Membresia

Com a mesma mentalidade no namoro e no casamento

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O que a sua vida amorosa tem a ver com a Ordem da Igreja? Quando você está em busca de uma companhia para a vida toda ou quando você noiva com alguém para se casar, a Ordem da Igreja é provavelmente a última coisa em sua mente. Na verdade, é perfeitamente possível que você diga: “Ordem da Igreja? O que é isso mesmo?

No entanto, se você puder localizar a Ordem da Igreja das Igrejas Reformadas Canadenses (no verso do Livro de Louvor), você encontrará no Artigo 63 as seguintes palavras: O consistório deve assegurar que os membros da congregação casem-se somente no Senhor, e que os ministros — conforme autorizado pelo consistório — solenizem apenas os casamentos que estão de acordo com a Palavra de Deus.

A inclusão de um artigo sobre o casamento na Ordem da Igreja é um reflexo da importante conexão entre o casamento e a igreja. Por pelo menos duas razões, a igreja tem um interesse vital na criação de uma nova unidade familiar. Em primeiro lugar, o casamento dos membros da igreja é para refletir a relação entre Cristo e sua Igreja (Efésios 5.22-33). Em segundo lugar, as Escrituras revelam que Deus constrói sua Igreja por meio do nascimento dos filhos de pais cristãos (Gênesis 17.7; Atos 2.29). Portanto, não é exagero dizer que os casamentos piedosos e a vida familiar saudável são cruciais para o bem-estar da igreja.

Por essas razões, não é uma surpresa ver que o Artigo 63 coloca o namoro, noivado e casamento sob a supervisão do consistório de cada igreja local.  Aqueles a quem Cristo chamou para cuidarem do rebanho também devem prestar atenção à vida amorosa dos jovens (e não tão jovens) da igreja.

Somente no Senhor

A linguagem do Artigo 63 é derivada de 1 Coríntios 7.39. Nesta passagem, o apóstolo indica que uma viúva é livre para se casar com quem ela quiser, com apenas a restrição de que esse novo casamento deve ser no Senhor. Isso significa que um relacionamento pode ser considerado somente com alguém que é um cristão na confissão de fé e na vida. A igreja deve ensinar a sua juventude que entregar seu coração em amor a um incrédulo é quebrar a sua comunhão de fé com Deus. Algumas vezes ouvi o argumento de que 1 Coríntios 7.39 apenas proíbe o casamento com um incrédulo, mas não proíbe namorar um não cristão. Esse argumento falha em dois pontos.  Primeiro, a Bíblia não apoia um conceito de namoro recreativo que não teria como objetivo geral a busca de uma companhia piedosa para o resto da vida. Segundo, iniciar um relacionamento sabendo muito bem que esse relacionamento não pode progredir de maneira natural seria tentar Deus — algo que os cristãos nunca devem fazer (Mateus 4.7)!

A proibição bíblica contra o casamento com um incrédulo encontra mais força em 2 Coríntios 6.14—7.1. Paulo não está discutindo sobre casamento durante esse trecho, ele está advertindo contra quaisquer associações emaranhadas com pessoas não-cristãs.  Seu princípio básico é: “Não se prendam a um jugo desigual com os incrédulos”. Paulo não está dizendo que os crentes precisam evitar o mundo como os amish e outros grupos anabatistas fazem (1 Coríntios 5.10). O contato na vida cotidiana com aqueles que não confessam a Cristo é inevitável e até mesmo desejável. De que outra forma as boas novas do Evangelho seriam anunciadas? No entanto, Paulo está dizendo que os crentes não podem entrar em um relacionamento comprometedor. Eles não devem ter “comunhão” com os incrédulos. Essa metáfora encontra sua origem em Deuteronômio 22.10, que afirma: “Não lavrarás com junta de boi e jumento.” Sem tentar aqui explicar essa passagem, podemos dizer que, para Paulo, “o cristão é uma raça diferente do incrédulo e, é proibido um relacionamento impróprio com ele.”¹

Talvez uma pessoa que esteja considerando um relacionamento com um não-cristão tenha esperança na promessa de que a outra pessoa nunca interfira com a ida dela para a igreja, ou com a oração e a leitura da Bíblia. Muitos jovens caíram na promessa de um namorado ou namorada incrédulos que afirmava “nunca irei interferir em suas crenças.” Entretanto, se pensarmos sobre isso, logo perceberemos que um casamento baseado em pressuposições religiosas opostas nunca alcançará a unidade de vida que é o esperado para a vida de casado. Como pode haver unidade real na vida de uma pessoa que é orientada por cada palavra falada por Deus, enquanto o outro lado, não tem consideração nenhuma pela mesma palavra de Deus? Um choque de valores e de estilo de vida são inevitáveis. É preciso pensar também no impacto de um cônjuge descrente na educação de uma criança que possa nascer. Possivelmente o cônjuge incrédulo não impedirá o caminho do batismo, a frequência à igreja e a instrução do Catecismo. Não obstante, pode-se esperar que a falta de um exemplo positivo e piedoso de fé e conduta imponha uma marca à vida familiar.

