Presbiterato

Você é apto para ensinar?

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Há algum tempo, na igreja local em que servi, houve uma discussão no Conselho sobre o ensino do Catecismo. Estávamos ocupados nos preparando para mais um ano de ensino do Catecismo e surgiu a questão sobre se o ministro deveria ou não ensinar todas as aulas ou se os presbíteros também deveriam ajudar neste trabalho.

O contexto desta discussão em particular é que o Conselho assume que a instrução do Catecismo seja, na medida do possível, limitada a uma noite por semana. O sentimento, é que o ministro está fora noites suficientes por semana presidindo ou participando de reuniões, fazendo visitas e fazendo outras coisas, e assim mais noites fora de casa não seriam justas ou propícias para uma vida familiar saudável.

Mão de obra adicional

Ao mesmo tempo, é óbvio, em nossa grande congregação, que para todas as aulas de Catecismo sejam em uma noite, seria necessário recrutar mão de obra adicional. Então, quem seria recrutado? Onde vamos procurar por instrutores adicionais? A resposta quase automática possa ser que devemos olhar para aqueles que ensinam em nossas escolas cristãs e pedir-lhes para ajudar. Por outro lado, visto que eles lidam com os jovens da aliança durante o dia, é aconselhável exigir que eles também façam isso à noite? Mas, se não eles, pode-se pensar em alguns outros membros aptos da congregação? Claro, isto também é uma possibilidade.

No processo de fazer esses tipos de perguntas, surgiu outra mais fundamental e que tem uma influência direta no foco desta revista [Diakonia Canadá, 2000]. É esta: e quanto aos oficiais? Especificamente: e quanto aos presbíteros? O apóstolo Paulo não diz em sua carta a Timóteo que um bispo na igreja também deve ser “apto para ensinar”? (1 Tm 3.2)

Perguntas

Agora, eu imagino que alguns de vocês reagirão a isto dizendo: “Sim, mas este não é o território exclusivo dos ministros? Paulo também não diz a Timóteo: ‘Devem ser considerados merecedores de dobrados honorários os presbíteros que presidem bem, com especialidade os que se afadigam na palavra e no ensino’? Estas palavras não provam que deve haver uma definição bastante rígida de trabalho entre os presbíteros e os ministros, na medida em que os ministros cuidam da pregação e do ensino, enquanto os anciãos lidam com assuntos de supervisão?”

Permitindo o fato de que deve haver alguma distinção entre estes ofícios, a questão permanece se a linha pode ou não ser definida de maneira tão estrita. Os ministros também não lidam com assuntos de supervisão em quase todas as reuniões do Conselho? Então, o que há de impedir que os presbíteros assumam uma parte do ensino das aulas de Catecismo?

Eu diria que a resposta para isso é: “nada”. Na verdade, para que alguém seja um presbítero na igreja de Jesus Cristo, ele tem que ter alguma habilidade de ensinar. Quando ele realiza visitas familiares e individuais, ele precisa ouvir muito, mas também precisa dar instrução de vez em quando. Ele precisa ser capaz de apresentar e defender a verdade bíblica de forma clara, ordenada e concisa.

Se este é o seu chamado nas casas dos membros, por que ele também não pode preencher este tipo de chamado nas aulas de Catecismo? Naturalmente, tal instrução pode demorar mais tempo, exigir mais estrutura e ser mais regular, mas será que ela deve, por estes e outros motivos, ser evitada completamente? Eu acho que não.

Uma proposta

Na verdade, para começar, o que eu proponho, é que todos os Conselhos tenham um olhar atento da qualificação Paulina sobre o “apto para ensinar” e perguntar se é uma realidade na vida e no trabalho dos presbíteros. É uma qualificação que levamos a sério ou uma para a qual fechamos os olhos?

Em segundo lugar, eu recomendaria que cada presbítero ensine pelo menos uma turma de Catecismo por um número de meses. Um presbítero poderia ensinar de setembro a dezembro, e o outro de janeiro a abril.

