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Uma palavra aos idosos: o serviço de visitação aos membros da terceira idade

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“Porque tudo passa e nós voamos” (Sl 90.10b)

A velhice chega para todos, ou pelo menos para aqueles que pela graça e bondade do Senhor ultrapassam os 70 ou 80 anos. Para alguns, muito tempo, para outros pouco tempo, a depender da qualidade de vida. Muito tempo para quem passa por sofrimentos, tribulações e enfermidades. Pouco tempo para aqueles que sempre se consideraram jovens. Entendendo que fomos feitos para a eternidade, o que são 80 ou 90 anos? Pouco tempo. “Uma jornada que logo termina; uma jornada contada rapidamente; um dia cujas horas passam apressadamente. Como um vapor que sobe e então desaparece; como uma chama que queima por um breve momento e então retorna à sua origem e some”.1

Quando crianças, sonhamos que o tempo passe depressa, que chegue logo a vida adulta, que possamos ser independentes, quando se chega à idade adulta lembramos com saudades dos dias de outrora desejando que o tempo não tivesse passado. E o mais surpreendente é vermos que o tempo passou rápido de mais. Chegamos à velhice e as memórias antigas são como as de ontem. Tudo parece tão próximo, que podemos afirmar que a vida não passa de um momento, especialmente quando pensamos na eternidade. “É como uma pequena gota em um vasto oceano, como um grão de areia em uma praia imensa”.2

Muito tempo, pouco tempo, o que vai fazer a diferença é a maneira como encaramos essa fase das nossas vidas, precisamos valorizar este tempo tão precioso que o Senhor nos concede, da melhor maneira possível. Alguns idosos são bem semelhantes em alguns aspectos, em outros são bem distintos. São semelhantes com relação as suas enfermidades, seus pesares, seus pecados. São diferentes quanto à situação social, uns são pobres outros ricos. Alguns têm poucas preocupações e problemas, outros estão sobrecarregados de ansiedades. Alguns têm muitos amigos enquanto outros se encontram abandonados.

Muitos são os desafios que os idosos enfrentam, dentre eles destacamos:

1) O sentimento de inutilidade na igreja – Quando um idoso olha para o passado e relembra os tempos de sua juventude, o quanto foram úteis e ativos na igreja, pode se abaterem ao ver que as suas forças já na são as mesmas, sua memória já está falhando, e até mesmo o ato de ir ao culto lhe parece algo difícil, pela sua limitação em locomover-se e até mesmo a dependência de outra pessoa para fazer algo que antes era tão corriqueiro e agradável. Nesse momento é importante, acima de tudo, amar estar na casa de Deus, ouvindo a palavra de Deus e deleitando-se na comunhão dos santos. Por isso, aproveite cada oportunidade de estar ali, alguns conselhos úteis para isso são: 1. Vá ao culto na expectativa de ser abençoado. Ore e prepare o seu coração para este momento, peça que o Espírito Santo lhe capacite a adorá-Lo como convém. 2. Participe do culto de todo coração. Una-se aos irmãos em adoração, não seja um mero expectador, mas um adorador. Ore junto com o ministro, louve a Deus de coração. Pois se você já não tem forças para fazer algumas atividades, pode ainda orar, lembre-se esse é um ministério maravilhoso e uma força da igreja. 3. Ouça a Palavra de Deus com atenção. Seja a leitura ou a pregação, atente para as verdades preciosas que estão sendo transmitidas. Ouvir a palavra de Deus é um privilégio e uma grande bênção: “Bem-aventurados aqueles que leem e aqueles que ouvem as palavras da profecia…” (Ap 1.3). Mesmo que sua memória não consiga guardar tudo ou mesmo que seus ouvidos não estejam ouvindo bem, ainda é possível levar alguma coisa do que ouviu. Seja grato por isso. 4. Valorize o sacramento da Santa Ceia. Alegre-se pela oportunidade de participar da mesa do Senhor. Este é um privilégio que o tempo não lhe tira, ali você está alimentando-se do corpo e do sangue de Cristo. Seja grato por este meio de graça que fortalece a sua fé. Portanto, ame estar na casa do Senhor, lembre-se da promessa “Plantados na casa do Senhor, florescerão nos átrios do nosso Deus. Na velhice darão ainda frutos, serão cheios de seiva e de verdor” (Sl 92.13,14).

