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Irmãos e irmãs

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Neste texto, escrevi algo sobre os nomes diferentes usados no Novo Testamento para descrever os cristãos. Um desses nomes é “irmão“. Esta forma é usada em todo o Novo Testamento e em toda a história da igreja até os dias de hoje. Não é com frequência que falamos um ao outro como irmãos e irmãs?

O nome “irmão” indica que temos o mesmo pai. Somos irmãos e irmãs porque Deus o Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo nos adotou para sermos seus filhos. Se somos filhos de Deus, somos irmãos e irmãs.

O Novo Testamento não foi o primeiro a falar sobre “irmandade”. Certos filósofos antigos falaram da irmandade humana — a irmandade de toda a humanidade. Durante séculos, os gregos haviam dividido a raça humana em gregos e não gregos. Os gregos descreviam os não-gregos como bárbaros, inferiores aos gregos. Platão e Aristóteles compartilhavam dessa visão. No entanto, a filosofia estóica, que iniciou sua história de quinhentos anos como um movimento organizado por volta do ano 300 a.C., começou a fazer um som diferente.

Em sua República, Zenão de Cício (na ilha de Chipre), o fundador do estoicismo, falava de uma cidade do mundo na qual todas as distinções da hierarquia terrena seriam abolidas.  Nesta cidade mundial não haveria grego nem bárbaro. Filósofos estóicos posteriores promoveram os pensamentos de Zenão. O deus Zeus era considerado o pai de toda a humanidade. Todos os homens eram, portanto, irmãos.  Epicteto disse que um mestre deve lidar muito bem com seu escravo, porque ambos são “filhos de Zeus” (Discursos 1.15).  Quando o apóstolo Paulo falou com os filósofos estóicos em Atenas, ele mostrou que estava familiarizado com seus poetas que exaltavam a infância comum da humanidade através do pai Zeus (At 27.28).

Essa corrente da filosofia grega proclamava a irmandade universal do homem.  Essa ideia está viva desde então. Foi glorificada pela Revolução Francesa, cujo slogan incluía “fraternidade” (irmandade) como um de seus objetivos. Beethoven, impressionado com a visão da Revolução Francesa sobre a liberdade e a dignidade do indivíduo, exaltou essa “fraternidade” em sua Nona Sifonia (Coral).  Nesta sinfonia, Beethoven incluiu uma profecia de uma época em que “todos os homens seriam irmãos”.

Portanto, não é apenas o Novo Testamento que fala da irmandade do homem.  Filosofia grega, a Revolução Francesa, compositores brilhantes, também fizeram. Qual é a diferença? Quando Paulo disse que não há nem judeu nem grego, escravo nem livre, bárbaro, nem cita (Gl 3.28; Cl 2.11) ele estava apenas repetindo o que Zenão havia dito 300 anos antes? Quando Paulo disse ao mestre Filemon para tratar seu escravo Onésimo não como um escravo, mas como um irmão amado (Fm 16), ele estava simplesmente imitando Epicteto? Qual é a diferença? O que o Novo Testamento diz sobre a irmandade, que é tão especial?

A diferença é que a filosofia dos estóicos, a Revolução Francesa e Beethoven vê o homem como a medida de todas as coisas. Essa filosofia proclama a fraternidade universal do homem por causa de algum suposto valor intrínseco, um valor profundamente arraigado, que o homem tem de si mesmo e em si mesmo. O Novo Testamento, por outro lado, proclama uma irmandade de homens baseada no valor, o valor de Jesus Cristo.

O homem é o Filho de Deus através de Adão. Como Lucas 3.38 diz, que Sete foi filho de Adão, o Filho de Deus. No entanto, quando o homem caiu no pecado, ele quebrou essa relação pai-filho entre si e Deus. Os homens e mulheres caídos não são os filhos de Deus. Eles são os filhos do diabo. O Senhor Jesus disse isso sobre os judeus incrédulos:

Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe os desejos. Ele foi homicida desde o princípio e jamais se firmou na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira” — ‭‭Jo‬ ‭8.44‬.

