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Promessa Batismal e Educação

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O artigo 53 da nossa Ordem da Igreja1 tem como tópico as palavras: “Promessa e Educação Batismal”. Desejo ver os princípios bíblicos que estão por trás deste artigo2.

Os pais na Holanda, no tempo da Reforma no século XVI, perceberam a necessidade de reformar as escolas existentes. O que era ensinado nessas escolas tinha de ser substituído, porque vários dos professores eram “papistas e outros eram hereges, (isto é, anabatistas) ou são inúteis dorminhocos” (ou seja, mal preparados), resultando “em jovens corrompidos”. As igrejas reformadas, adequadamente, deram instruções aos ministros para se certificarem de que houvesse professores piedosos nas escolas.

No século XIX, surgiu novamente a necessidade dos pais se preocuparem com a educação dada aos seus filhos nas escolas do país. Os princípios do Iluminismo penetraram nas escolas da Holanda a tal ponto que, qualquer educação cristã que permanecesse nas escolas, deveria superar as divisões existentes dentro da cristandade. Consequentemente, não havia mais espaço nas escolas disponíveis (estado) para a instrução nos (de acordo com) Cânones de Dort. Os pais reagiram a este estado de coisas estabelecendo escolas onde a totalidade das Escrituras teve um impacto sobre o que as crianças estavam sendo ensinadas. Em conformidade com esse princípio, os pais que migraram para a Austrália, quase meio século atrás, não se contentaram em enviar seus filhos para nenhuma das escolas diurnas existentes; ao invés disso, eles perceberam a necessidade de estabelecer escolas
separadas.

Isso provoca-nos a uma grande questão sobre esse assunto: por que os pais do século XVI e XIX estavam tão insatisfeitos com a educação oferecida nas escolas existentes e o que fizeram a respeito? Por que nossos pais quando migraram para Austrália criaram suas próprias escolas? Essa questão é fundamentalmente importante se quisermos conservar as escolas que herdamos de uma antiga geração.

É claro em nossas mentes, antes de tudo isso, que nossos filhos não são de maneira alguma diferentes de nenhum outro filho nascido na rua ou no outro lado do mundo. Cada criança, sem exceção, é “concebida e nascida em pecado e, portanto, sujeita a todos os tipos de miséria, até a condenação” (como apresenta a forma para o batismo). Essa verdade nivela os nossos filhos com os filhos de todos os outros; eles não são melhores nem piores, nem mais nem menos dignos do que qualquer outra criança. Isso, por sua vez, significa que os nossos filhos não têm mais vantagens à educação reformada do que qualquer outra criança.

Entretanto, os nossos filhos são diferentes. Por quê? Em virtude de algo em Deus. Sim, nossos filhos compartilham uma depravação comum a todas as outras crianças na Austrália3, contudo, Deus ficou graciosamente satisfeito em requerer apropriadamente estas crianças e não aquelas. É significativo o que Deus disse a Abraão: “Eu estabelecerei a Minha aliança entre Mim e você e” – não Abimeleque ou alguém próximo, mas entre Mim (por um lado) e “você e seus descendentes depois de você” (por outro lado). Filhos são crianças que foram incluídas por Deus na aliança que Ele fez com Abraão, filhos da escolha de Deus. Deus, em Sua boa vontade, tem estabelecido em Jesus Cristo e na Sua aliança filhos escolhidos, enquanto Ele não fez isso com inúmeros outros.

Então, nossos filhos não se tornaram filhos da Aliança quando nasceram ou foram batizados. Ao invés disso, a verdade é que Deus reivindicou em particular um filho para Si mesmo em Sua aliança que Ele, por amor a essa criança, confiou-a aos cuidados fiéis de pais piedosos (cf. Sl 139.16). Deus não somente dá filhos aos pais; Ele também dá pais aos filhos. Em Sua Onipotência, Ele poderia dar filhos da Aliança aos pais pagãos, porém, Ele normalmente não faz dessa forma; o cuidado dos pais é muito agradável aos olhos dEle. Os filhos não se tornam filhos da Aliança porque nasceram de pais cristãos; eles nascem de pais cristãos, porque já são filhos da Aliança. Isso também explica o porquê do batismo não mudar a identidade de uma criança. Através do batismo, um filho não se torna um filho da Aliança; o batismo é mais um sinal e um selo do que o filho já é, ou seja, um pecador aceito por Deus em Cristo Jesus na Sua Aliança graciosa.

Segue-se que, essa misericórdia da parte de Deus à criança, dá aos pais da Aliança uma responsabilidade privilegiada. É claramente um privilégio extraordinário ter a responsabilidade de cuidar de um dos filhos de Deus; há uma razão pela qual as Escrituras chamam de bem-aventurados e felizes as pessoas a quem Deus torna mãe e pai dos Seus pequeninos (cf. Sl 115.12; 127.3; 128.3).

