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Não peguei nada daquele Sermão

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“Que sermão bom! Você já disse isto? Acho que sim! Ou, talvez você tenha dito com mais frequência: Que sermão chato! Que pregação irrelevante; Não tinha nada a ver comigo! Não peguei nada deste sermão!”

Que base temos para fazer nossos julgamentos sobre a pregação e os pregadores? Existe um padrão objetivo pelo qual podemos medir uma pregação? Ou, a resposta à pregação é algo puramente pessoal e subjetivo?

Como um guia para reflexão sobre nossa atitude em relação à pregação e aos pregadores, será fundamental estudarmos as palavras usadas nas Escrituras para pregação e pregadores. Um dos principais grupos de palavras usados ​​nas Escrituras para descrever o que acontece no domingo de manhã e à noite tem a ver com a ideia de um arauto.

O pregador como um arauto

Nos tempos antigos, antes do surgimento da tecnologia de comunicação moderna, um arauto tinha um papel muito importante na sociedade. Se um chefe de estado, ou alguma assembleia do governo, quisesse divulgar um anúncio político, a figura do arauto era indispensável.

O arauto seria enviado pela pessoa em autoridade para comunicar o anúncio à população. Chegando ao seu destino, ele encontraria a praça pública daquela cidade, anunciaria sua presença com o som das trombetas, e então, em voz alta e clara, transmitiria a mensagem de seu superior.

Suponha, por exemplo, que um grande rei como César desejasse tornar conhecida uma nova lei. Vamos imaginar que esta fosse uma nova lei fiscal. No momento em que esta lei fosse anunciada pelo arauto, ela se tornaria obrigatória para as pessoas. A partir desse instante, os cidadãos tornaríam-se responsáveis ​​por pagar o novo imposto. Ou imagine que o rei enviasse uma mensagem pelo arauto a uma certa pessoa, e a mesma precisasse de uma resposta. Assim que o arauto trouxesse a mensagem, uma resposta deveria ser dada. Adiá-la seria insultar não o arauto, mas o rei que o enviara.

O ponto que precisamos entender é que o arauto não tem autoridade em si mesmo. Ele só tem autoridade porque representa o rei. Ouvir o arauto é o mesmo que ouvir o próprio rei.

Se entendemos que uma das palavras bíblicas mais comuns para pregação realmente significa “anunciar” (que remete a ação de um arauto), então temos alguma orientação para pensarmos sobre sermões e pregadores.

Implicação para o pregador

Primeiramente, percebemos que o pregador como um arauto ou delegado do Grande Rei Jesus Cristo, tem uma tremenda responsabilidade para trazer a Mensagem do Grande Rei clara e fielmente. Ele não tem permissão para trazer sua própria palavra, mas apenas a Palavra de seu Mestre que o enviou. É dever do arauto deixar que a Palavra do Grande Rei seja ouvida entre os cidadãos do Reino, bem como pelos inimigos do Reino.

Afinal de contas, se o arauto não trouxer a mensagem do Rei de maneira clara e inteligível, o Grande Rei o considerará responsável. O Senhor Jesus não é honrado quando Sua poderosa mensagem de salvação é obscurecida e não faz sentido. O pregador tem uma responsabilidade sagrada de garantir que ele não vai criar obstáculos para que as pessoas recebam as boas novas da salvação. É tarefa do pregador garantir que não haja outro obstáculo para a fé e o arrependimento do que a loucura da própria cruz (1 Coríntios 1: 18-25). Quando o povo do rei ouve o arauto, eles não devem ter dúvidas sobre o que Deus quer que eles creiam e façam.

Certamente, todos os pregadores têm motivos para constante auto-exame e autocrítica quando se trata de sua pregação. Eles precisam trabalhar muito para entender e comunicar claramente o conteúdo da Palavra de Deus. Constantemente, eles terão que crescer no conhecimento da Palavra. Sem descanso, eles devem procurar aperfeiçoar sua comunicação no púlpito.

As congregações têm todo o direito de esperar mensagens claras, compreensíveis e edificantes no domingo de manhã e à tarde. Por outro lado, os ministros têm todo o direito de esperar que o povo de Deus, reunido para a adoração, mostre todo o esforço para ouvir e lidar com a mensagem autoritativa do arauto. Afinal, não é a palavra do ministro, mas a Palavra do Grande Rei.

Implicação para o banco da igreja

Se entendemos que os ministros do Evangelho são os arautos do Grande Rei Jesus Cristo, isso terá implicações para a maneira como os ouvimos.