Por essas razões, é necessário que as igrejas ensinem que Deus proíbe o casamento com os incrédulos. Aqueles que não se arrependerem desse pecado precisam ser disciplinados pela igreja de maneira amorosa e firme. Mesmo que um membro da igreja esteja apenas iniciando um relacionamento, ou já esteja profundamente envolvido com um incrédulo, a igreja deverá ter a coragem de pedir a ele que desista desse relacionamento errado — mesmo que traga um grande custo emocional. Por causa de seu relacionamento com o seu Deus e Salvador, os cristãos deverão estar dispostos a negarem até mesmo seus sentimentos mais fortes por outra pessoa.  Porque o nosso Deus é o único Deus verdadeiro que merece o nosso amor irrestrito e total obediência, somos chamados a “repudiar a todas as criaturas a fazer qualquer coisa, mínima que seja, contra a Sua vontade.” (Resposta 94 do Catecismo).

Como a igreja deveria responder se a parte externa em um relacionamento está mostrando algum interesse na Palavra de Deus e está disposta a vir para instrução na fé? Esse interesse inicial torna essa relação aceitável para o Senhor? A resposta deve ser negativa. Aqueles que demonstram interesse na Palavra de Deus e estão dispostos a ouvir o Evangelho são sempre muito bem-vindos entre o povo de Deus. No entanto, eles não serão bem-vindos como candidatos em um relacionamento com uma pessoa crente. A promessa de frequentar a igreja ou de aceitar receber instruções não será suficiente. Sejamos honestos sobre esse ponto. Interesse romântico em um membro da igreja poderá levar uma pessoa de fora² a fazer promessas baratas. O que é necessário para o namoro cristão e o casamento não é simplesmente a possibilidade de uma futura aceitação da fé, mas sim, uma profissão de fé contínua adornada por uma vida piedosa em comunhão viva com a igreja. Fora desse quadro, o relacionamento é condenado por Deus e precisa de uma resposta de advertência.

E as diferentes denominações?

Vamos agora transformar essa discussão em algo bem mais complicado. Temos falado sobre namoro e casamento envolvendo um crente e um não-cristão. E sobre namoro e casamento envolvendo um membro de uma fiel igreja reformada e alguém que confessa a Cristo, vive uma vida piedosa, mas pertence a uma denominação diferente? Essa relação é permissível? Como a igreja deveria responder?

O material mais claro para encontrarmos respostas para essa pergunta é na nossa visão das confissões reformadas. Se aceitarmos de coração as confissões reformadas como uma declaração precisa do ensino bíblico, não poderemos entrar em um relacionamento com pessoas que não aceitam as confissões reformadas. Fazer isso seria relativizar nossa própria confissão de fé.

Acreditamos que somente a Palavra de Deus é o nosso padrão em doutrina e vida? Nós realmente acreditamos que Deus é soberano na salvação e não depende da nossa vontade humana?  Acreditamos na eleição incondicional graciosa de Deus, na redenção particular de Cristo e na preservação infalível do Espírito ao povo de Deus? Acreditamos que os seres humanos são por natureza depravados, seus corações corrompidos, suas mentes obscurecidas e suas vontades escravizadas? Acreditamos que somos justificados pela fé somente à parte das obras? Acreditamos que a aliança de Deus é estabelecida com os crentes e sua semente, e que os filhos dos crentes devem, portanto, ser batizados? Acreditamos que a Palavra e os sacramentos são meios de graça? Acreditamos que a lei de Deus é normativa para as vidas dos filhos de Deus? Acreditamos que a igreja deve ser governada por anciãos? Acreditamos que a disciplina da igreja é uma marca da igreja de Cristo? Acreditamos que Cristo realmente se comunica conosco na Ceia do Senhor?

