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Desenvolvimento da Política da Igreja na Holanda

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Os reformadores do século XVI aprenderam nas Escrituras sobre como o Senhor desejava que Sua igreja conduzisse seus assuntos. A característica do entendimento de Calvino da vontade do Senhor em relação ao governo da igreja era o lugar central dado ao ancião.  Assim, foi dito que “Calvino fez o xeque-mate do papa com o peão do ancião”.

Ironicamente, o conceito de governo da igreja que Calvino adquiriu nas páginas das Escrituras não saiu do papel em Genebra, onde Calvino viveu.  Seus pensamentos, em vez disso, encontraram solo fértil nas igrejas reformadas da Escócia, França e Holanda. Tragicamente, os desenvolvimentos históricos na França nos anos após a Grande Reforma virtualmente extinguiram as Igrejas Reformadas naquele país. A política eclesiástica reformada no continente europeu, portanto, ganhou fôlego no desenvolvimento da Holanda. É para este país que agora precisamos nos voltar para examinar a política da igreja reformada na prática.

Contexto histórico

Os efeitos do trabalho reformado de Martinho Lutero no século XVI não apenas foi percebido em sua Alemanha nativa. Os Países Baixos também muito se favoreceram da redescoberta do evangelho por Lutero.  Contudo, a aceitação dos ensinamentos do reformador, frequentemente acontecia à custa da vida de alguém. Já em 1523 a inimizade do diabo contra a verdade das Escrituras resultou na queima das primeiras vítimas na fogueira.  Apesar da perseguição, todavia, o Senhor cuidou para que as boas novas do evangelho enraizassem nos corações de muitos nas terras baixas do noroeste da Europa. No entanto, pela providência de Deus, no decorrer do tempo, não foram as ênfases de Lutero que foram adotadas e consideradas, mas as de Calvino.

Em 1545, Guido deBres, com cerca de 24 anos, entrou em contato com o Evangelho e tornou-se crente.  Sua escolha pelo evangelho não veio a um preço barato, pois a Holanda estava sob domínio espanhol e, portanto, a religião do estado era o catolicismo romano.  Sob a mão dominante do rei Filipe II da Espanha, a perseguição contra os protestantes foi intensamente violenta durante a década de 1550. DeBres, como pregador do Evangelho, foi obrigado a fazer seu trabalho secretamente;  ele trabalhou no subsolo e sob um nome falso. Em 1561, deBres completou sua Confissão e a jogou no muro da casa do regente. Ao fazê-lo, DeBres queria deixar evidente ao rei que os protestantes não eram um grupo de novatos radicais. Seu objetivo ao escrever sua Confissão era “protestar contra essa cruel opressão, e provar aos perseguidores que os adeptos da fé reformada não eram rebeldes, como foi colocado sob sua responsabilidade, mas cidadãos cumpridores da lei que professavam a verdadeira doutrina cristã  de acordo com as Sagradas Escrituras” (Livro de Louvor, p.440).

O artigo 36 da “Confissão Belga” serve para provar que deBres e todos os outros que abraçaram a fé reformada não eram rebeldes contra o governo. Neste artigo deBres confessou o que a Palavra de Deus tem a dizer sobre o lugar do governo civil na sociedade, qual é a sua tarefa e como deve ser honrado e respeitado por todos. Escreve deBres,

Além disso, cada um, independente da sua qualidade, condição ou classe é obrigado a submeter-se aos oficiais civis, pagar os impostos, respeitá-los e honrá-los, e obedecê-los em tudo aquilo que não contrarie a Palavra de Deus” (Livro de oração, p.470).

Seria uma declaração a fazer sobre um governo em cujas mãos deBres e seus irmãos sofreram uma perseguição tão intensa. A desobediência às autoridades civis só foi garantida quando alguém foi levado a agir contrariamente às exigências da Escritura.

