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O Domingo e o sábado

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Uma questão mundial

Começamos este volume de Clarion de 1987 prestando atenção ao domingo e sua relação com o sábado.

Algum tempo atrás eu recebi uma cópia do Horizon, o boletim da Sociedade das Mulheres em Ontário, com um artigo sobre o domingo, escrito pelo sr. J. Helder. Ele fala sobre o domingo de tal maneira que se percebe claramente que este dia de culto é um dom de Deus e, portanto, um dia de alegria para ser desfrutado pelo povo de Deus. É bom refletirmos sobre o que o folheto diz.

Além disso, guardei para esta ocasião dois artigos sobre o mesmo tema no Registro Mensal da Igreja Livre da Escócia, de setembro e outubro do ano passado. Neles, o autor, o Rev. John L. Mackay, lida com a questão se o sábado – como dia de descanso – é uma ordenança da criação. Esta questão não recebe atenção no ensaio do sr. Helder, mas é importante. O Rev. Mackay diz que este assunto tem sido uma controvérsia dentro das Igrejas Reformadas e Presbiterianas através dos séculos. Essa controvérsia pode ser resumida na pergunta: “A teoria sabatista” é a que temos que seguir ou devemos aderir à “teoria dominical”? Como temos permissão para publicar qualquer artigo do The Monthly Record, usaremos esses artigos para mostrar que esse assunto é discutido não apenas entre nós, mas também em outras partes do mundo, em outras Igrejas Reformadas / Presbiterianas.

A “teoria dominical” vê o domingo como apenas o dia do Senhor (Dominus) no qual os crentes se reúnem para o culto, porque neste primeiro dia da semana o Senhor ressuscitou dos mortos, e neste dia a congregação do Novo Testamento se reunia para adoração. Nesta visão, não há conexão real entre o domingo e o sábado do Antigo Testamento. Ela diz que Cristo é o cumprimento do sábado do Antigo Testamento, bem como o cumprimento dos sacrifícios de animais do Antigo Testamento. Portanto, como aqueles sacrifícios de animais foram abolidos, também o sábado como o dia de descanso do Antigo Testamento deve ser abolido. Essa visão leva a afirmação de que o Quarto Mandamento, como tal, já não tem qualquer influência sobre a igreja do Novo Testamento.

A “teoria sabatista” afirma que o Quarto Mandamento não é um dia apenas de culto, mas também de descanso. Neste sentido, ainda está em vigor para a igreja do Novo Testamento, embora exista uma diferença na dispensação que deve ser levada em consideração.

Destruição moderna do dia de descanso e culto

O pano de fundo dos artigos na revista da Free Church of Scotland (Igreja Livre da Escócia) é o fato de que os cristãos na Escócia estão engajados em uma batalha para manter o domingo como o dia de descanso em sua sociedade moderna. Há pessoas de negócios que estão trabalhando duro para manter o domingo como um dia de sair para as compras. A mesma batalha está sendo travada em nossa sociedade canadense. Especialmente em Ontário e Manitoba, bem como em Colúmbia Britânica, ou outras partes do país, esta questão tem estado no centro das atenções no momento.

Nesta batalha nem todos os cristãos estão unidos. Muitos não vêem a necessidade dessa luta. Eles não têm objeções sérias sobre o abrir de  lojas ou trabalhar nos domingos. Eles não vêem a conexão entre o quarto mandamento e a observância do domingo. Embora também entre aqueles que aderem à “teoria dominical” existam pessoas que lutarão para manter o domingo como um dia de descanso e adoração, no entanto, esta teoria facilmente enfraquece a força da luta contra a destruição do domingo como o dia de descanso, e contra a posterior secularização da nossa sociedade.

A questão chave

Em todo o debate, a questão é a seguinte: o Quarto mandamento tem seu fundamento e raiz na aliança de Deus com Israel, feita no Monte Sinai, ou em Seu trabalho na criação também? Será que este presente do mandamento a respeito do dia de descanso num ciclo de sete dias é uma ordenança temporária e cerimonial apenas para o antigo Israel, ou é também uma ordenança da criação que contém um benefício e um chamado também para todos os tempos? O Rev. MacKay defende o último.

