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Profetisas, antes e agora

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Débora, um exemplo atual?

Quando a questão sobre se as mulheres devem ser ordenadas para o ofício eclesiástico é discutida, um dos argumentos a favor de sua ordenação é o fato de que as Escrituras mencionam profetisas. Se as mulheres podiam funcionar como profetisas nos tempos bíblicos, por que não podem ser ordenadas na igreja nos dias de hoje? O nome de Débora frequentemente vem à tona nesse assunto. Não temos aqui um exemplo de uma mulher que foi usada por Deus na ordem oficial como uma juíza, exercendo autoridade sobre os homens, bem como uma profetisa, com autoridade falando a Palavra de Deus? Isso não poderia ser um indicador de que atualmente estamos empobrecendo a igreja ao negar às mulheres talentosas a admissão no ofício de presbítero ou ministro? De fato, Débora é frequentemente usada como um precedente de renome para a ordenação eclesiástica feminina. Tal entendimento é justificado? Vamos dar uma olhada mais de perto.

Contexto Histórico

Uma regra primária para a correta interpretação e aplicação das Escrituras é colocar a passagem em questão dentro de seu contexto bíblico. Débora viveu nos dias dos juízes. Essa foi uma época caracterizada pela repetida apostasia de Israel, seguida pelo julgamento divino e pelo grito desesperado da nação por libertação. Deus repetidamente e de forma graciosa responderia levantando um juiz que, equipado com o Espírito, salvaria o povo de seus inimigos. Antes do tempo de Débora, o Senhor havia levantado Otniel e Eúde para salvar seu povo. No entanto, depois da morte de Eúde, Israel voltou a cair em pecado e assim o Senhor os entregou nas mãos de Jabim, rei de Canaã, cujo comandante, com 900 carros, era Sísera. Ele cruelmente oprimiu Israel por vinte anos (Jz 4.2-3). A situação era crítica. O perigo estava em todo lugar. Viagens normais e, portanto, o comércio era impossível e os aldeões se refugiaram em cidades fortificadas (Jz 5.6-7). Nestes tempos críticos, Israel clamou ao Senhor por ajuda (Jz 4.3). Ele ouviu o clamor deles e usou Débora para prover livramento.

Débora no serviço a Deus

É interessante notar como Deus apresenta Débora no livro dos Juízes, e como Ele a fez participante para a salvação de seu povo.

“Débora, profetisa, mulher de Lapidote, julgava a Israel naquele tempo. Ela atendia debaixo da palmeira de Débora, entre Ramá e Betel, na região montanhosa de Efraim; e os filhos de Israel subiam a ela a juízo.” (Juízes 4.4-5 ARA)

Com as duas crises anteriores, a expressão hebraica “o Senhor levantou um libertador” (Jz 3.9,15) é utilizada. Nós também frequentemente lemos sobre os juízes sendo capacitados pelo Espírito para sua tarefa militar (Jz 3.10; 6.34; 11.29; 14.19; 15.14). Notavelmente, essas expressões não são usadas com Débora. Pelo contrário, ela é apresentada como uma profetisa e não como uma liderança militar.

Como profetisa, ela estava julgando Israel e os israelitas vinham até ela para julgamento. O que isto significa? Alguém poderia imaginar que ela atuava como juíza e estava resolvendo questões legais trazidas a ela. Entretanto, essa interpretação é improvável. No livro de Juízes, um juiz é uma liderança militar que liberta a Israel, e quando o juiz “assim e assim” julgava Israel por anos, então isso significa que ele legislou sobre Israel por tantos anos (por exemplo, Jz 3.10; 10.2,3 etc.). A NVI, portanto, traduz que ela “liderava a Israel” (Jz 4.4). Como ela estava liderando Israel? Ela era uma profetisa. As pessoas vinham até ela “para julgamento”. Literalmente diz: “para o julgamento” (Jz 4.5). Em outras palavras, neste tempo de crise nacional, quando os israelitas “clamaram ao Senhor por ajuda” (Juízes 4.3), eles iam até Débora como profetisa para julgamento; o qual ela, como profetisa, poderia dar; a saber, o julgamento de Deus com respeito a sua resposta e reação ao seu pedido de ajuda. Não é de surpreender que as pessoas fossem até ela. Afinal, como profetisa, ela era a representante de Deus para o povo. Ela pronunciava a Palavra de Deus.