2) Solidão – Esse é um desafio para o idoso, especialmente após a aposentadoria, a partida do cônjuge, a família distante. O idoso muitas vezes se isola, já não tem com quem conversar e sofre com a falta de companhia e muitas vezes de cuidados. Aqui está uma boa oportunidade para o ministério da misericórdia da igreja atuar e também envolver o idoso em atividades, a fim de que o mesmo se sinta útil e capaz. Algumas possibilidades são: 1) Discipular membros mais jovens ou imaturos (Tt 2.1-8);3 os idosos tem muita experiência de vida para passar para os mais jovens. 2) Atuar no ministério de educação da igreja ou nas escolas cristãs com trabalho voluntários. Ou ainda como líderes de estudos bíblicos, para homens ou mulheres (Cl 3.16). 3) Ajudar na ministério de comunhão da Igreja; contribuir para contatos evangelísticos. 4) Ajudar na obra diaconal; assistindo os diáconos nas visitas ou mesmo contribuir no cuidado e compaixão entre os necessitados. 5) Contribuir com sociedades dentro e fora da igreja, repassando seus conhecimentos para grupos mais jovens, de negócios ou profissional, na área de saúde ou artesão e outros.

3) Limitações físicas – Este é outro grande desafio para uma pessoa idosa. É doloroso sentir que você já não pode mais fazer muitas coisas que fazia antes. Não permita que isso o aflija. Esta é a sua porção nesta vida e tudo é permissão de Deus. “Por mais que o homem exterior se corrompa”, Ele pode lhe fortalecer em sua alma, de modo que o “homem interior se renova de dia em dia” (2 Co 4.16). Isto deve lembrar-lo que “resta um repouso para o povo de Deus” (Hb 4.9).

4) Tristeza – Como consequência das suas limitações físicas e enfermidades ou mesmo a partida de amigos, cônjuge ou ainda filhos. O idoso pouco a pouco vai se tornando solitário e triste. Realmente é algo pesaroso tudo isso. Mas lembre-se que você nunca ficará só se Deus é o seu Deus. Cristo é o amigo, o irmão, o marido do seu povo. Ele nunca lhe voltará às costas, mas se regozijará em você e lhe fará bem. Anime-se cristão. Suporte estas suas provações com paciência, obediência e gratidão. Pois se você tem ao Senhor como pastor, por certo nada lhe faltará.

5) Medo da Morte – Poderíamos pensar que quanto mais uma pessoa vive, mais disposta ela estaria a deixar a sua morada presente. Mas nem sempre é assim. Algumas pessoas, mesmo bastante idosas estão tão apegadas à vida presente quanto ou mais que um jovem. Não é bom que seja assim, pois, Deus, em sua misericórdia, pode enviar uma aflição para levar estes a buscar um abrigo mais seguro e verdadeiro. Você precisa lembrar que “aqui não é lugar de descanso” (Mq 2.10), portanto almeje por aquela terra feliz, onde não mais haverá velhice, onde sofrimento e saudade serão desconhecidos. Enquanto estamos aqui devemos ser gratos, mas devemos está conscientes de que este é apenas um lar temporário. Portanto digamos como Paulo: “Quanto a mim, estou sendo já oferecido por libação, e o tempo da minha partida é chegado. Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé. Já agora a coroa da justiça me está guardada” (2 Tm 4.6-8). Descanse deste mundo e esteja sempre em estado de prontidão para deixa-lo. Acima de tudo, “Põe a tua casa em ordem a tua casa” (Is 38.1). Não deixe para buscar o Salvador na última hora, antes, “busque o Senhor enquanto se pode achar; invoque-o enquanto está perto” (Is 55.6). Se tivéssemos que fazer uma viagem não no prepararíamos antes? Quanto mais devemos estar preparados para esse grande e importante passo que haveremos de dar? Que possamos dizer: “Eu morro diariamente”; “o mundo está crucificado para mim, e eu, para o mundo” (Gl 6.14); “para mim, o viver é Cristo; e o morrer é lucro” (Fl 6.14)! Viva neste mundo como estrangeiro e peregrino, e você terá “o desejo de partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor” (Fl 1.23).

Ser um idoso não é peso, mas um privilégio

A sociedade humana, em muitas culturas, é desleal para com os idosos. Têm a velhice como algo que lhe é pesado. No entanto, na cultura bíblica é bem diferente. O respeito para com os idosos entre os judeus e, também, entre nós cristãos é elevado e responsável. O nosso Deus sempre teve profundo amor e cuidado para com os idosos. Na Bíblia encontramos as bases para o respeito, segurança e amparo para os idosos.

É um grande privilégio ter idosos na igreja, eles vão na linha de frente da igreja. Eles estão diante de nós e nós podemos cuidar deles. Os idosos merecem ser honrados. Isso é sabedoria e mandamento bíblico. Os idosos são importantes por causa da sua idade, do seu trabalho, da sua sabedoria, sua experiência de vida sofrimento e provações. “Diante das cãs te levantarás, e honrarás a face do ancião; e temerás o teu Deus. Eu sou o Senhor” (Lv 19.32).