As exigências de Deus nas Escrituras incluíam também (deBres aprendeu da leitura da Palavra de Deus) que Deus dera princípios concernentes a como Ele quer que Sua Igreja seja governada. Apesar da intensidade da perseguição e dos perigos de viver como igrejas reformadas, deBres considerou essencial a obediência a Deus nesses principais pontos. Então, incluiu os princípios básicos do governo da igreja na Confissão que ele preparou.  Encontramos os pensamentos de deBres sobre o governo da igreja nos artigos 30-32 (Confissão Belga). Diz deBres:

Cremos que a verdadeira igreja deve ser governada conforme a ordem espiritual que o nosso Senhor nos ensinou em Sua Palavra. Deve haver ministros ou pastores para pregarem a Palavra de Deus e para administrarem os sacramentos; deve haver também presbíteros e diáconos para formarem com os pastores o conselho da igreja. Assim preservam eles a verdadeira religião” (Artigo 30)

DeBres confessou o que Deus revelou em Sua Palavra, sobre como os portadores de cargos públicos recebem seu ofício.

Cremos que os ministros da Palavra de Deus, os presbíteros e os diáconos devem ser escolhidos para os seus ofícios mediante eleição legítima pela igreja, com oração e em boa ordem, como estipula a Palavra de Deus” (Artigo 31).

Cremos que, embora seja útil e bom que os governantes da Igreja entre se estabeleçam e conservem determinada ordem para manter o corpo da Igreja, no entanto devem se guardar de desviar-se daquilo que o nosso único Mestre, Cristo, nos ordenou” (Artigo 32).

Tenhamos em mente que tal governo da igreja era diretamente contrário ao desejo das autoridades do dia de DeBres: não era a congregação, mas o governo que determinava quem serviria como padre em uma cidade;  os ministros não tinham permissão para pregar ou ensinar, a adoração pública não era permitida, os anciãos não podiam fazer visitas aos lares. No entanto, deBres viu necessidade de confessar o que Deus revelou sobre o assunto, e ensiná-lo às suas congregações também.

Em 1566, protestantes fanáticos começaram a destruir o conteúdo das igrejas católicas romanas, especificamente as imagens, quadros e altares. Numerosas pessoas reformadas, também da própria congregação de deBres, correram às ruas para cantar salmos e reuniram-se nos campos para ouvir a pregação da Palavra de Deus. Isso tudo provocou uma reação por parte das autoridades que vieram com mãos pesadas. Muitos protestantes foram presos, incluindo o próprio DeBres. Em 1567 ele foi pendurado na forca. Como parte da mesma repressão, o rei um ano depois enviou seu general, Alva, para a Holanda. Esse general muito capaz reprimiu a revolta.  Centenas de milhares de pessoas fugiram para a França, Alemanha e Inglaterra, formando congregações de refugiados em cidades estrangeiras como Wezel (Alemanha), Emden (Alemanha) e Londres (Inglaterra). A Igreja sofreu muito e as igrejas existentes na época vieram a ser conhecidas como “as igrejas sob a cruz”, elas eram uma igreja perseguida e uma igreja dispersa em qualquer lugar onde poderia ser encontrado um refúgio.

Aqui temos pessoas relativamente novas para a fé reformada. Seria de se esperar que, nas circunstâncias acima, muitos se afastassem da Fé Reformada (e, de fato, alguns o fizeram), e que a sobrevivência física estaria em primeiro lugar em suas mentes. Mas esse não foi o caso da maioria! Aqui vemos o poder da fé no trabalho. Se Cristo é rei, eles confessaram, o contexto político diário não precisa ser motivo de depressão. Com Cristo no trono, o futuro não precisa ser visto apenas de forma negativa.  Um general como Alva poderia governar a Holanda com um punho de ferro. No entanto, os crentes estavam confiantes de que o Senhor, no seu devido tempo, deixaria o evangelho florescer em seu país. Apesar da dificuldade de sua condição, os irmãos da época eram otimistas.