Em terceiro lugar, recomendaria que o ministro continue a ensinar a maioria dos alunos e as aulas, mas que os presbíteros o ajudem de tal forma que, de fato, a instrução do Catecismo possa acontecer apenas uma noite por semana.

Efeitos positivos

Se tal curso de ação for seguido, haverá uma série de efeitos positivos. Estes incluirão que os presbíteros melhorarão a sua reputação aos olhos da congregação, mostrando que eles são “aptos para ensinar” e, assim, atendem às qualificações bíblicas. Além disso, os presbíteros se familiarizarão mais com os jovens da igreja, bem como com suas perguntas e necessidades. Finalmente, os próprios presbíteros sairão desta experiência enriquecidos e fortalecidos. Repetidamente, os presbíteros que ensinaram aulas de Catecismo me disseram: “Aprendi mais que os alunos”. Por meio do trabalho preparatório de leitura, escrita, pesquisa e pensamento, os presbíteros se viram estimulados por meio do contato com as verdades da fé cristã.

Então, presbítero, por que não dar um passo adiante e se voluntariar para ensinar uma turma de Catecismo durante todo ou parte de um ano? Por que não provar que você também é “apto para ensinar”?

Notas:

1 Refere-se ao livro de Ordem da Igreja, elaborado durante o Sínodo de Dort (1618-1619). [N. do E.]

2 No artigo original o autor se refere ao Artigo 22 da Ordem da Igreja das Igrejas Reformadas Canadenses. No Regimento das Igrejas Reformadas do Brasil o artigo que se refere aos deveres dos presbíteros é o artigo 16. [N. do E.]

3 Nas igrejas reformadas existe a prática de dividir a membresia em setores e grupos. O setor pode ser uma localidade (por exemplo: um bairro). Os grupos são compostos por famílias, casais e membros solteiros. Cada setor e grupo tem um ou mais oficiais diretamente responsáveis por eles. Esses oficiais visitam para supervisionar e servir os membros que lhes são confiados; e relatam ao Conselho (ou a Diaconia) o trabalho feito em seus setores e grupos. [N. do E.]

3 ARTIGO 16. Os Deveres dos Presbíteros: Os deveres dos presbíteros são: supervisionar a igreja de Cristo, junto com os ministros da palavra, para que cada membro se comporte em doutrina e vida conforme o evangelho; cuidar da pregação da Palavra, dos cultos, da administração dos sacramentos, do ensino e do evangelismo, fazer fielmente visitas na congregação; exercer a disciplina cristã para que os sacramentos não sejam profanados; zelar como mordomos da casa de Deus, para que tudo seja feito com decência e boa ordem; auxiliar os ministros da palavra com bons conselhos e supervisioná-los em doutrina e vida. [N. do E.]

4 Para saber mais sobre a prática dessa censura, ver o artigo “Os oficiais e a censura fraternal: http://revistadiakonia.org/os-oficiais-e-censura-fraternal. [N. do E.]

5 Em português recomendamos o livro escrito por John Sittema chamado Coração de Pastor (São Paulo, Cultura Cristã, 2014). E também o livro do Dr. Cornelis Trimp, Cuidando da Igreja: O ofício de presbítero — Um manual comentado (Maceió: Abram de Graaf, 2015). [N. do E.]


Artigo publicado originalmente na Revista Diakonia (Canadá), 2000.

Tradução: Elias Barbosa

Revisão: Fábio Galvão.

O website revistadiakonia.org é uma iniciativa do Instituto João Calvino.

Licença Creative Commons: Atribuição-SemDerivações-SemDerivados (CC BY-NC-ND). Você pode baixar e compartilhar este artigo desde que atribua o crédito à Revista Diakonia e ao seu autor, mas não pode alterar de nenhuma forma o conteúdo nem utilizá-lo para fins comerciais.

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