Numa sociedade onde o importante é produzir, eles podem não ter muito valor. Num mundo que a morte tem sido tirada da imagem pública, para que a sociedade fique “limpa”, os idosos significam um incômodo. A Bíblia, porém, diz que devemos honrar os idosos. E é justamente na igreja que isto deve ser realizado, principalmente nas visitas pelos presbíteros e pastores.4

Visitando os idosos

Os oficiais devem se dirigir aos idosos tendo como ponto de partida a sua honra “Coroa de honra são as cãs (cabelos brancos), quando elas estão no caminho da justiça” (Pv 16.31). A partir desse princípio, o visitador pode ajudar o idoso a olhar para o passado e ver o quanto já fizeram e agora devem saber que a verdadeira recompensa vem de Deus. O idoso, como filho de Deus, deve olhar para o presente e ver o que podem fazer, dentro das suas limitações. Ele deve se interessar pelo próximo e pelos acontecimentos na igreja, e também pode contribuir com orações. Assim os idosos experimentarão uma grande bênção.5 O idoso deve olhar para o futuro e crer que existem mãos fortes que nos ajudam quando não conseguimos mais. Cristãos idosos não devem esperar o dia da morte contra sua vontade, mas devem conhecer a força da esperança cristã.6

Devemos falar com os idosos sobre o seu passado, sobre seu trabalho, sua família, a igreja. Devemos ouvir com respeito, a história das suas dificuldades e alegrias e reagir com interesse. Com paciência, por que o idoso não é tão rápido e também pode cair em repetição.7

Os oficiais devem falar explicitamente sobre a morte e falar sobre o consolo cristão, como fala o Domingo 1 do Catecismo de Heidelberg. Nisso pode haver exortação para o idoso se livrar insatisfações e irritações. E levá-los a ter um sentimento de gratidão e serem amáveis.

Convém fazer uma visita pastoral a uma pessoa que irá se aposentar, para encorajá-lo a abrir mão de desenvolver uma tarefa. Os diáconos também devem se envolver na visitação aos idosos com visitas regulares, principalmente aos viúvos e enfermos.

Textos para visitação aos idosos: Salmos 23, 90, 92; Rm 12; Cl 3; Hb 11; Ap 21 entre outros.

Conclusão

Envelhecer para muitos tem sido um fenômeno negativo; com ele aparecem os problemas de saúde, a solidão, as limitações financeiras e o sentimento de inutilidade. Para outros é uma experiência positiva; com a velhice vem a liberação das obrigações do trabalho, permitindo ao se aposentar viajar, gastar o dinheiro que juntou, fazer coisas que em outro tempo não podia. Ambas as atitudes tem falhas, o idoso precisa ver sua vida na perspetiva bíblica. Qual o propósito de sua vida? Para que estamos nesse mundo? A resposta a essas questões pode lhe trazer alegria e contentamento, independente das circunstâncias. Também devemos estar atentos para as tentações da idade; a segurança financeira de alguns, pode trazer a tentação do materialismo em vez de uma boa mordomia. A liberdade de horários e o novo estilo de vida podem trazer um gosto exagerado pelo prazer, que substitui o equilíbrio das prioridades na vida. Tem aqueles que se tornam individualistas e egoístas, esquecendo a família e a igreja. E aqueles que até mesmo deixam de lado sua dedicação à Palavra e à oração, aos cultos e ao serviço cristão.

Caro leitor, não convém que seja assim, antes como vimos no exposto acima, devemos buscar um equilíbrio e abraçar os anos de experiência como uma vocação para ajudar os outros mais jovens. Ao invés de uma vida voltada para o lazer e o ócio, usemos nosso tempo livre para o serviço cristão, dedicação à Palavra de Deus e à oração, para um maior envolvimento com a igreja, com os filhos e netos e outras prioridades do reino.

E quando as forças não permitires mais tais atividades, deixemos ser cuidados por outros, pois essa é a vontade de Deus, que comecemos e terminemos nossa vida sob os cuidados de outros. Por sua vez, aqueles que têm o privilégio de cuidar do idoso não o faça com pesar, mas com alegria. Na igreja esse trabalho não deve ser apenas dos oficias, toda igreja pode e deve se envolver no trabalho de cuidar daqueles que vão na linha de frente, sabendo que iremos logo a seguir. “A glória do jovem é a sua força; e a beleza dos velhos são as cãs (cabelos brancos)” (Pv 20.29).

Notas:

1 OXENDEN, Ashton. O Segredo para Envelhecer Feliz. Ananindeua: Knox Publicações, 2008, p. 11.
2 Ibid, pág 12.
3 SITTEMA, John. Coração de Pastor. São Paulo: Cultura Cristão, 2008, p. 141.
4 TRIMP, Cornelis. Cuidando da Igreja – O ofício de Presbítero, um manual comentado. Maceió: Cliref, 2015, p. 122.
5 Ibid. p. 125.
6 Ibid. p. 125.
7 Ibid. p. 126.


Revisão: Ester Santos.

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