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Confissão e Unidade da Igreja

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É gratificante notar que, na busca da unidade com outras Igrejas Reformadas, o ensino bíblico sobre a igreja, como confessamos, foi trazido para a discussão. Em mais de um boletim local, podemos ler sobre discussões que se concentram particularmente nos artigos 27 a 29 da Confissão Belga (CB). Esperamos que, através dessas discussões, haja um entendimento maior sobre nossa posição sobre essas questões.

Uma posição confessional

No início, cabe a nós manter a redação clara da confissão. A discussão às vezes indica que há um número surpreendente de novas maneiras de diluir a linguagem clara da confissão. O artigo 29 da CB, ao falar da igreja verdadeira e falsa, confessa que essas igrejas são “facilmente reconhecíveis e distinguíveis uma da outra”. Como devemos entender esta frase? Alguns sugeriram que esta é uma linguagem bastante dura e contundente e que, felizmente, foi atenuada pela linguagem da Confissão de Westminster, que no artigo 25.4 fala de “igrejas menos puras”. Nesta visão, a linguagem da Confissão de Westminster é considerada como uma elaboração e explicação necessárias preenchendo os espaços vazios da Confissão Belga.

No entanto, esta é uma tentativa de evitar a linguagem clara da confissão. Deve-se notar que as categorias de “verdadeiro” e “falso”, como usadas por Guido De Brès no artigo 29 da CB, são de uma ordem totalmente diferente das categorias “mais e menos puras” usadas pela Confissão de Westminster.¹ A Confissão de Westminster fala de graus de pureza dentro da igreja pura ou verdadeira, enquanto o Artigo 29 da CB distingue claramente as marcas da igreja verdadeira das falsas. A Confissão de Westminster também fala de igrejas locais dentro do vínculo de uma igreja nacional, não de várias federações. Deve ser entendido com o contexto histórico em mente. Algumas igrejas eram mais independentes, outras mais orientadas para a estrutura presbiteriana; no entanto, em oposição às tendências perfeccionistas dos puritanos e congregacionalistas, Westminster disse: as igrejas na igreja verdadeira ainda são imperfeitas, ou seja, “mais, ou menos puras”. Mas todas essas igrejas pertenciam à igreja estabelecida daqueles dias. A posição de Westminster é tal que todos nós podemos admitir (também em oposição ao perfeccionismo moderno!), uma vez que uma pureza perfeita no sentido doutrinário e moral nunca é alcançável nesta terra. Mas a linguagem da Confissão Belga relativa ao dever de discernir as marcas da verdadeira igreja lida com um assunto diferente. A questão central que ocupa a Confissão Belga diz respeito à legitimidade e à direção geral da igreja. Existe uma indicação clara de que todas as coisas devem ser feitas de acordo com os ensinamentos da Palavra de Deus? O foco está estritamente na honra do Nome de Deus em todas as coisas?

Outra alternativa proposta para suavizar a linguagem dos artigos 27-29 é sugerir que a redação cruza as linhas “denominacional” e doutrinária. Nesta visão, a igreja verdadeira é facilmente distinguida da falsa, mas essa igreja verdadeira pode, a qualquer momento, incluir outras igrejas, por exemplo, a igreja luterana ou batista, ou qualquer outra “denominação” protestante. Aqui, a posição dessas igrejas no governo da igreja, ou em assuntos doutrinários como os sacramentos, são consideradas questões de menor importância. Por exemplo, uma igreja que se apegasse ao verdadeiro evangelho, mas negasse apenas o batismo infantil, não seria excluída como uma igreja verdadeira. Da mesma forma, a visão luterana da Ceia do Senhor não seria excluída como um possível ponto de vista no reino da verdadeira igreja.

Essa é uma alternativa igualmente questionável como a primeira, uma vez que efetivamente provoca um curto-circuito nos elementos fundamentais de nossa confissão que precisam de atenção e discussão. Uma das marcas da igreja é a verdadeira administração dos sacramentos. Quem somos nós para afirmar que pontos de vista e sentimentos doutrinários diferentes do que é confessado nas Três Formas de Unidade podem, no entanto, ser tolerados? O que nos dá o direito de declarar que certas doutrinas são de menor importância ou de maior importância do que outras? Certamente, há uma margem de diferença em questões doutrinárias. Calvino, por exemplo, sugeriu que o caminho exato da jornada da alma na morte, quer fosse para o céu ou para algum outro lugar, pertencia ao grupo das assim chamadas coisas indiferentes ou não fundamentais.² Mas esses assuntos são, por natureza, não confessional. Assuntos confessionais não podem ser declarados indiferentes ou assuntos de importância secundária.

Concluímos que a linguagem da Confissão Belga, e especificamente o Artigo 29, deve ser mantida. Também em nossas discussões com outras igrejas, não devemos promover pontos de vista pelos quais a força das palavras seja de alguma forma relaxada. Uma unidade duradoura só pode ser alcançada trabalhando dentro dos limites confessados ​​juntos nas Três Formas de Unidade. De fato, essas Formas como confissões foram reunidas com o próprio objetivo de forjar e sustentar uma unidade espiritual duradoura entre as Igrejas Reformadas, uma unidade especificamente na doutrina e no ensino.³

Notas finais
¹ Sobre esse ponto, veja C. Trimp, “Meer of mindere zuivere ware kerk?” De Reformatie, vol. 70, n. 6 (5 de novembro de 1994), 108-110. Veja também idem, “Tussen ‘waar’ en ‘vals'” De Reformatie, Vol 70, no. 23 (4 de março de 1995), 421-423. Para uma discussão mais aprofundada, ver J. W. van der Jagt, “De katholieke kerk is te vinden!” em W.G De Vries, (ed.) De Kerk. Comentários dos artigos 27-29 da Nederlandse Geloofsbelijdenis (Woord en Wereld, Bedum, 1995) 67-69

² Ver Institutas IV.1.12, onde Calvino trabalha implicitamente com a distinção entre artigos fundamentais e não fundamentais.

³ Ver J. Kamphuis “Eénheid en ‘Eenigheid'” Nader Bekeken Vol 2 no. 11 (novembro de 1995), 275-277


Tradução: Marcel Tavares.

Revisão: Ester Santos.

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