-lo da prisão. Naqueles dias mexer com a música, as anotações, poderiam colocá-lo em apuros!

O projeto foi continuado por outro compositor: um certo Maistre Pierre, cujo nome verdadeiro era provavelmente Pierre Davantes. Beza continuou a cuidar dos textos. Finalmente, em 1562, uma coleção completa dos 150 salmos foi publicada. João Calvino pôde ver, antes de sua morte, a conclusão de um projeto que estava perto de seu coração.

Popularidade

Os salmos genebrinos tornaram-se, em pouquíssimo tempo, muito populares em toda a Europa de fala francesa. Os huguenotes da França gostavam de cantar os salmos genebrinos durante os cultos de adoração, mas não apenas ali. Quando a guerra estourou entre os huguenotes e os católicos romanos, os salmos funcionaram como canções de guerra dos huguenotes. A versão de Beza, do Salmo 68, foi ouvida no campo de batalha: “Deus se levantará e por sua força deixará todos os seus inimigos em fuga; seu triunfo será glorioso”. Se os huguenotes fossem presos e executados por causa de sua fé, também cantariam salmos genebrinos. Em um desses incidentes, quatorze mártires protestantes cantaram o Salmo 79, quando foram conduzidos ao cadafalso: “Sua terra, ó Deus, as nações invadiram; por hordas pagãs, sua herança foi invadida”².

Mesmo nos círculos aristocráticos e reais, os salmos de Marot e Beza encontraram apreciação. Muitas sabem que a rainha Elizabeth I da Inglaterra não tinha os salmos genebrinos em grande estima. Em sua opinião, as melodias careciam de dignidade, e ela se referia a elas como “um popular genebrino”. Menos conhecido, porém mais impressionante, é o relato sobre o rei Francisco I da França. O rei nunca permitiu que a Reforma criasse raízes em seu país. Sob pressão da Igreja Católica Romana, ele até proibiu a publicação e distribuição dos salmos genebrinos. No entanto, quando o rei Francisco estava em seu leito de morte, ele ordenou que os Salmos de Marot fossem lidos em voz alta para seu consolo!

Melodias

Estudiosos têm há muito tempo debatido a origem das melodias genebrinas. Por algum tempo a teoria era de que as melodias genebrinas eram melodias populares, modificações de canções que as pessoas cantavam nas ruas e nos bares de Genebra. Embora essa teoria talvez pudesse explicar a afirmação anterior da rainha Elizabeth (“Um popular de Genebra”), ela não é provada. Afinal, Calvino havia dito aos compositores que as melodias deveriam ter uma dignidade que fosse apropriada para a adoração, então é muito improvável que os compositores usassem melodias populares, a exemplo do que é cantado nas ruas e bares.

A opinião comum entre os estudiosos hoje em dia é que a maioria das melodias genebrinas foram novas criações, enquanto algumas das melodias eram baseadas em hinos do repertório da Igreja Católica Romana. Um exemplo bem conhecido é a melodia do Salmo 80, que é notavelmente similar ao hino Victimae paschali. Outro exemplo é o Salmo 141, que está intimamente relacionado com o hino Conditor alme siderum (cada melodia tem quatro linhas, a terceira linha é idêntica)³.

Outro argumento para sustentar a teoria de que a maioria das melodias foram novas criações é a escolha de modos para apoiar o conteúdo do salmo específico. Não há espaço neste artigo para discutir o conceito dos assim chamados “modos da igreja”, mas os compositores de Genebra certamente conseguiram criar melodias que apoiavam a mensagem de salmos específicos. A melodia do Salmo 51 (no modo frígio) apoia o conteúdo do salmo que é uma oração pelo perdão. A melodia do Salmo 19 (no modo mixolídio) apoia o conteúdo do salmo que louva a revelação do Senhor na criação e em sua Palavra. Embora se possa argumentar que nem todas as melodias apoiam adequadamente o conteúdo do salmo (o Salmo 60 é um exemplo), na maioria dos casos os compositores conseguiram criar melodias que transmitem um senso de dignidade de adoração, que é exatamente o que João Calvino queria que as melodias fizessem.

Saltério de Dathenus

Dada a popularidade imediata do Saltério de Genebra no mundo de fala francesa, não é de se surpreender que o mesmo tenha passado por muitas tentativas de tradução para outras línguas. Em 1566, apenas quatro anos após a publicação do Saltério completo em Genebra, o Rev. Petrus Dathenus publicou uma tradução completa do Saltério para as igrejas holandesas. O Saltério de Dathenus tinha deficiências significativas: a “métrica” nem sempre correspondia à melodia, resultando em ênfases difíceis. Ainda assim, dentro de alguns anos, tornou-se o Saltério oficial da Igreja Reformada na Holanda.

Nem todos receberam o Saltério de Dathenus com entusiasmo. Muitas congregações, especialmente na parte leste da Holanda, continuaram a cantar hinos da tradição luterana. As pessoas reclamavam que as melodias de Genebra eram muito difíceis de cantar. Durante esses dias, os órgãos da igreja não eram usados para acompanhar o canto. Seguindo Calvino, a maioria das pessoas reformadas achava que o órgão era um instrumento muito frívolo para ser usado no culto de adoração. As congregações tiveram que se contentar com alguém liderando os cânticos (voorzanger)4.

Por alguns séculos, o canto dos salmos continuou sendo um tema difícil na agenda das reuniões eclesiásticas. Talvez haja algum consolo aqui: a queixa de que as melodias genebrinas são difíceis de cantar não é um problema recente (ou puramente norte-americano). Nós não precisamos negar que há uma diferença de qualidade entre as melodias genebrinas. A maioria das melodias é excelente, bela, cantável, ajustando-se às palavras dos salmos. Algumas melodias não possuem essas excelentes qualidades. No geral, porém, as Igrejas Reformadas Canadenses herdaram um verdadeiro tesouro da Holanda e, finalmente, de Genebra: uma coleção completa de versões métricas de todos os salmos que permitem à congregação cantar os louvores de Deus com reverência e dignidade. É uma coleção que vale a pena manter.

Notas:
¹ Um recurso útil para este artigo foi Jan R. Luth, “Het Geneefse Psalter”. Em Karla Apperloo-Boersmat Herman J. Selderhuis (eds.), Calvijn en de Nederlanden (Apeldoorn: Instituut voor Reformatieonderzoek, 2009), 182-193.

² Para estes e outros relatórios sobre o uso dos Salmos de Genebra durante as guerras religiosas na França, ver Rowland E. Prothero, Os Salmos na Vida Humana (Nova York: Dutton, 1905), 190-191. Disponível online.

³ Para mais informações sobre a origem e o caráter das melodias genebrinas, os artigos de Pierre Pidoux ainda são uma boa leitura: Pidoux, “História do Saltério Genebrino” (traduzido do francês), três artigos, Reformed Music Journal, Volume 1 (1989) ). Disponível online em spindleworks.com.

4 Para mais informações sobre o Saltério de Genebra na Holanda, veja: Jan R. Luth, “Het Geneefse Psalter in Nederland.” Em  Apperloo-Boersma Selderhuis, 194-209.


Tradução: Marcel Tavares.

Revisão: Thaís Vieira.

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