Isso é um alerta para não falarmos de incrédulos como a irmãos e irmãs. Você quer ser um irmão de alguém cujo pai é o diabo? Isso irá nos prevenir de vivermos entusiasmados com slogans que proclamam a fraternidade universal. Se há irmãos, tem que haver um pai. Quem é o pai? Deus ou o diabo?

Existe uma irmandade universal do homem?  Sim. Todos aqueles a quem Deus incluiu em Seu pacto de graça, são Seus filhos. E essas crianças são irmãs e irmãos umas das outras. Deus nos deu isto através do Seu eterno Filho Jesus Cristo. Jesus Cristo é quem nos traz para a família de Deus. Ele é o grande nivelador, Aquele que apaga as distinções entre as pessoas.

Cristo aboliu a distinção humana mais fundamental — aquela que existia entre judeus e gentios (Ef 2.11-22). Os judeus cristãos e os gentios cristãos, são irmãos e irmãs em Cristo. Paulo contou aos Gálatas que não há judeus nem gregos, escravos nem livres, homem nem mulher, não por causa de algum valor inato no homem, mas, porque, eram todos um em Cristo Jesus. Paulo disse aos Colossenses, que entre eles, não haviam gregos nem judeus, circuncisos nem incircuncisos, bárbaros, cita, escravos e livres. Não porque não tinha lido Zenão, que ele provavelmente leu, mas porque Cristo é tudo, em todos. Paulo disse a Filemom para tratar Onésimo, o seu escravo, como um irmão, não porque ele ficou impressionado com o Epicteto, mas porque Filemom e Onésimo eram um no Senhor.

Cristo é O novo homem. Ele é o fundador de uma nova raça humana. Aqueles que acreditam em Cristo são membros dessa raça. Eles se tornaram filhos de Deus. Como João escreveu:

Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que crêem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” — Jo 1.12-13.

Cristo é o primogênito entre muitos irmãos (Rm 8.29).  Ele não tem vergonha de nos chamar irmãos (Hb 2.11). Se fizermos a vontade de Deus, testemunhamos ser os irmãos e irmãs de Cristo (Mc 3.35).

Confessamos essas maravilhosas verdades no Catecismo de Heidelberg. No Dia do Senhor 9, afirmamos:

Creio que o eterno Pai do nosso Senhor Jesus Cristo, que criou do nada o céu e a terra e tudo o que neles há, e também os sustenta e governa por Seu conselho e providência eternos, é o meu Deus e o meu Pai, por causa do Seu Filho Cristo.

No Dia do Senhor 13, confessamos:

Porque somente Cristo é o eterno e natural Filho de Deus. Nós, contudo, somos filhos de Deus por adoção, pela graça, por causa de Cristo.

Por meio de Cristo, somos filhos do Pai. Somos irmãos e irmãs de Cristo. Somos irmãos e irmãs um do outro. O Senhor Jesus traz uma profunda reconciliação entre pessoas que já foram inimigas. Em Damasco, havia um discípulo chamado Ananias. Ele chamou Saulo de Tarso, a quem o Senhor havia cegado quando estava a caminho de Damasco, para arrebanhar os cristãos: “Irmão Saulo”. Esse nome para os cristãos fala de amor que os crentes devem ter uns pelos outros (Rm 9.10; 1 Pe 3.8).  Infelizmente, os cristãos nem sempre cumprem essa obrigação. Às vezes, os irmãos arrastam irmãos para o tribunal. Às vezes, eles erram e defraudam um ao outro (1 Co 6.1-8).

Vamos viver de acordo com o significado profundo deste título — irmão. Vamos nos mostrar fiéis uns aos outros, como irmãos e irmãs em Cristo. Vamos viver como irmãos e irmãs de Cristo, fazendo a vontade do Pai no céu.

Lembre-se do seu Criador, Aquele que o recriou para ser Seu filho e o chamou para ser um irmão, uma irmã, para Seus outros filhos.


Tradução: Morgana Mendonça.

Revisão: Ester Santos.

O website revistadiakonia.org é uma iniciativa do Instituto João Calvino.

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