Primeiramente, vamos perceber que não estamos em posição de fazer todos os tipos de exigências estilísticas sobre o pregador. Vamos imaginar que César enviou um arauto a uma certa província e cidade do seu império. Fielmente, o arauto cumpre o seu dever. Ele proclama a vontade de César. Entretanto, as pessoas respondem dizendo: “Quem pode suportar o estilo deste arauto? Ele é tão chato. Por que ele não incrementa mais a sua mensagem? Por que ele não pode ser mais eloquente? César deveria ter enviado um arauto melhor, com mais poder e brilho”.

Suponha ainda que, por não terem apreciado o estilo do arauto, esses cidadãos ignorassem e desobedecessem a mensagem de César. Bem, você poderia imaginar o resultado: a ira de César cairia sobre eles! Ao desprezar o arauto, as pessoas mostraríam indiferença ao próprio César.

O ponto que precisa ser claramente entendido é que o pregador não torna sua mensagem relevante por sua própria eloquência. Nem seu poder estilístico, nem seus truques de comunicação, dão autoridade à mensagem. A mensagem tem poder em si. É a Palavra viva do Grande Rei que vem com reivindicações imperativas sobre todos os que a ouvem. Ela reivindica todos os que a ouvem, porque simplesmente vem do Senhor!

Como povo do Grande Rei, reunido para a adoração, não estamos em condições de fazer muitas exigências do arauto. Nossa posição é antes escutar com toda a humildade a revelação da vontade do Rei para nós.

Sim, podemos pedir uma exposição clara e compreensível. Podemos até exigir isso! Entretanto, não devemos insistir em um determinado estilo. Tampouco devemos afirmar com muita força sobre nossas preferências por certa personalidade no púlpito em detrimento de outra. O que conta é: ouvi a mente de Cristo em meu favor? Meu Rei falou comigo nesta manhã?

Numa época de entretenimento como a nossa (como nunca antes), há uma tentação de exigir do pregador que o mesmo satisfaça nossos desejos por uma palavra agradável. Afinal, vivemos em uma sociedade orientada para o prazer. As massas são dedicadas ao entretenimento de Hollywood. Se nossos ouvidos e mentes são condicionados pelo tipo de comunicação que encontramos na TV, podemos esperar o mesmo de nosso ministro. Vamos querer que suas mensagens sejam simples, curtas, pré-digeridas, sentidas e sempre suaves. Mensagens do púlpito que exigem esforço diligente e foco de nossa parte, não vão ser realmente apreciadas.

Se o ministro tentar competir com os métodos de comunicação das personalidades da TV e das emissoras, a pregação logo degenerará em uma agradável, mas irracional “cócega nas orelhas”. O pregador terá o dever impossível de tornar a Palavra de Deus relevante para as pessoas que estão realmente procurando por entretenimento em vez da verdade.

Ouvir o arauto de Deus exigirá a mais completa concentração de nossa mente e a disciplina de nossos ouvidos. Pregar é um trabalho árduo, mas ouvir é igualmente exigente. Uma disposição preguiçosa não será suficiente se esperamos nos beneficiar da Palavra. Pregar só pode ser frutífero se aqueles que ouvem a pregação reconhecem que aqueles que pregam são arautos. Esses arautos não tornam a Palavra de Deus relevante. Ela é em si mesmo eternamente relevante. De fato, os arautos devem resistir firmemente à tentação de tentar tornar a Palavra viva mais relevante e autoritativa por sua própria personalidade e habilidade no púlpito.

O sermão é o nosso juíz

Quão relevante é a Palavra do arauto? Cristo nos diz em João 12:48:

Quem me rejeita e não recebe as minhas palavras tem quem o julgue; a própria palavra que tenho proferido, essa o julgará no último dia”.

Aos seus discípulos, o Senhor Jesus diz:

Quem vos der ouvidos ouve-me a mim; e quem vos rejeitar a mim me rejeita; quem, porém, me rejeitar rejeita aquele que me enviou“. (Lucas 10: 16)

Hoje, a Palavra de Cristo vai para as Igrejas através do ofício do ministro. Como escaparemos se negligenciarmos uma tão grande salvação proclamada a nós (compare com Hebreus 2:3)? Vejamos que não recusamos Aquele que nos fala através do arauto (compare com Hebreus 12:25). Pois o Grande Rei quer vingar-se daqueles que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus – como nos vem através do arauto (2 Tessalonicenses 1:8).

Hoje, quando você ouve a voz Dele, não endureça os seus corações pela sua expectativa injustificável de um certo estilo de pregador. Não tente seu pregador a roubar da pregação a sua dignidade e autoridade, atendendo à expectativa moderna de entretenimento, ao invés de instrução fiel.


Tradução: Marcel Tavares.

Revisão: Thaís Vieira.

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