Cada uma das questões acima destacam um aspecto da confissão das igrejas reformadas que é desprezada ou negada por muitas outras denominações. Sem julgar essas outras denominações, podemos perguntar como um jovem que se tornou herdeiro das riquezas da fé reformada pode iluminá-los mudando para uma igreja batista, igreja arminiana ou liberal, ou mesmo retornando à comunhão romana? Fazer isso seria um ato de infidelidade — um repúdio ingrato de uma herança dada por Deus. Em vez de mudar de igreja em nome de um relacionamento, não deveriam os jovens reformados defender sua fé e permanecer firmes como membros vivos da igreja a quem eles deram sua lealdade?

Os jovens devem almejar a mesma mentalidade³ no namoro e no casamento. O mesmo modo de pensar significa concordância na doutrina e na aplicação da doutrina à vida. A falta de mentalidade semelhante traz sérios problemas ao casamento e traz divisão à igreja. Desta forma, sempre que esse mesmo modo de pensar na confissão e na vida estiver faltando, os anciãos da igreja devem intervir com palavras de advertência e exortação.

E se o crente não-reformado em um relacionamento ser convencido do ensino da igreja reformada e estiver disposto a se tornar um membro da igreja reformada? Neste caso, os anciãos também deverão estar envolvidos desde cedo para dar instruções e testar as motivações. Até o momento em que a pessoa realmente se compromete a tornar-se um membro da igreja reformada, o relacionamento deve ser mantido em espera.

Um padrão impossível?

Alguns podem responder ao que escrevi dizendo que isso estabelece um padrão impossível. Primeiro, eles podem dizer, é impossível regular o amor. Segundo, eles podem acrescentar, já que a nossa própria confederação é tão pequena, onde alguém encontraria um cônjuge?

Em resposta ao primeiro ponto, devemos perceber que também em nossas vidas amorosas somos chamados ao autocontrole. Atração romântica não é uma emoção incontrolável. O amor envolve escolhas e decisões sobre as quais temos controle e pelas quais, portanto, temos responsabilidade. Uma atração por uma pessoa que não compartilha nossa esperança, nossa confissão e nosso modo de vida podem ser suprimidos. O mundo pode achar essa abordagem antinatural, mas aqueles que servem ao Deus vivo deverão estar dispostos a resistir todos os desejos que conflitam com sua vontade revelada. É claro que, uma vez que uma pessoa entra em um relacionamento errado e se envolve emocionalmente com um “estranho”, torna-se muito difícil renunciar ao vínculo. A lição é: não comece o que você não tem certeza de que pode completar. Se o fizer, sofrerá muita dor ao ter de romper um relacionamento impossível, ou arriscará o naufrágio de sua fé ao continuar nessa linha de conduta que o Senhor proíbe.

Agora, o que acontece com a questão de encontrar um cônjuge em uma confederação reformada relativamente pequena? Em resposta, pode-se dizer que não somos tão pequenos que não haja muitos candidatos em potencial para pessoas de todas as faixas etárias. Basta perguntar aos ministros de nossas igrejas que lhes falarão sobre um grande número de pessoas solteiras com idade acima de 21 anos. Parece que parte do problema é o fracasso dos rapazes em iniciar adequadamente o namoro. Muitos jovens parecem não ter confiança ou liberdade interior para procurar ativamente uma jovem piedosa da igreja. Por que isso é assim poderia ser o tópico de outro artigo. Por enquanto, eu gostaria de encorajar as pessoas solteiras a levarem seus sinceros desejos diante do Senhor em oração, pedindo a Ele que os guie à pessoa certa para o casamento. Não devemos forçar a porta da providência, mas quando o próprio Deus abre a porta, devemos percorrer e aproveitar as oportunidades que Ele nos dá.

Notas:
¹ Gordon Fee, citado por Paul Barnett em A Mensagem de 2 Coríntios (Inter-Varsity Press, 1988), página 130.
² Eu observei que as pessoas às vezes respondem negativamente ao uso do termo “outsider”. Mas veja em Colossenses 4.5, 1 Tessalonicenses 4.12 e em muitas outras passagens do NT. O casamento cristão é apenas para “insiders”.
³ Douglas Wilson trabalha com esse conceito de “like-mindedness” em Her Hand in Marriage: Biblical Courtship in the Modern World (Canon Press, 1997), páginas 67-69.


Fonte: Clarion, 1999

Tradução: Morgana Mendonça.

Revisão: Thaís Vieira.

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