Oficialato

Encontrando novos oficiais

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O tempo chegou novamente: precisamos encontrar novos oficiais para substituir aqueles cujos mandatos se acabaram. Conhecemos o procedimento: um anúncio vem do conselho solicitando que a congregação apresente nomes de irmãos considerados adequados para o ofício de presbítero ou diácono. No devido tempo, o conselho faz uma lista de nomeações, da qual a congregação é solicitada para eleger o número necessário de irmãos.

Uma pergunta: por que seguimos esse método para obter novos oficiais? Não deveria o conselho apenas nomear alguns irmãos? Ou deveríamos simplesmente lançar sortes? Que envolvimento a congregação deveria ter neste procedimento? Minha intenção hoje é esclarecer o porquê fazemos desta maneira e, então, listar as consequências da mesma.

Deus chama para o ofício

As Escrituras deixam claro que ninguém mais do que o próprio Deus chama pessoas para o ofício. No Antigo Testamento, por exemplo, Deus determinou quem poderia servir no ofício de sacerdote. Ele disse a Moisés: “Faze também vir para junto de ti Arão, teu irmão, e seus filhos com ele, dentre os filhos de Israel, para me oficiarem como sacerdotes, a saber, Arão e seus filhos Nadabe, Abiú, Eleazar e Itamar” (Êx 28.1). Da mesma forma, Deus determinou quem deveria servir como assistente do sacerdote: “Disse o SENHOR a Moisés: Faze chegar a tribo de Levi e põe-na diante de Arão, o sacerdote, para que o sirvam e cumpram seus deveres para com ele e para com todo o povo, diante da tenda da congregação, para ministrarem no tabernáculo” (Nm 3.5-7). Não havia oportunidade aqui para voluntários ou para um voto popular.

O mesmo é verdade em relação aos profetas do Antigo Testamento. Em relação a Jeremias, lemos: “A mim me veio, pois, a palavra do SENHOR, dizendo: Antes que eu te formasse no ventre materno, eu te conheci, e, antes que saísses da madre, te consagrei, e te constituí profeta às nações” (Jr 1.4-5). Moisés (Êx 3.10), Gideão (Jz 6.14), Sansão (Jz 13.5), Samuel (1 Sm 3.10), Saul (1 Sm 10.2), Davi (1 Sm 16.12) e Isaías (Is 6) servem como outros exemplos de homens que foram obviamente chamados por Deus para um ofício particular entre o povo de Deus. Até Jesus Cristo “a si mesmo não se glorificou para se tornar sumo sacerdote, mas o glorificou aquele que lhe disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei” (Hb 5.5). Da mesma forma, o Senhor Jesus cambou os discípulos para o ofício deles; nenhum deles se ofereceu. Sobre os presbíteros de Éfeso lemos que Paulo destaca que “o Espírito Santo vos constituiu bispos” sobre o rebanho (At 20.28).

Os oficiais ao longo dos tempos, então, recebem seu ofício do Chefe da igreja. Por isso, a nenhum homem é permitido abrir caminho para o ofício hoje, tampouco empurrar seu amigo para o ofício: “Cada um deve cuidar para não se apoderar do ofício por meios ilícitos, mas deve esperar a hora em que é chamado por Deus, a fim de ter, assim, a certeza de que a sua vocação vem do Senhor”. (Confissão Belga, Artigo 31).

Como Deus faz isso?

Ainda assim, surge a questão de como o Senhor Deus chama os homens para os ofícios da igreja. No Antigo Testamento, o Senhor chamou muitos para o ofício por meio de uma palavra direta de revelação. Através de uma ordem precisa para Moisés, Deus especificou que Arão deveria ser o sumo sacerdote. Deus estipulou também que o próximo sumo sacerdote seria o filho mais velho do sumo sacerdote atualmente no ofício – e é claro que o próprio Deus determinou em sua providência quem seria o filho mais velho. O mesmo é verdade dos reis de Judá. Dos profetas também é evidente que Deus os chamou. A citação mencionada acima em relação a Jeremias serve como exemplo. O Senhor Jesus também chamou diretamente os discípulos para o seu ofício.