Aqueles que seguem a “teoria dominical” baseiam sua argumentação em textos do Novo Testamento como Colossenses 2.16 e 17, onde o apóstolo Paulo escreve que o sábado é “apenas uma sombra do que está por vir”, enquanto “a substância pertence a Cristo.” O reverendo Mackay também menciona Gálatas 4.9-11 e Romanos 14.5,6. Minha opinião está mais de acordo com a do ministro escocês. E eu não acho que essa visão esteja “a um passo de alguma heresia ou pensamento sectário”, como escreve o reverendo VanDooren. Claro, temos que observar o legalismo também nesse assunto. Se eu o entendi bem, é o que também o Rev. VanDooren quer alertar. A salvação está em Cristo somente, e não em alguém ou em qualquer outra coisa. Além disso ela não está em manter certas maneiras de agir no dia do descanso, nem em manter o dia de descanso em si mesmo.

No entanto, quando leio que o sábado é “apenas uma sombra”, pego meu Novo Testamento grego e descubro que a palavra não ocorre ali. É adicionado na tradução e pode levar a conclusões erradas. Pode e deve ser dito que o dia de sábado, como o único dia de descanso na semana de sete dias, é uma instituição da criação, o que não pode ser dito das outras instituições mencionadas em Colossenses 2.17: festivais (anuais) e o mensal retornando dias de lua nova.

Este é um assunto significativo. Quando o Senhor ordenou a Israel que guardasse o sábado, Ele colocou a observância deste dia em todo o corpo de leis e mandamentos do Antigo Testamento. Objetivando assim a vida de Israel no pacto na terra prometida.

O mandamento do sábado tinha agora recebido um aspecto que enfatizava o fato de que esses mandamentos foram dados para garantir a santidade de Israel ao Senhor. O sábado estava agora cercado por vários regulamentos tipicamente israelitas e cerimoniais.

Podemos também mencionar algumas outras leis. Israel não devia comer animais imundos. Eles ficaram impuros ao tocar um cadáver. Era: não toque, não coma, como maneira de permanecerem cerimonialmente santos. Deus deu esses e outros mandamentos para lembrar o Seu povo de muitas formas e todo o tempo: eEu sou santo; portanto, você deve ser santo. Paulo mostra que os mandamentos e a obediência aos mandamentos não nos fazem nem nos santificam. O perdão dos pecados e uma vida de santidade ao Senhor só é possível por meio de uma fé viva que se conecte com Cristo. Cristo, com o Seu sangue e Espírito, é a substância, o corpo, a coisa real. Os mandamentos do Antigo Testamento que Israel recebeu no Monte Sinai são uma sombra apontando para Cristo. Assim, o que é tipicamente israelita é sombra. Em seu lugar, Cristo veio como Salvador. Em Cristo os crentes são santos e todos os dias da semana são santos para o Senhor.

Mas isso não tira o fato de que permanece o aspecto do dia de descanso como instituição de criação. Isso não significa que, com Cristo, um dia de descanso na semana, em princípio, tenha sido abolido. Cristo é o Senhor do sábado. Ele pode fazer com o que Ele quer. Ele governa isso.

A mudança do sábado para o domingo

A mudança do sábado para o domingo começou com a ressurreição de Cristo e Sua aparição no meio de Seus discípulos com Sua bênção no primeiro dia da semana. Continuou com Sua aparição novamente no meio deles, agora com Tomé também presente, no primeiro dia da semana seguinte. Continuou ainda mais com o costume das igrejas primitivas de se reunirem para adoração no mesmo primeiro dia da semana.

No entanto, até onde se sabe, a igreja primitiva na Palestina continuou a guardar o sétimo dia como o sábado, pelo menos até a queda de Jerusalém, enquanto a igreja primitiva no império romano se reuniu no primeiro dia da semana para a adoração, de manhã, antes do trabalho, mas não teve aquele dia como dia de descanso.