Foram tempos extraordinários (fora do comum). Afinal, a maneira normal de obter o julgamento de Deus em uma emergência nacional era o líder do povo de Deus ir ao sumo sacerdote que tinha o Urim e o Tumim “no peitoral do juízo” (Êx 28.30). Deus através de Moisés deu instruções específicas a esse respeito (Nm 27.21). O fato de o sumo sacerdote não ter sido consultado indica que, no tempo decadente dos juízes, o sacerdócio não funcionava como Deus havia planejado. O estado degenerado da vida religiosa de Israel, que tipificaria os dias de Eli (cf. 1 Sam 2.12), já era uma realidade nos dias dos juízes (Jz 8.22-35; Jz 17-18). Em resposta a esse triste estado das coisas, Deus misericordiosamente levantou uma profetisa, Débora, e mais tarde Ele enviaria um profeta não identificado também (Jz 6.8). As pessoas ainda podiam perguntar a Deus indo à Débora para buscar uma decisão ou julgamento de Deus. E eles fizeram. Eles estavam sofrendo gravemente sob a cruel opressão de Sísera.

Quando as pessoas vieram à Débora buscando uma decisão ou julgamento de Deus com relação à atual crise, Deus respondeu através dela. O resultado foi que ela convocou Baraque e deu a ele o mandamento de Deus para mobilizar dez mil homens para derrotar o inimigo (Jz 4.5-7). Quando ele protestou porque estava com medo, Débora garantiu que ela o acompanharia. Sua vinda como porta-voz do Senhor deu expressão tangível ao fato de que o próprio Deus iria com Baraque e lhe daria a vitória.

Débora nunca é retratada como uma líder militar de Israel, uma juíza no sentido de Otniel ou Gideão. Ela é uma profetisa. Portanto, não é surpreendente que não haja referência a ela em relação à batalha. Embora ela tenha liderado através de sua tarefa profética, ela não é descrita nas Escrituras como a juíza que libertou Israel de Sísera. Pelo contrário, é Deus quem é especificado como o libertador de Israel (Jz 4.23) e ele usou outra mulher, Jael, para matar Sísera (Jz 4.21). O papel subordinado de Débora como profetisa e não como líder militar também é evidente pelo fato de que Deus não enviou Débora para liderar as tropas na batalha, mas Baraque. Além disso, quando Samuel mencionou mais tarde os libertadores de Israel (1 Sm 12.11), ele não mencionou Débora, mas nomeou Baraque, o comandante. Da mesma forma, Débora não é mencionada com os heróis da fé em Hebreus 11. Vários líderes são listados desde o tempo dos juízes, incluindo Baraque (v. 32), mas não Débora. Tudo isso sublinha seu papel relativamente modesto em relação à libertação de Israel.

Respondendo à questão

Deus levantou Débora para ser profetisa em Israel quando essa nação se viu em apuros. A função de Débora como profetisa era uma exceção dentro de uma situação excepcional. O fato de que ela também era conhecida como a esposa de Lapidote poderia indicar o caráter específico de seu ofício. As pessoas se utilizam do exemplo dela para abordar circunstâncias atuais porque Deus falou através dela, mas não há registro de sua saída e profecias entre o povo. Sem deixar de lado o fato dela ter sido uma profetisa, não deve ser esquecido que ela também é identificada como uma mulher casada, de fato como “uma mãe em Israel” (5.7). Seu ofício profético não era tudo. Ela também cumpriu a função normal de uma mulher na vida israelita.

Débora serviria como um exemplo para nós seguirmos hoje, ordenando mulheres para o ofício de presbítero ou ministro? Levando todos os fatores mencionados acima em consideração, a resposta é claramente não. A situação em Israel era desesperada e, como exceção, Deus a levantou como profeta em Israel, dotando-a do dom da profecia. Dessa forma, Deus permitiu que ela transmitisse o mandamento de Deus de que Baraque (e não Débora) convocasse e comandasse uma força militar contra o inimigo (Jz 4.6-7). O fato de Deus ter usado uma mulher para fazer esse anúncio, revela uma condenação implícita da falta de liderança masculina em Israel. Além disso, a necessidade de Débora acompanhar Baraque e ir com ele ao campo de batalha (Juízes 4.9-10) enfatiza como a liderança masculina estava totalmente ausente em Israel. Para uma mulher ter que incitar um homem a assumir o comando e assim exercer a liderança, soava como algo desastroso (cf. Is 3.12). Isso mostrava que as coisas estavam terrivelmente erradas. Débora, portanto, não é um exemplo a ser seguido e sua situação certamente não fornece nenhuma justificativa para abrir os ofícios de liderança da igreja para as mulheres. Mas Deus é soberano e Ele pode fazer em circunstâncias extraordinárias o que não podemos fazer. Ele, portanto, usou Débora de uma maneira especial para o seu serviço.


Artigo publicado originalmente na Clarion Magazine (Canadá), 2013.

Tradução: André Lima.

Revisão: Iraldo Luna.

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