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O Governo de Cristo rege a Igreja hoje?

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Confessamos que Cristo recebeu todo o poder no céu e na terra (Mt 28: 18). Na prática, porém, esquecemos facilmente o significado dessa verdade. Cristo é rei e seu reinado se estende por toda parte. Devemos, no entanto, distinguir entre a realeza universal de Cristo e o reinado que Ele tem sobre a Sua igreja. Esta regra tem um caráter ou qualidade diferente. Dentro da igreja, Cristo exerce seu governo por meio de Sua Palavra. Este é o primeiro princípio do governo da Igreja Reformada e do Regimento da Igreja. Sem isso, não temos a ideia correta do que é o Regimento da Igreja. E na melhor das hipóteses, o governo da igreja torna-se uma coleção de arquivos empoeirados, pastas cinzentas e estipulações arbitrárias. Esta é a imagem que muitos têm em suas mentes hoje, tanto fora quanto dentro da igreja. Consequentemente, muitas pessoas pensam que a política da igreja não tem nada a ver com o evangelho.

Lutero e o Direito Canônico 

É verdade que, depois que ele descobriu o evangelho, Lutero desfilou pela cidade em uma carroça e queimou a lei canônica da Igreja Católica Romana, enquanto os estudantes cantavam o Te Deum. Lutero publicamente justificou o que ele fez. “Uma vez que eles queimaram meus livros, eu queimei os deles. A lei canônica foi incluída porque torna o papa um deus na terra”. A lei canônica, na verdade, tornou-se um livro de oráculos denso e obscuro, contendo muitas contradições internas, de modo que apenas especialistas profissionais pudessem encontrar seu caminho. “Que seja queimado”, disse Lutero. “Nós escolhemos o evangelho.” Nos últimos anos, Lutero considerou a ideia de que a igreja precisa ser governada. No entanto, ele delegou essa tarefa ao governo secular para que o príncipe ou magistrado agisse como uma espécie de bispo de emergência. Isso deu origem a um sistema de governo da igreja do qual as igrejas reformadas se distanciaram.

Governo da Igreja Reformada

Embora teoricamente luteranos e calvinistas não diferissem muito na relação entre igreja e estado, na prática uma importante diferença se desenvolveu. Os seguidores de Calvino escolheram uma forma de governo que não excluísse a potencial resistência contra o governo. Eles não hesitaram em atribuir a si mesmos o direito de resistência. Eles não foram inerentemente revolucionários, mas se apegaram ao direito soberano de Cristo, que uma vez violado, lhes dava motivos para resistência. Consequentemente, a visão reformada do direito da igreja de resistir – baseada na realeza de Cristo –  tem sido, em parte, o meio pelo qual em tempos perigosos de perseguição e tribulação, a igreja tem sobrevivido. As igrejas reformadas holandesas sobreviveram a “Guerra dos Oitenta Anos” (a guerra entre a Holanda protestante e a Espanha católica), porque havia um Regimento da Igreja Reformada.

Isso pode ser um exagero e talvez esta tese pode ser modificada. No entanto, é uma verdade inquestionável que a visão reformada de igreja, e sua confissão sobre o governo soberano de Cristo, tem sido a força pela qual essas igrejas sobreviveram a terrível perseguição. A estrutura eclesiástica baseada neste princípio básico deu-lhes estabilidade, enquanto os poderes seculares promoveram a perseguição. Essa estabilidade fluiu da confissão e convicção de que somente Cristo é o Cabeça de Sua igreja.

Nascido sob opressão

Digno de nota é que a estrutura eclesiástica reformada provou sua força especialmente naquelas terras onde a perseguição era mais intensa. A França, os Países Baixos do Sul e do Norte, e a Escócia fornecem exemplos que ilustram isso. Em meados do século XVI, Paris era um lugar de terror, e fervia de violência contra os protestantes. No entanto, foi em 1559, na França, que o fundamento foi lançado para o que ainda chamamos de sistema sinodal presbitério.

