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Cristo ensina que você pode escolher uma igreja como se estivesse fazendo compras?

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Pode acontecer assim. Você tem uma certa preocupação, porque não vê o irmão Fulano na igreja regularmente como antes. No início, você nem tem certeza de que seu sentimento está certo. Afinal, as pessoas ficam doentes. Ou talvez ele tenha uma namorada em outra congregação. Talvez ele esteja fora da cidade devido ao trabalho. Talvez… ? No entanto, algum tempo depois, você ouve o boato. Aparentemente, o irmão Fulano também está adorando na nova igreja evangélica que está crescendo rapidamente.

Essa igreja é nova e bem sucedida. Em poucos anos, já atrai centenas de pessoas, e mais estão se juntando a cada mês. O pastor sênior dessa igreja é um homem dinâmico que prega de uma maneira que chama a atenção das pessoas e se conecta às suas vidas. A igreja tem uma banda, e eles cantam todos os louvores bem conhecidos. Doutrinariamente, essa igreja pode ser descrita como uma congregação Reformada-Batista-Ligeiramente Carismática. Em outras palavras, eles enfatizam a graça soberana, rejeitam o batismo infantil e estão pelo menos abertos à continuação dos dons espirituais, especialmente o dom da profecia.

Não querendo depender dos boatos não confiáveis, você fala com o irmão Fulano diretamente. Ele confirma que sim, ele está frequentando esta nova igreja. Além disso, ele não vê nada de errado com isso porque, como ele relata, “Nunca me senti tão espiritualmente vivo em toda a minha vida.” Como você deve responder a uma declaração como essa?

O que significa tratar a escolha de uma igreja como se estivesse fazendo compras?

O cenário fictício descrito acima se enquadra na categoria do que é comumente chamado de consumismo religioso – pensando na escolha de uma igreja como se estivesse fazendo compras. Mas o que exatamente que essa frase significa? Afinal, discussões frutíferas começam com definições claras.

Primeiramente, quero começar com o que eu não estou dizendo. Alguém descobre que ele é parte de uma igreja infiel, isto é, uma igreja que não governa a si mesma de acordo com a pura Palavra de Deus (Confissão Belga, Artigo 29). Por algum tempo ele tenta efetuar mudanças positivas, mas todos os seus esforços são sistematicamente frustrados. Chegará um ponto em que esse crente buscará uma igreja fiel do Senhor Jesus Cristo. Não podemos dizer que esse irmão está tratando a escolha de uma igreja como se estivesse fazendo compras. Ele está buscando uma igreja fiel, nos moldes dos artigos 28 e 29 da Confissão Belga.

No entanto, a situação é bem diferente quando alguém pertence a uma igreja de Cristo fervorosamente fiel, mas reconhecidamente imperfeita. Se, enquanto pertencer a tal congregação, alguém começar a visitar e cultuar em uma outra igreja devido a várias circunstâncias pessoais ou preferências pessoais, então ele pode muito bem estar tratando a escolha de uma igreja como se estivesse fazendo compras.

Por quê?

O que motiva as pessoas a começarem a buscar outra igreja nessa maneira? Recentemente conversei com um grupo de jovens de algumas congregações das Igrejas Reformadas Canadenses. Os jovens geralmente têm um bom entendimento da vida eclesiástica. Juntos, concordamos na seguinte lista de oito razões, em nenhuma ordem especial, de que as pessoas começam a se tornar consumidoras religiosas, buscando igrejas como se elas estivessem fazendo compras:

Elas querem evitar admoestação ou disciplina.
Elas querem um novo começo por causa de más experiências em sua igreja atual.
Amigos ou membros da família começam a cultuar em outro lugar.
Elas estão procurando um namorado(a).
Elas estão procurando pregação mais relevante.
Elas se sentem mais em casa em uma atmosfera de adoração mais casual, mais otimista, com música popular.
Elas se sentem mais espiritualmente vivas na outra igreja.
Elas têm uma visão (hiper)-crítica de sua própria igreja ao ponto de ver negativos em quase toda parte.