É também por isso que os irmãos arriscaram suas vidas para se reunirem a fim de desenvolver um governo eclesiástico bíblico que pudesse ser posto em prática quando o Senhor concedesse a libertação da perseguição. É um ponto que vale a pena notar: os pais não consideravam as assembleias eclesiásticas, isto é, as classes ou os sínodos, uma dor no pescoço ou um mal necessário.

Mesmo em tempos de perseguição, eles consideravam tais assembleias essenciais para a vida da igreja de Jesus Cristo, tão essenciais que arriscaram suas vidas para desenvolver a política da igreja reformada. Os pais sabiam disso: as igrejas precisavam muito uns dos outros, muito mesmo.

Apesar da perseguição das autoridades, os pais consideravam uma maneira reformada de governar a igreja como um imperativo bíblico.  Assim, apesar dos perigos dos tempos, os pais começaram a formular uma Ordem da Igreja de acordo com a Palavra de Deus.

O Convento de Wezel, 1568

Logo após Alva esmagar a resistência holandesa ao domínio espanhol, um grupo de irmãos reformados da Holanda reuniu-se em Wezel, na Alemanha. (Sem dúvida, em Wezel havia liberdade religiosa, embora os espiões de Alva estivessem em toda parte). Essa reunião em particular foi chamada de “O Convento de Wezel”. (A palavra “convento” significa reunir-se, encontrar-se). Não era uma reunião ou um sínodo, pois não era constituído por delegados das igrejas. Em vez disso, esta reunião foi a iniciativa privada de pessoas interessadas que definiram como agenda a preparação de um sínodo oficial. Eles entenderam que, para organizar um sínodo, primeiro deveria haver uma federação das igrejas.  Por isso, juntos eles estabeleceram alguns princípios sobre como uma federação de igrejas deveria funcionar. Estiveram presentes refugiados da Holanda que encontraram abrigo nas cidades de Wezel (Alemanha), Emden (Alemanha) e Londres (Inglaterra). Embora expulsos de sua terra natal, eles foram motivados pelo amor a Deus e a Sua igreja a fim de estabelecer a base para o governo reformado da igreja na Holanda.

Para constituir o governo da igreja reformada, esses irmãos não viram necessidade de ‘reinventar a roda’.  Calvino já havia lidado com o assunto em Genebra e escreveu uma Ordem da Igreja intitulada “Ordenanças Eclesiásticas”.  Os irmãos de Wezel usaram essas ordenanças como um modelo para o trabalho deles. No entanto, em vez de apenas aceitar essas ordenanças eclesiásticas com base no mérito da autoria de Calvino (como estava seu pensamento reformado), os irmãos consideraram sua responsabilidade, verificar se o trabalho de Calvino poderia ser melhorado de alguma maneira. Desenvolveram o trabalho adicional de Calvino. Esta ação em si é interessante no que se refere à Política da Igreja Reformada. Fundamental como a contribuição de Calvino (e também de Bucer) é reformar o governo da igreja. “Reformado” não é tanto “calvinista” quanto “bíblico”, e portanto sempre precisa considerar a questão “o que Deus quer de nós?”

Os irmãos de Wezel, então, aprimoraram as “Ordenanças Eclesiásticas” de Calvino.  Por mais que estejamos aqui no berço da política da igreja holandesa, podemos considerar as mudanças de Wezel como princípios essenciais do governo da igreja reformada continental.

Princípio 1: Não há domínio sobre os outros

Presente no Convento de Wezel estava um cavalheiro pertencente à igreja de refugiados em Londres, pelo nome de Moded.  Esse Moded havia sido enviado por Londres a Genebra, para procurar conselho em uma questão de dificuldade naquela congregação.  A questão da dificuldade relacionada ao ministro; Rev Van Wingen, da igreja de Londres, era um personagem inflexivelmente dominante.  Os irmãos presentes no Convento de Wezel leram as palavras de Jesus em Mateus 23.8: “Vós, porém, não sereis chamados mestres, porque um só é vosso Mestre, e vós todos sois irmãos.” (A palavra mestre na citação acima denota um líder ou mestre.) A implicação foi certamente que em uma igreja de Jesus Cristo não há espaço para a dominação: um ministro não é o senhor sobre outro ministro, nem um ministro sobre um  consistório, nem um consistório sobre outro consistório, nem um presbítero em detrimento de outro presbítero, etc. Pelo contrário, todos os cargos têm um lugar diretamente abaixo de Cristo, e assim um cargo deve respeitar o outro. Os presentes no Convento de Wezel reconheceram que isso é um princípio bíblico básico para a vida saudável da igreja, e assim escrito como Artigo Um para sua Ordem da Igreja:

Nenhuma igreja deve, de modo algum, governar sobre outras igrejas, nenhum cargo sobre outros cargos.

A política da igreja reformada serve para proteger congregações e consistórios de indivíduos dominadores.

Ao longo dos anos, essa estipulação passou do início da Ordem da Igreja até o fim, porque é onde ela se encaixa melhor em vista da estrutura geral da Ordem da Igreja.  Essa mudança de posição, no entanto, não deprecia a importância do princípio. Um princípio fundamental que carateriza a política da igreja reformada é que não existe domínio sobre os outros.

Princípio 2: A necessidade de assembleias eclesiásticas

Um segundo princípio que Wezel sublinhou foi que as igrejas precisam se reunir regularmente.  Já examinamos a base doutrinal para as igrejas federativas que interagem umas com as outras dentro de uma federação de igrejas. Há, no entanto, também uma justificativa prática para federar e interagir em um vínculo. A interação regular entre as igrejas por meio de assembleias serve para impedir tanto a hierarquia quanto o independentismo. A congregação do Rev. Van Wingen em Londres estava bastante isolada das outras igrejas, e tal isolamento pode dar ao ministro uma oportunidade de dominar seu consistório. Se as igrejas em uma federação raramente ou nunca se encontram, há também uma tendência muito real para que cada uma siga o seu próprio caminho em assuntos como liturgia, políticas em relação à disciplina da igreja e crenças. As igrejas dentro de uma federação têm uma necessidade muito real de se reunir e discutir as coisas, pois, afinal de contas, todas elas não servem ao único Senhor, e não deveriam, portanto, estar também unidas na maneira como o servem?

O artigo adotado pelo Convento de Wezel diz o seguinte:

 “Porquanto… deverá ser muito benéfico alcançar e manter um acordo uniforme na doutrina, bem como na regulamentação de cerimônias e disciplina, consideramos que, tanto quanto possível, reuniões frequentes de igrejas vizinhas devem ser organizadas. Assim, cada item resultante pode  em tais reuniões, considerar que devem ser feitos todos os esforços para dividir as várias províncias holandesas em classes fixas, de modo que cada igreja saiba com quem ela deve interagir e consultar sobre as questões mais importantes que, por sua opinião, atinge o cunho de interesse comum“.

É intrigante que os pais em Wezel expressassem a desejabilidade das igrejas se reunirem “com frequência”.

De fato, os artigos da Ordem da Igreja que eles adotaram especificam que as igrejas em uma área local deveriam se reunir com uma frequência a cada três meses;  tais reuniões frequentes promoveriam “um acordo uniforme na doutrina, bem como na regulamentação das cerimônias e da disciplina”, e assim se oporiam à hierarquia e ao independentismo.

Precisamos observar que esse objetivo foi expresso em um ambiente de perseguição e em um tempo em que as distâncias eram geralmente percorridas a pé.  Compare isso com o contexto de nossa vida na igreja: desfrutamos da liberdade de religião e temos as conveniências das viagens viárias e aéreas disponíveis para nós.  No entanto, como igrejas, nos reunimos apenas uma vez a cada dois anos!