Entretanto, a dádiva de um filho da Aliança envolve mais do que um privilégio; implícito nessa dádiva também existe uma responsabilidade. Especificamente, é dever dos pais revelar para as crianças da Aliança de Deus quem é o seu Pai Celestial. Após Deus ter falado com Abraão que ele receberia o filho da promessa, requerido pelo Deus da Aliança, disse a Abraão o que ele deveria fazer: “ordenar a seus filhos e sua casa depois dele, que guardem o caminho do Senhor, para praticarem a justiça e o juízo” (Gn 18.19). De forma semelhante, Moisés instruiu os pais israelitas antes de eles entrarem na Terra Prometida, para nunca se esquecerem de nenhum dos mandamentos ou obras do Senhor, mas antes “ensiná-los aos seus filhos e netos… para que aprendam a temer a Deus todos os dias das suas vidas sobre a terra e que eles possam ensinar aos seus filhos” (Dt 4.9). Na verdade, os pais israelitas foram instruídos ao “ensino (dessas palavras) diligente aos seus filhos e você deveria falar-lhes quando sentado em sua casa, quando caminhares por um caminho, quando fores deitar e levantar” (Dt 6.7).

Outra vez, Deus ordenou aos pais que ensinassem aos seus filhos os Seus caminhos não para que esses filhos possam torna-se filhos de Deus; os pais israelitas foram ordenados a instruir os seus filhos nos caminhos do Senhor, pois já eram filhos de Deus. É sua nítida identidade como filhos da aliança de Deus por causa de Jesus que dá aos pais a responsabilidade de revelar aos seus filhos “24 horas por dia” (Dt 6.6) quem é seu Pai do Céu.

Este é o princípio que opera por trás da terceira pergunta da Forma para o Batismo dos Infantes: “Terceiro, você promete como pai e mãe instruir seu filho nesta doutrina, tão logo que ele (ela) esteja capacitado para compreender e instruí-los no máximo da sua força?”4

Os pais são instruídos a confessar que o seu próprio filho, pelo qual são responsáveis diante de Deus, não é deles mesmos, mas, é filho do próprio Deus, portanto, são necessários treinamento e atenção especial. Este é o mesmo princípio pelo qual os pais fizeram uso nos tempos antigos. Os pais compreendiam: a identidade especial dos seus filhos como filhos de Deus (um fato reconhecido por eles quando apresentavam seus filhos para o batismo), porém, exigia-se da parte deles um tratamento especial para suas crianças em casa, na igreja e na escola – “em todo o tempo”. Em virtude de quem essas crianças eram, os pais nos séculos XVI e XIX tomaram a providência necessária. Suas identidades distintas como filhos de Deus impediram os pais de submeterem seus filhos aos ensinos dos “papistas e outros hereges” no século XVI, como também, evitando que os pais do século XIX permitissem que seus filhos fossem ensinados por professores de acordo com os princípios do Iluminismo. Da mesma forma, a apreciação por essa mesma identidade distinta levou os pais na Austrália ao início de suas próprias escolas calvinistas.

Concluímos: certamente, nossa Ordem da Igreja no passado vinculou o batismo à educação5: “O consistório deve certificar-se que os pais no máximo das suas habilidades, façam com que seus filhos recebam uma educação na qual seja harmoniosa com a doutrina da Igreja, assim como prometeram no Batismo”.

Esse exemplo dos pais no passado, movidos como foram pela doutrina bíblica da Aliança, permanece hoje ainda muito apreciado por nós.

Notas:
1 O autor refere-se ao regimento das Free Reformed Churches of Australia (FRCA), conforme revisado no Sínodo 2003. Artigo 53 – Promessa Batismal e Educação: O consistório deve certificar-se de que os pais honram seus votos na instrução dos seus filhos, no máximo de suas forças, na doutrina das Escrituras, como resumida nas confissões, e devem instruir baseados na mesma orientação fornecida pelo consistório. De acordo com o mesmo voto, o conselho deve assegurar que os pais, na melhor das suas capacidades, e com a cooperação da comunhão dos santos, deem educação a seus filhos (conforme estipulado pelo governo civil) na qual se baseia nas Escrituras e nas Confissões. [N. do E.]
2 No regimento das Igrejas Reformadas do Brasil: Artigo 48 – O Compromisso dos Pais que têm Filhos Batizados: Os pais devem instruir seus filhos batizados na doutrina da palavra de Deus, como prometeram quando seus filhos foram batizados, também, se for possível, através de educação escolar baseada nesta doutrina. [N. do E.]
3 O mesmo se aplica aos filhos da Aliança que moram no Brasil. [N. do E.]
4 As perguntas usadas na forma são feitas aos pais, durante o culto, um pouco antes do batismo da criança. [N. do E.]
5 Refere-se a uma versão mais antiga do artigo 53 das Free Reformed Churches of Australia, conforme revisado no Sínodo 1983. [N. do E.]


Artigo publicado originalmente na Revista Una Sancta, 1995.

Tradução: Morgana Mendonça dos Santos.

Revisão: Ester Santos.

O website revistadiakonia.org é uma iniciativa do Instituto João Calvino.

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