Ministério da Palavra

Vocação pastoral condicionada

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Tem se tornado comum falar numa escassez de vocacionados ao Sagrado Ministério da Palavra e dos Sacramentos (não da Música, mas este é um assunto para outro post). De fato, falando em termos de Igreja Presbiteriana do Brasil, temos experimentado uma espécie de rareamento de candidatos ao Ministério para serem enviados aos nossos seminários1.

Creio que existem diversas razões para tal escassez, sendo que, a principal, muito provavelmente, é uma visão materialista da vida que é esposada por muitos pais, que demonstram grande preocupação com o futuro profissional dos seus filhos. Houve um tempo em que não poucos pais cristãos ansiavam que seus filhos aspirassem ao Sagrado Ministério. Não poucas mães, estando seus filhos ainda em seus ventres, rogavam ao Senhor que fosse servido em chamá-los para o pastorado. Ao longo dos anos, a visão dos cristãos mudou drasticamente. Em certa ocasião, ao conversar com um casal acerca de como eu enxergava em seu filho dotações que o habilitavam para o pastorado, a mãe fez uma careta, como que desejando que esta fosse a última coisa a acontecer na vida do seu filho.

Se, por um lado, o número de vocacionados é baixo, por outro, dentre os poucos que aparecem, alguns trazem uma série de condições que são impostas e que precisam ser atendidas, a fim de os mesmos se disporem a ir para o seminário. Geralmente, as condições giram em torno da impossibilidade de se deslocar até um seminário, em razão de o candidato ser casado e pai de família. Trata-se, por exemplo, de uma carreira, relativamente bem sucedida, que o mesmo não deseja abandonar, a fim de se dedicar integralmente à sua preparação teológica e ministerial.

Apresenta-se um cenário ideal e o mesmo deve ser perseguido, como por exemplo, um seminário na cidade onde o candidato reside e que possua um curso noturno, de modo que ele não precise deixar tudo para trás e se tornar interno num seminário em outra cidade, sobrevivendo com parcos recursos que lhe são enviados por seu presbitério e igrejas mantenedoras. Uma vez que tal cenário seja construído ou algo próximo dele, com alegria o candidato inicia a sua preparação.

Eu considero este pensamento bastante problemático. Em primeiro lugar, isso trará implicações para o ministério pastoral da pessoa, uma vez que o seu status quo é determinante para tudo o que a pessoa fará em termos de preparação. Sua preparação acadêmica e vocacional é submissa da sua carreira profissional. Se for assim enquanto candidato, assim também será quando ordenado. Em segundo lugar, isso acabará por indispor o futuro pastor a assumir um campo ministerial em outra cidade. Uma vez que sua carreira profissional está alicerçada na cidade onde atualmente reside, qualquer possibilidade que implique em abandoná-la será desconsiderada. O futuro ministro estará disponível para aceitar qualquer convite, desde que na cidade onde ele reside.

Além disso, tal atitude contrasta de modo flagrante com aquilo que nos é apresentado nas Escrituras, notadamente nos Evangelhos, quando do chamado feito por Jesus àqueles que dentro de pouco tempo se tornariam apóstolos:

Partindo Jesus dali, viu um homem chamado Mateus sentado na coletoria e disse-lhe: Segue-me! Ele se levantou e o seguiu” (Mt 9.9). O evangelista Marcos registra o mesmo episódio: “Quando ia passando, viu a Levi, filho de Alfeu, sentado na coletoria e disse-lhe: Segue-me! Ele se levantou e o seguiu” (2.14).

Caminhando junto ao Mar da Galiléia, viu dois irmãos, Simão, chamado Pedro, e André, que lançavam as redes ao mar, porque eram pescadores. E disse-lhes: Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens. Então, eles deixaram imediatamente as redes e o seguiram” (Mt 4.18-20).
Houve, aqui, um rompimento com sua vocação de então. Pedro e André deixaram imediatamente as suas redes e seguiram ao Senhor Jesus. Convém recordar que, este seguir aqui não fala meramente de se tornar um seguidor de Cristo, como o são todos os cristãos. Aqui também está envolvido o segui-lo para se tornar algo específico, a saber, pescadores de homens.

Eles experimentaram dificuldades? Muitas! E é interessante que o próprio Pedro, num determinado momento do ministério terreno de Jesus, sentindo pena de si e dos demais, disse a Jesus: “Então, lhe falou Pedro: Eis que nós tudo deixamos e te seguimos; que será, pois, de nós?” (Mt 19.27). A resposta de Jesus foi fantástica: “Em verdade vos digo que vós, os que me seguistes, quando, na regeneração, o Filho do Homem se assentar no trono da sua glória, também vos assentareis em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel. E todo aquele que tiver deixado casas, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe ou mulher, ou filhos, ou campos, por causa do meu nome, receberá muitas vezes mais e herdará a vida eterna” (vv. 28-29). E esta resposta se aplica a todos aqueles que temem sair da sua zona de conforto, da sua cidade, deixar os seus empregos e partir com sua família, esposa e filhos para um seminário em outra cidade. O que nos falta? Crer nas palavras de nosso Senhor.