Nesse ponto, nos desviamos muito do que os pais aconselharam. Como resultado, enfrentamos um espírito de independência entre nossas igrejas e as diferenças entre as igrejas de nossa federação são reais.  Quando tudo estiver dito e feito, este é um problema auto-infligido. Vamos nos reunir com muito mais frequência e, quando nos encontrarmos, vamos gastar nosso tempo falando, antes de tudo, sobre assuntos relacionados ao trabalho dentro da federação de igrejas.  Deixe isso ser fixo em nossas mentes: cada igreja dentro da federação precisa dos outros.

Note também que os pais não deixaram para as igrejas individuais decidir com quem cada um poderia se encontrar e falar e assim fertilizar de forma cruzada.  “As categorias fixas”, disseram os pais, deveriam ser formadas, para que “cada igreja saiba com quem ela deve interagir e consultar”. As igrejas tinham um só Senhor, uma fé, uma esperança, e assim cada igreja deve se sentir confortável para falar com a igreja vizinha – mesmo que houvesse diferenças de ênfase. Desta forma, também a uniformidade “na doutrina, bem como na regulamentação de cerimônias e disciplina” seria alcançada e mantida.

De Wezel a Emden

Marnix, de St Aldegonde, um homem de sangue real que tinha uma boa posição nos círculos do governo, trabalhava na clandestinidade para libertar a Holanda dos espanhóis.  Este homem foi reformado em seu pensamento e escrituras, em seu amor pelo Senhor e pelos irmãos. Ele viu que pela graça de Deus os Países Baixos um dia seriam livres, e que as igrejas tinham que estar prontas para aquele evento.

Por seu julgamento, era indispensável que houvesse pregadores adequados do evangelho disponíveis para aproveitar ao máximo a janela de oportunidade que surgiria no dia da liberdade.  Mas treinar homens capazes exigia o esforço combinado das igrejas. Da mesma forma, Marnix estava convencido de que, como há um só Senhor e uma só fé, o povo da terra precisa ser unido em sua crença e, consequentemente, as igrejas também devem ser unificadas em doutrina, disciplina eclesiástica, liturgia e cerimônias.  Para conseguir isso, Marnix viu que era de suma importância que as igrejas se reunissem e discutissem juntas – um Sínodo era necessário, mas nenhum Sínodo poderia ocorrer enquanto as igrejas não estivessem reunidas de alguma forma. Marnix, portanto, fez o que pôde para encorajar o crescimento de uma federação de igrejas.

Neste momento, porém, existiam duas linhas de pensamento em relação à política da igreja.  Por um lado, havia um grupo de pessoas de mentalidade liberal que favoreciam a política eclesiástica erastiana (centrada no governo).  Este grupo (tornaram-se os eventuais apoiantes da teologia arminiana) não viu necessidade de as igrejas formarem federações. Em vez disso, se a orientação fosse exigida por uma igreja, deveria recorrer ao governo. Por outro lado, havia também um desejo pela política da Igreja Reformada (centrada no idoso).  Marnix estava convencido de que a linha reformada era a direção correta para as igrejas e, para esse fim, encorajou a convocação de um sínodo em Emden.

O Sínodo de Emden, 1571

O primeiro Sínodo Geral de todas as Igrejas Reformadas na Holanda foi realizado não na Holanda, mas na Alemanha, na cidade de Emden, em 1571. Este sínodo foi realizado fora da Holanda porque a perseguição ainda era algo muito real.  Contudo, apesar dos perigos de estarem juntos, os pais o fizeram em obediência ao Senhor e reconhecimento de sua necessidade um pelo outro. As igrejas enviaram delegados a Emden para se reunirem com o intuito de ajudar uns aos outros como igrejas e se defenderem contra a heresia.  Lá, eles formaram oficialmente uma federação de igrejas.