Há uma mudança neste ponto como resultado do derramamento do Espírito Santo. Devido à presença renovada do Espírito, a congregação está preparada para considerar as questões e assim (sob a liderança de oficiais) é responsável por tomar decisões. Alguns exemplos no livro de Atos demonstram isso.

O Senhor Jesus designou doze discípulos. Mas havia uma vaga no grupo dos doze, já que Judas suicidou-se. Como foi encontrado um substituto? O procedimento seguido é descrito em Atos 1.15-26. Não lemos que os onze restantes nomearam unilateralmente Matias para substituir Judas. Antes, Pedro (em nome dos onze) aproximou-se da congregação e procurou ajuda para preencher a vaga. Em versículo 23 lemos: “Então, propuseram dois: José, chamado Barsabás, cognominado Justo, e Matias”. Não está claro o significado de “eles”, mas o contexto sugere que foi a congregação sob a liderança de Pedro e dos outros dez discípulos. “E, orando, disseram: Tu, Senhor, que conheces o coração de todos, revela-nos qual destes dois tens escolhido para preencher a vaga neste ministério e apostolado, do qual Judas se transviou, indo para o seu próprio lugar. E os lançaram em sortes, vindo a sorte recair sobre Matias, sendo-lhe, então, votado lugar com os onze apóstolos” (v.24-26). É claro que a congregação estava envolvida, possivelmente, em propor os candidatos e certamente em orar. Então “eles” lançaram sortes, e neste caso, esse termo certamente inclui o envolvimento da congregação. No entanto, foi Deus quem chamou para o ofício, pois “a sorte se lança no regaço, mas do SENHOR procede toda decisão”. (Pv 16.33).

Um segundo exemplo de Deus chamando uma pessoa para o ofício através do envolvimento da congregação pode ser encontrado em Atos 6. Lemos no versículo 1 que as viúvas estavam sendo negligenciadas mesmo enquanto o número de discípulos estava aumentando. Consequentemente, os doze apóstolos reuniram toda a congregação e deram este encargo: “Mas, irmãos, escolhei dentre vós sete homens da boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria, aos quais encarregaremos deste serviço.” (v.3) “O parecer agradou a toda a comunidade; e elegeram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo, Filipe, Prócoro, Nicanor, Timão, Pármenas e Nicolau, prosélito de Antioquia. Apresentaram-nos perante os apóstolos, e estes, orando, lhes impuseram as mãos.” (v.5-6). Embora a iniciativa estivesse com os oficiais existentes (os apóstolos), é evidente que a congregação desempenhou um papel central ao chamar esses irmãos para seu ofício. É evidente que o próprio Deus estava por trás de seu chamado com sua bênção pela “sabedoria e o Espírito”, por meio do qual Estêvão, por exemplo, falou (At 6.10).

Em Atos 14.23 lemos, “E, promovendo-lhes, em cada igreja, a eleição de presbíteros, depois de orar com jejuns, os encomendaram ao Senhor em quem haviam crido.” Eleição significa literalmente “eleger levantando as mãos”.

Note que nas passagens de Atos 6 e 14, o ato de lançar a sorte não é mais mencionado, porque o Espírito Santo foi derramado em Atos 2. Somos levados a concluir que o Senhor chama irmãos para o ofício, e que Ele faz isso através dos processos de pensamento ativo e orante da congregação. No Artigo 31 da Confissão Belga, a igreja ecoa este padrão Bíblico com estas palavras: “Cremos que os ministros da Palavra de Deus, os presbíteros e os diáconos, devem ser escolhidos para os seus ofícios mediante eleição legítima pela igreja, com oração e em boa ordem, conforme a Palavra de Deus ensina.” Da mesma forma, no Regimento das Igrejas Reformadas do Brasil, as igrejas concordaram com o seguinte procedimento: “O chamado legítimo é realizado pelo conselho com os diáconos que nomeiam os irmãos após a eleição pela congregação, realizada com orações, e de acordo com o regulamento local adotado para este fim”. (Artigo 3).