Embora essa lista certamente não seja exaustiva, ela cobre algumas das razões comuns pelas quais as pessoas começam a frequentar outras igrejas. Ao mesmo tempo, essa lista não indica precisamente o que está no cerne da questão: a crescente centralidade dos meus desejos da comunhão dos santos. Em outras palavras, quando ouvimos as várias razões para ir a outra igreja, é muito “eu gosto…”, “eu quero…”, e “eu prefiro…”

A parte difícil, porém, é quando o desejo do “eu” parece ser piedoso. Voltando ao cenário acima, se “eu” quiser estar mais espiritualmente vivo do que nunca, isso deve ser algo que agrada a Deus, certo? Bem, essa é uma excelente pergunta e merece uma resposta completa e bíblica. Então, vamos pensar nisso sistematicamente.

De quem é a igreja?

Embora falamos casualmente da “minha igreja” ou “nossa igreja,” todos percebemos que a igreja pertence a Jesus Cristo. Ele comprou a igreja com seu próprio sangue precioso (Atos 20.28). Portanto, a igreja pertence a ele (Romanos 16.16) e é seu próprio corpo (Efésios 5.23,29; Colossenses 1.24). Também confessamos isso no Credo Apostólico (“na santa igreja universal de Cristo”) e no Dia do Senhor 21 do Catecismo de Heidelberg (“reúne para Si mesmo, de entre todo o gênero humano, uma igreja… a qual protege e preserva na unidade da verdadeira fé pelo Seu Espírito e pela Sua Palavra”). Por essa razão, todos os membros da igreja devem ser enfática e genuinamente centrados em Cristo.

O desafio surge, porém, quando este ensinamento bíblico tem que ser aplicado consistentemente. Quando um desejo de cultuar em outra igreja surge, é realmente porque Cristo o direciona a ir para lá? Algumas pessoas responderão prontamente: “Sim, sinto em meu coração que Cristo está me chamando para ir a outro lugar.” Mas como esse “chamado” pode ser verificado? E se esse “chamado” vier de mim em vez de vir de Cristo? Afinal, nossos corações são altamente habilidosos em nos enganar (Provérbios 28.26; Jeremias 17.9). Assim, em vez de confiar em nossos corações inconstantes, devemos nos voltar para a Palavra fiel de Cristo, as Sagradas Escrituras (1 Pedro 1.10-11).

Por exemplo, a Palavra de Cristo fala claramente de uma aliança eterna que o Senhor estabelece de geração em geração (Gênesis 17.7). E o Espírito de Cristo também confirma que as promessas da nova aliança se estendem aos filhos dos crentes (Atos 2.39). Então, o mesmo Cristo, que afirma a inclusão dos filhos dos crentes na aliança de graça, direciona alguém para cultuar em uma igreja que exclui crianças daquela aliança de graça? Isso significaria que Cristo está se contradizendo, o que é, claramente, impossível (Hebreus 13.8).

Além disso, quando alguém começa a cultuar em outra igreja e diz, “Nunca me senti tão espiritualmente vivo em toda a minha vida,” outras perguntas precisam ser feitos, como: “Mas o que é o impacto das suas ações para seus irmãos na congregação a qual você pertence? Eles estão sendo edificados por sua presença esporádica? Se estamos verdadeiramente focados em Cristo, essa é uma questão importante, porque é precisamente Cristo que nos ensinou a “amar o próximo como a si mesmo,” e nossos irmãos espirituais em nossa própria congregação estão entre alguns dos próximos mais próximos que temos!

Em suma, o ponto é este: uma vez que a igreja pertence a Cristo, precisamos nos submeter a ele, conforme ele revela sua vontade em sua Palavra, em tudo o que fazemos. Uma coisa é falar de Cristo; e outra realmente se submeter a ele.

Uma igreja católica [universal]

No entanto, alguém pode fazer essa objeção: “Sim, mas a igreja de Cristo é católica (ou universal). Confessamos isso todos os domingos. Então quer eu cultue em uma confederação de igrejas ou outra, nessa nova igreja evangélica ou na igreja reformada, tudo se resume à mesma coisa. Juntos, somos todos parte da igreja católica de Cristo.”