Dave Harvey, tratando da vocação para o Sagrado Ministério, faz uma observação preciosa. De acordo com ele, o chamado para o Ministério é uma convocação feita pelo próprio Deus: “Independentemente da situação, uma convocação é uma chamada PARA DEIXAR UMA COISA EM DIREÇÃO A OUTRA2. John Piper também observa que seguir a Jesus implica na possibilidade de precisarmos romper nosso relacionamento com a nossa vocação atual. De acordo com ele, “quando ele [Jesus] chamou os Doze para segui-lo, nenhum deles era seguidor profissional de Jesus. Eles eram pescadores, publicanos – tinham uma profissão3. É bem verdade que nem todos terão de deixar suas profissões para seguir a Cristo, porém, aqueles que aspiram ao Sagrado Ministério precisam refletir seriamente acerca das suas motivações. Desejam se dedicar ao Ministério integralmente ou condicionarão o Ministério às suas atuais ocupações? John Piper afirma ainda que, “seguir a Jesus corresponde a uma ruptura arriscada com sua vocação. Não tenha medo de renunciar ao que lhe é íntimo para segui-lo4.

Geralmente, quando expresso minhas opiniões a respeito do assunto, costumo ouvir que eu fui enviado ao seminário ainda solteiro, sem filhos e não precisei renunciar nada. Bem, isso é verdade. No entanto, eu também tive que abrir mão de algumas coisas, como um emprego em minha cidade de origem, bem como uma faculdade com possibilidade de seguir carreira acadêmica. Independentemente disso, eu não sabia que o Senhor havia limitado o chamado para o Ministério aos solteiros ou àqueles que precisariam renunciar pouca coisa. Além disso, não se trata de uma competição para ver quem terá de renunciar mais.

A exigência do Senhor a todos os seus seguidores é que os mesmos estejam dispostos a negarem, não apenas os seus empregos, não apenas as comodidades de que desfrutam no presente, mas que estejam dispostos a negarem a si mesmos e tomarem a cruz para segui-lo (Lc 14.27). Há um custo para seguir a Cristo (Lc 14.28-32). Também há um custo para aquele que aspira ao Sagrado Ministério. É preciso calcular muito bem. É preciso estar disposto a abrir mão de muita coisa.

Mas, e a nossa família? Ela vai passar dificuldades! Certamente. Mas isso só explicita a atual mentalidade da nossa sociedade ocidental e do quanto nós mesmos, cristãos, estamos infectados por ela. Passamos a ver o sofrimento e as dificuldades como coisas horríveis que precisam ser evitadas a todo custo, não como elementos normais e necessários para o nosso amadurecimento e o nosso aperfeiçoamento para a obra do Senhor. Duvidamos das promessas que o Senhor nos fez em sua Palavra, no sentido de ser o nosso Deus e o Deus de nossos filhos (Jr 7.23), de nos amparar, de ser o nosso Pastor e de não nos faltar, nem mesmo quando atravessarmos o terrível vale da sombra da morte (Sl 23). Nosso problema é a incredulidade.

Durante os meus anos de seminário, eu convivi com colegas seminaristas casados e com filhos. Todos eles renunciaram às vocações e trabalhos que tinham. Agora, como professor visitante em dois seminários da Igreja Presbiteriana do Brasil, eu vejo a mesma coisa. Na verdade, vejo com ainda mais frequência, uma vez que o número de seminaristas casados e com filhos ultrapassa o de seminaristas solteiros.

Encerro com um destaque que espero não ser necessário, mas, por via das dúvidas, tem de ser feito. Esta reflexão foca a sua atenção nas motivações do coração. Assim, ela não tem por objetivo constranger pessoas que, de repente, habitem numa cidade onde existe um seminário disponível e tenham de trabalhar, a fim de sustentar a sua família. A questão se concentra naqueles que não abrem mão das comodidades de que desfrutam hoje, para irem para o seminário. Creio que, em parte, isso se deve ao nosso apego aos confortos que a sociedade ocidental tem nos proporcionado. São muitos aqueles para os quais é simplesmente inimaginável passar por algo semelhante ao que foi experimentado pelo puritano Henry Scougal: “Durante o seu encargo pastoral, as durezas que ele suportou eram o tema comum das conversas de todos os que o conheciam; sua alimentação frugal e seu rústico alojamento, o frio extremo da estação e o seu abrigo nada confortável, inspiravam a compaixão alheia, mas nunca nublavam a serenidade e a jovialidade do seu espírito5. O nosso Senhor Jesus Cristo deixou a glória celestial para assumir a nossa natureza humana, com todas as suas limitações e enfermidades, mas não somos capazes de deixar nossos bens, nosso conforto e nosso emprego. O problema é que enxergamos isto como algo a ser evitado a todo custo.

Sobram condições impostas. Falta o espírito de “eis-me aqui”.

Notas:
1 O autor trata de questões ligadas às Igrejas Presbiterianas do Brasil, confederação na qual serve como pastor, mas em muitos pontos esta situação também é vivida nas Igrejas Reformadas do Brasil [N. do E.].
2 HARVEY, Dave. Eu Sou Chamado? A Vocação para o Ministério Pastoral. São José dos Campos: Fiel, 2013. p. 20.
3 PIPER, John. O que Jesus Espera de seus Seguidores. São Paulo: Vida, 2008. p. 79.
4 Ibid. p. 80.
5 SCOUGAL, Henry. A Vida de Deus na Alma do Homem. São Paulo: PES, 2007. p. 30.


Revisão: Ester Santos.

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