Seria de se esperar que, nessa primeira reunião oficial das igrejas, as igrejas se ocupassem imediatamente com questões relativas à política da igreja. É impressionante que, em vez disso, seu primeiro item de negócios tenha sido que cada delegado (e neles cada igreja) fez questão de expressar concordância com a Confissão Belga. Nota: até hoje, a Confissão Belga havia sido aceita por várias igrejas por conta própria, mas não pelas igrejas em geral;  esta foi a primeira reunião das igrejas juntas. Os pais reconheceram a necessidade de uma confissão, não apenas para as igrejas individualmente, mas também como um elo de igrejas. Afinal, o que essencialmente vincula as igrejas? É a fé que Deus operou no coração do Seu povo; fé no único evangelho da salvação através do único Salvador Jesus Cristo. Esta unidade de fé exigia expressão antes que uma Ordem da Igreja pudesse ser finalizada. E uma Ordem da Igreja, por sua vez, não poderia estar distante da Confissão das Igrejas, mas tinha que ser construída sobre essa Confissão.

Depois que as igrejas juntas chegaram a um acordo sobre qual era a única fé comum, os pais passaram a desenvolver um modelo para a vida da Igreja.  O Sínodo de Emden foi elaborado sobre o trabalho realizado em Wezel, bem como as experiências e decisões das igrejas francesas. As igrejas francesas, devemos saber, não sofreram muita perseguição durante a década de 1560, e assim tiveram oportunidade em vários Sínodos de desenvolver uma ordem eclesiástica. Este conceito foi a melhor Ordem da Igreja que o Sínodo de Emden encontrou, e por isso foi usado como base e modelo para a Ordem da Igreja de Emden. Assim como o Convento de Wezel, também o Sínodo de Emden tratou de modificar esse modelo para definir por si mesmo os princípios do governo da Igreja Reformada.  Por exemplo, um artigo sobre não dominar outros (não encontrado na Ordem da Igreja Francesa) recebeu um lugar de destaque na Ordem de Emden. Um segundo artigo notou a necessidade de concordância com a confissão comum. Além disso, Emden mudou o uso repetido da palavra ‘igreja’ na Ordem da Igreja Francesa para o plural ‘igrejas’ – fornecendo assim um corretivo bíblico à ideia generalizada de que as igrejas locais eram apenas capítulos da única igreja grande e real.

O Sínodo de Emden também adotou outro artigo, que diz:

Esses artigos, que consideram a ordem legal da igreja, foram adotados de comum acordo. Se o interesse das igrejas tem exigências legais, eles podem e devem ser alterados, ampliado ou reduzido. Contudo, nenhum consistório ou classis deve ser permitido  fazer isso, apenas devem se esforçar diligentemente para observar as provisões desta Ordem da Igreja, desde que não tenham sido alteradas pelo sínodo.

Este artigo também aponta como os pais valorizavam o pensamento reformado. As igrejas prometem aceitar as decisões do Sínodo, não porque algum órgão superior as tenha feito, mas porque as próprias igrejas no Sínodo tomaram as decisões “de comum acordo”, isto é, conjuntamente.

O Sínodo de Dort, 1618/19

A perseguição na Holanda terminou em 1572. Depois disso, a vida da igreja desenvolveu-se rapidamente.  Depois do Sínodo de Emden, as igrejas realizaram seus sínodos em solo holandês. De importância para o desenvolvimento da Ordem da Igreja, deve-se mencionar o Sínodo provincial de Dort em 1574, o sínodo nacional de Dort em 1578, o sínodo de Middelburg em 1581 e o sínodo de Gravenenhage de 1586.

Cada um à sua maneira, esses Sínodos construíram mais sobre o trabalho de Wezel e Emden.  Essencialmente, porém, a Ordem da Igreja permaneceu praticamente a mesma ao longo dos anos que a adotada pelo Sínodo de Emden.  O Sínodo de Dort 1618/19, depois de ter lidado com as heresias do Arminianismo, trabalhou na Ordem da Igreja que se desenvolveu até agora, e adotou uma versão que ficou conhecida como a Ordem da Igreja de Dort.  Nossa Ordem da Igreja é, em princípio, a Ordem da Igreja de Dort – e, portanto, está enraizada no trabalho feito em Wezel e Emden.


Tradução: Alaíde Monteiro.

Revisão: Thaís Vieira.

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