No entanto, falar sobre a catolicidade da igreja dessa maneira não é o modo como Cristo fala sobre a catolicidade. A igreja católica é reunida de todas as nações, não composta de todas as denominações. Uma rápida olhada no Salmo 2.8, Mateus 28.19 e Apocalipse 7.9 confirma que a catolicidade tem a ver com Cristo chamando seu povo de muitas origens étnicas diferentes. Isso não significa que todas as diferentes correntes eclesiásticas fluam para um rio grande e católico.

Uma igreja santa

Além disso, a santidade da igreja de Cristo é muitas vezes mal compreendida. Para muitos, a santidade da igreja está localizada especificamente em quão bem os membros da igreja obedecem aos Dez Mandamentos ou à Grande Comissão. Seguindo esta abordagem, se houver pecados que tem a ver com dinheiro ou com palavras na igreja, ou se os membros não estiverem suficientemente entusiasmados com o evangelismo, então a igreja não será mais considerada sagrada.

Certamente, a desobediência contra os mandamentos de Deus e a falta de desejo de espalhar o evangelho são questões sérias e pecaminosas. No entanto, se começarmos por localizar a santidade da igreja dentro de seus membros, começaremos no lugar errado. A santidade da igreja começa com Cristo. Ele faz do seu povo uma “raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus” (1 Pedro 2.9; Êxodo 19.6; Apocalipse 1.6). Para ser sucinto, ser a santa igreja de Cristo significa que Cristo nos separa para sermos diferentes do mundo e dedicados a ele.

Sim, devemos ser diferentes do mundo, da mesma forma que vemos a membresia da igreja. No mundo, se uma certa associação lhe serve bem, você a mantém. Se isso não lhe servir bem, você assume sua filiação em outro lugar. Por exemplo, se ser um membro da academia local se encaixa no seu programa de exercícios, muito bom. Mas se encontrar uma academia que funciona melhor para você, você sempre pode mudar sua lealdade. Sem problemas! É sua prerrogativa. Apenas lembre-se, porém, que sua participação na igreja é algo sagrado, algo diferente, algo separado. A sua escolha de uma igreja não tem nada a ver com o que mais lhe serve. Ser membro de uma igreja tem a ver com como você serve melhor a Cristo (Marcos 10.43-45).

Igreja envolve matrimônio, não fazer compras

Nós frequentemente mencionamos isso, mas quantas vezes meditamos sobre isso? Fazer parte da igreja de Cristo é estar envolvido em um relacionamento matrimonial com ninguém menos que o eterno Filho de Deus. Se você contemplar essa verdade revelada por algum tempo, há algo profundamente perturbador na ideia do que podemos tratar a igreja como uma loja ou empresa. A igreja tem tudo a ver com o casamento mais gracioso e glorioso de todos os tempos. Testemunhe a afirmação do apóstolo Paulo no meio dessa passagem bem conhecida sobre o casamento cristão em Efésios 5:22-33: “Grande é este mistério, mas eu me refiro a Cristo e à igreja” (v.32). Em outras palavras, se você está falando de igreja, então você está falando sobre casamento. Pelo menos, se você está falando da maneira como o Espírito de Cristo fala, então estar envolvido na igreja é estar envolvido em um casamento.

Então, uma vez que a igreja envolve casamento, é apropriado pensar sobre a igreja na mesma maneira em que você pensar em fazer compras? Fazer compras é uma coisa, o casamento é algo completamente diferente. A psicologia e a prática das compras não têm lugar, seja qual for, dentro do vínculo sagrado do matrimônio. Isso já se aplica aos casamentos terrestres de tempo determinado. Aplica-se ainda mais ao casamento celestial e eterno.

Comprar tem seu lugar apropriado nesta vida. Se você precisa de alguma coisa para sua existência diária, vá ao shopping e faça compras. No entanto, ser membro da igreja de Cristo é algo bem diferente. É sagrado. É matrimônio sagrado com o próprio Filho de Deus. E dentro do casamento, a palavra operativa é a fidelidade amorosa, não a compra.


Tradução: Jim Witteveen.

Revisão: Thaís Vieira.

O website revistadiakonia.org é uma iniciativa do Instituto João Calvino.

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