Oração

A referência à oração é impressionante – e previsível. Lembre-se de que as passagens citadas acima, de Atos 1, Atos 6 e Atos 14, mencionam a oração como um passo crítico no procedimento de chamada. Os crentes da igreja primitiva se dedicaram a orar pelos oficiais porque entenderam que em última análise é Deus quem chama ao ofício, e a congregação (sob a liderança do conselho) forma a ferramenta pela qual Deus indica o homem de Sua escolha. Assim, é apropriado que a igreja peça ao Senhor que deixe claro quem ele quer como pastor de Seu povo. De fato, houve um tempo na história da igreja que antes que um ministro fosse chamado a congregação se entregou a um dia de jejum e oração.

Consequências

Como, então, a congregação está concretamente envolvida? Três passos precisam da nossa atenção:

  1. A congregação precisa orar para que o Senhor Deus forneça os oficiais que ela precisa. Isso deve ser feito não apenas nos cultos da igreja, mas também nos lares. Não podemos esperar receber bons oficiais se não pedirmos ao Senhor que forneça irmãos adequados. Isto é o mais urgente quando se trata de tempo de nomeação; que a congregação busque, em oração, aqueles que são preparados pelo Senhor para o ofício.
  2. A congregação precisa chamar a atenção do Conselho para aqueles que, em seu meio (conforme seu julgamento) o Senhor preparou para o ofício. É claro que as cartas de nomeação devem incluir também a razão pela qual alguém pensa que determinado irmão está apto para realizar o ofício, pois os irmãos que lerem sua carta talvez não vejam as coisas do seu jeito, se você não defender seu caso.
  3. Uma vez que o Conselho tenha apresentado uma lista de nomeados para o(s) ofício(s) vago(s), a congregação precisa considerar – em oração! – como o Senhor queria que você votasse. São os homens da congregação que votam, mas a contribuição das irmãs precisa ser considerada quando os homens consideram para quem devem votar. (Isso, claro, tem a ver com a família em primeiro lugar, embora não exclusivamente).

Fica óbvio que o envolvimento congregacional não se limita a sugerir nomes ou a votar. Em vez disso, a ênfase no envolvimento congregacional recai sobre a oração (contínua) – na igreja, no lar e em particular. Isso é algo que toda a congregação, homens e mulheres mais velhos e mais jovens, deve fazer. Esta é a razão ela qual toda a congregação deve estar presente na reunião eleitoral, e não apenas os homens. Central para essa reunião não está marcando uma cédula; central é a oração por orientação e sabedoria.

Conclusão

É Deus quem chama os irmãos para o ofício. Ele, em Sua providência, no entanto, tem o prazer de usar a congregação como Sua ferramenta para especificar quais irmãos devem se tornar oficiais. Esta é uma responsabilidade que a congregação precisa levar a sério.

Portanto, quando uma pessoa se torna um oficial (isto é, quando ele dá sua resposta afirmativa às perguntas feitas em sua ordenação), ele deve dizer que está convencido de que “o próprio Deus, através de sua congregação” o chamou para aquele ofício (Forma para a ordenação de Presbíteros e Diáconos). A convicção de que é Deus quem chama é o que torna o ofício tão sério. Ao mesmo tempo, é essa mesma convicção que dá ao irmão a certeza de que Deus dará força para realizar a tarefa. Entretanto, o conhecimento de que a congregação continua a orar pelo oficial é muito encorajador para os irmãos quando se preparam para realizar o ofício que Deus lhes deu.


Tradução: Jim Witteveen.

Revisão: Ester Santos.

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