Podemos ver aqui o cuidado providencial do SENHOR. Se a igreja palestina primitiva abolisse imediatamente o sétimo dia como seu dia de shabbath, ela teria colocado um grande obstáculo no caminho do evangelho para o povo da antiga Aliança. Abolir o sétimo dia teria virado o povo judeu contra o evangelho e contra a igreja. Alcançar o povo judeu com o evangelho foi, naquele tempo de transição, mais pesado do que a mudança do sétimo para o primeiro dia como dia de adoração e descanso. Deus não quer que Seu povo seja revolucionário. Ele também não trabalha dessa maneira. Cristo é e foi o Senhor do sábado. O sábado tem que servir a Ele e ao Seu trabalho contínuo de chamar pessoas para a igreja.

As igrejas gentias tinham muitos escravos e servos no meio delas. Se ausentar do trabalho no primeiro dia de cada semana teria sido uma revolução aos olhos dos senhores incrédulos. Uma das coisas que é enfatizada tão fortemente, também para as igrejas gentílicas, é que até mesmo a menor impressão de revolução deve ser evitados, a fim de que os oponentes do evangelho não tenham uma razão para culpar a igreja de Cristo.

No entanto, houve um tempo de descanso e liberdade para a igreja cristã quando o imperador romano Constantino se tornou cristão no início do século IV. A partir de então, o domingo, como o dia do Senhor, tornou-se cada vez mais o dia da adoração e do descanso novamente. O dom da criação de Deus voltou para ser uma bênção à humanidade novamente. Através de Seu cuidado providencial, Cristo mostrou-se Senhor do Sábado o qual foi dado ao homem na criação, mantido em vestes específicas do Antigo Testamento para Israel, e concedido também à Igreja Cristã e seus arredores para ser uma bênção para eles.

De fato, houve a mudança do sétimo para o primeiro dia da semana, porque era o dia da ressurreição de Cristo. A vida na terra, incluindo o presente do dia de descanso, não está mais apenas enraizado e baseado na obra de criação de Deus. Está agora enraizado e baseado na obra da salvação de Cristo, Sua morte e ressurreição. Essa nova vida vem agora dEle e através dEle, que a obteve na cruz e a revelou em Sua ressurreição dentre os mortos. Mas ainda é essa mesma vida que Deus criou no começo, no paraíso. O trabalho de redenção de Cristo é um trabalho de restauração. É por isso que uma instituição da criação restaurada ainda é uma bênção para a humanidade.

Qual é o nosso chamado?

Nosso mundo ocidental está jogando Deus e Cristo fora. O homem moderno quer ser “livre” de novo, sem perceber que essa “liberdade” é a escravidão do maior condutor de escravos de todos: Satanás. Satanás quer destruir aquele dia de descanso dado por Deus, com seu engano, porque ele quer destruir a obra de Deus. Ele quer destruir a igreja como pilar da verdade e da luz neste mundo. E ele quer trazer o mundo mais e mais sob seu domínio rebelde, por meio do qual até mesmo os remanescentes do que Deus deu devem desaparecer.

Duas coisas devem nos levar, cristãos, nesta situação: cuidar da igreja e a compaixão para com o mundo.

Também em nosso meio há uma tendência lenta para facilitar as coisas no domingo. Estamos nos tornando menos rigorosos. Nós permitimos mais hoje do que antes. Encher o tanque vazio do nosso carro em um posto de gasolina, no domingo, tem se tornado uma coisa normal para você? Ir a uma loja no domingo para comprar algo de “necessidade” não tem se tornado normal? Não tem nada a ver? Não é tão ruim mais? Os jovens que após os cultos no domingo fazem suas tarefas escolares, faculdade ou universidade, não tem se tornado comum? Não tem se tornado uma coisa comum que os jovens usem o período após os cultos de domingo para fazerem suas atividades escolares, da faculdade ou universidade?