Este sistema é marcado por dois princípios. Primeiro, o presbítero, e não o bispo, ministro ou diácono governa a igreja. Em segundo lugar, os presbíteros se reúnem em assembléias maiores, em classis e em sínodo. Em 1568, na Holanda, a guerra estourou contra a Espanha. Naquele mesmo ano, em Wezel, foi tomada uma decisão fundamental sobre a futura estrutura das igrejas na Holanda. Este Sínodo (ou Convenção) escolheu um modelo que, durante a trégua de doze anos na batalha contra a Espanha, foi adotado como Regimento em Dort. Ele foi desenvolvido de acordo com os princípios reformados, e projetado principalmente para que as igrejas pudessem proclamar o evangelho em liberdade.

É certo que o Sínodo de Dort provou-se leniente no ponto do relacionamento com o governo secular. Isso, no entanto, ajudou-a a superar o arminianismo. Foi a Secessão de 1834, na Holanda, que permitiu que as igrejas se separassem da igreja do Estado para restaurar o antigo ideal. Uma igreja livre, que desejava obedecer ao evangelho sem qualquer ligação direta com o governo secular, foi estabelecida. Este desenvolvimento também ocorreu sob intensa opressão e perseguição.

Sua relevância para hoje

A pergunta frequentemente feita é: “O que temos a ver hoje com essas visões e conceitos do século XVI? Eles não se tornaram totalmente antiquados? Eles podem ser interessantes do ponto de vista histórico, mas não precisamos de algo diferente para as práticas contemporâneas?”.

É óbvio que as tendências carismáticas e evangélicas influenciaram as pessoas e igrejas reformadas, e que essas influências prejudicaram a visão reformada da igreja. É verdade que a mídia moderna está causando um tremendo impacto na igreja. A igreja eletrônica tem usurpado muitas funções eclesiásticas por sua conveniência e brilho, e continua a minar a visão bíblica da igreja. Nas igrejas carismáticas, o governo de Cristo centraliza-se em personalidades carismáticas, que exibem sua espiritualidade praticando fenômenos extraordinários, como falar em línguas, curar, etc. A igreja da mídia de massa renunciou ao governo de Cristo. Eu pergunto: “É possível ter regras significativas que governem milhões de pessoas, enquanto podemos olhar para as imagens brilhantes de pregadores e ministérios de louvor?”

A ausência de qualquer regra significativa de Cristo em tal estrutura se evidencia pela ineficácia de se conter a onda dos estilos de vida materialista e egocêntrica de tais pessoas. Às vezes, tais pregadores até toleram e estimulam estes pecados. Consequentemente, os subprodutos destas situações são desencantados com personalidades carismáticas, que infestam a solidão pessoal, a falta de propósito e relacionamentos na vida. Tais fenômenos assolam a cristandade contemporânea.

A regra de Cristo

Dentro deste contexto, o sistema reformado do governo da igreja oferece uma alternativa altamente relevante. Cristo ainda exerce seu governo em Sua igreja pela pregação do santo evangelho e a disciplina cristã, administrada pelos portadores dos ofícios especiais. Esta é a estrutura que faz mais justiça à visão bíblica do governo de Cristo em Sua igreja. Mesmo que agora (como em qualquer época) ainda seja uma questão de fé e confissão, é o caminho que provará ser o melhor meio para a igreja sobreviver à correnteza da perseguição. Essa maré em nossos países não é (ainda) a perseguição por autoridades seculares ou religiosas, mas de principados ilusórios, a escuridão deste mundo e o poder ofuscante do deus deste mundo. Que Deus nos mantenha fiéis à confissão do governo de Cristo, como foi biblicamente ordenado e abraçado dentro da herança reformada!

Notas finais:
1. Esta é uma tradução de um artigo do Prof. Dr. W. van’t Spijker em De Wekker 112, 21 de março de 2003, 320. Com a aprovação do Prof. Dr. W. van’t Spijker, foi modificado para acomodá-lo ao leitor norte-americano.

2. Cf. van’t Spijker, W., “Het presbyteriale-synodale stelsel”, em DE KERK, pp. 326-338.


Tradução: Marcel Tavares.

Revisão: Thaís Vieira.

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