Não é por causa da forma como encaramos essas “coisas pequenas” que o domingo tem se tornando mais parecido com os outros dias da semana? Antigamente as coisas não eram diferentes? O que devemos entender é que por meio de todas essas pequenas mudanças em nosso comportamento – que parecem pequenos pontos – que a nossa conformidade com o mundo tem sido cada vez mais uma realidade em nossas vidas como igrejas de Cristo (A Igreja pela qual Ele deu Sua vida na cruz). Nós assumimos um pouco mais de liberdade aqui e ali e, na maioria dos casos, basicamente a razão é que queremos mais atender a nossa própria conveniência egoísta, ou prazer, ou a nossa “necessidade”. Não nos negamos as coisas pequenas. Nós vamos buscá-las e chamamos isso de nossa liberdade cristã!

Claro que temos nossa liberdade cristã. Mas, é uma liberdade para servir a nós mesmos e à nossa conveniência (gostos)? Ou nossa liberdade é para servirmos ao Senhor, preservarmos e construirmos Sua Igreja – com Ele e para Ele com santo compromisso?

Somos bombardeados por todos os lados com a atitude do homem moderno que vive para si mesmo. E nós tomamos essa atitude antes de percebermos, já que temos um coração pecaminoso que é inclinado ao egoísmo.

Cuidar da congregação de Cristo, sua santidade para o Senhor, sua preservação como portadora da luz de Cristo – isso deve determinar todo o nosso comportamento, também no que diz respeito ao modo como temos nosso dia de adoração e descanso. Portanto, somos chamados a resistir e lutar contra a conformidade do mundo em todas as suas formas, também no ponto de nossa “observância do domingo”. “Todas as coisas são lícitas, mas nem todas as coisas convém“, escreve o apóstolo Paulo (I Co 10.23). E acrescenta: “Ninguém procure o bem pessoal, mas o bem do próximo“. O comportamento de Paulo é regido por este dispositivo: não coloque pedra de tropeço diante de um judeu, nem diante de um gentio, nem nda igreja. E você sabe que uma pedra de tropeço é qualquer coisa que possa levar ao pecado.

Em segundo lugar, a compaixão com o mundo deveria nos guiar. Acreditamos que sem conhecer e servir a Deus de acordo com Sua Palavra não há salvação. A Palavra nos ensina como adorar a Deus e ter fé em Cristo. Sabemos que colocar os mandamentos de Deus de lado traz caos e destruição. Uma sociedade que busca a renovação através da revolução se sufoca em seu próprio sangue. Uma sociedade que permite morte e assassinato se destrói. Uma sociedade que é construída sobre a infidelidade no casamento, na família e na sociedade se desfaz.

Uma sociedade que procura crescer do roubo vai à falência. Uma sociedade que vive de mentir e enganar se arruina. Uma sociedade que é governada por inveja egoísta e ciúmes e conflitos devora-se.

Acabei de mencionar seis dos dez mandamentos. É simplesmente impossível transgredir os mandamentos de Deus sem consequências maléficas. O mesmo é verdade em relação às quatro primeiras das Dez Palavras. Um mundo sem um dia de descanso e adoração corre para a perdição, porque quer ser um mundo sem Deus. E um mundo sem Deus é um mundo nas trevas. A compaixão com esse mundo deve incitar a igreja a manter a luz do evangelho brilhando de forma clara e pura. Pelo evangelho, vivendo Cristo, em novidade de vida, . Sservindo a Deus, através do Espírito Santo. Isso é viver pela vontade de Deus, da qual todos os Dez Mandamentos ainda são a revelação básica. Mostrando essa luz com palavras e ações em ambientes escuros, esforçando-se para manter a igreja obediente em fé e a seu Salvador e Senhor, todos os membros demonstram compaixão por um mundo perdido em sua “liberdade” que leva à ruinosa e escravidão.


Fonte: SpindleWorks – Clarion (Jan. 9, 1987) Vol. 36, No 1.

Tradução: Marcel Tavares.

Revisão: Ester Santos.

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