Ministério da Palavra

Pregando sobre a oração

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Todo ministro que prega através do Catecismo de Heidelberg, terminará com os belos dias do Senhor que tratam sobre a Oração. Esta seção do Catecismo, não é apenas bonita, mas também muito original. Em minha opinião, a pregação desses dias do Senhor deve seguir o padrão estabelecido pelo Catecismo.

A abordagem única do Catecismo de Heidelberg

Vamos usar a explicação do Catecismo de Heidelberg para a primeira petição como exemplo:

P.122. Qual é a primeira petição? 1
R. “Santificado seja o teu nome”.
Isto é: Que nos concedas, antes de mais nada, que possamos Te conhecer da maneira correta…Também que nos concedas que dirijamos toda a nossa vida… que o Teu nome não seja blasfemado por nossa causa, mas que seja sempre honrado e glorificado.

A coisa notável na resposta é que ela é dirigida a Deus. O Catecismo não nos ensina a falar sobre Deus, mas como orar a Deus. As respostas do Catecismo de Heidelberg estão na forma de orações.

Isto é excepcional dentro do próprio Catecismo de Heidelberg. Geralmente, Deus é referido na terceira pessoa. Isso acontece na explicação do Credo:

P.25. Por que é que você fala em três Pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo; visto que só existe um único Deus?
R. Porque o próprio Deus se revelou de tal maneira em Sua Palavra que essas três Pessoas distintas são o único, verdadeiro e eterno Deus.

Aqui aprendemos a falar sobre Deus, não a falar com Deus.

Isso também acontece na explicação dos Dez Mandamentos:

P.96. Que exige Deus no segundo mandamento?
R. Que não façamos a imagem de Deus em hipótese alguma, nem O adoremos de nenhum outro modo diferente do que nos ordenou em Sua Palavra.

Os mandamentos nos ensinam como devemos obedecer a Deus. O Catecismo fala sobre Deus e nos ensina a viver perante dEle. Na explicação das petições da Oração do Senhor, no entanto, o Catecismo de Heidelberg usa a segunda pessoa para Deus: Te, Tuas obras, o Teu nome.

Esta maneira de explicar é ainda mais notável quando comparada aos catecismos de Lutero e Calvino. Lutero, ao lidar com a primeira petição, mistura explicação e abordagem. 2

Como sucede isso? 3
Resposta: Quando a Palavra de Deus é ensinada genuína e puramente, e nós, como filhos de Deus, também vivemos uma vida santa, em conformidade com ela; para isso nos ajuda, querido Pai do céu. Aquele, porém, que ensina e vive de modo diverso do que ensina a Palavra de Deus, profana o nome de Deus entre nós; guarda-nos disso, ó Pai celeste!

No entanto, na explicação das outras petições, Deus não é abordado.

A explicação de Calvino é toda na terceira pessoa. Sua primeira pergunta e resposta da primeira petição é:

Professor: Repita para mim o conteúdo da primeira petição.
Estudante: Pelo nome de Deus, a Escritura entende o reconhecimento e a fama com que Ele é honrado entre os homens. Pedimos, portanto, que Sua glória possa ser promovida em todos os lugares e em todas as coisas.

A segunda pessoa também não é usada para a explicação da Oração do Senhor em outros catecismos que, tradicionalmente, são vistos como os antecedentes do Catecismo de Heidelberg, os de Zurique e Londres. O Catecismo de Heidelberg, ao contrário, é tão consistente ao se dirigir a Deus na explicação da Oração, que devemos assumir que isso foi feito de propósito.

Explicações sobre o Catecismo de Heidelberg

No entanto, esta abordagem não é consistentemente seguida em explicações sobre o Catecismo de Heidelberg. Vários livros sobre o Catecismo de Heidelberg começam a falar sobre a nossa oração, mas terminam com um tipo de explicação diferente. Seguem-se três exemplos.

1) A última observação do Rev. J. Van Bruggen sobre a primeira petição é: Finalmente, nós mesmos devemos viver de tal maneira, isto é, devemos dirigir nossas vidas (todos os nossos pensamentos, palavras e ações) de tal maneira que o nome de Deus não seja blasfemado por nossa causa, mas em vez disso, seja honrado e louvado.

Observamos algumas mudanças sutis. Em vez de “Seu nome” ele usa “o nome de Deus” e em vez de “Que nos concedas…”, “Nós mesmos devemos…”. Estas são pequenas mudanças, mas indicam que o caráter dessa frase mudou de petição para mandamento. A Oração do Senhor é explicada como se fosse os Dez Mandamentos! O rev. Van Bruggen não é o único que faz isso.

2) O. Thelemann, um teólogo do século XIX, escreveu que primeiro o nome de Deus deve ser santificado por nós, e em segundo lugar, através de nós. Na primeira parte, ele fala particularmente sobre o conhecimento do nome de Deus. Na segunda parte, ele explica que todos os nossos pensamentos, palavras e obras devem ser um ato de louvor a Deus, para que, através de nós, seu nome possa ser santificado. Devemos, portanto, “ordenar e direcionar nossas vidas.”

Que o nome de Deus nunca seja blasfemado por nossa causa, o que aconteceria se confessemos o nome do Senhor e não vivêssemos de acordo com a Sua Palavra…

Que através de nossa conversa e vida, outros também possam ser incitados a recorrer a Deus e, assim, honrá-lo e louvá-lo…

Destaque-se que, as palavras “ordenar e direcionar nossas vidas” são fornecidas como uma citação, mas as palavras anteriores não são. Esta é uma oferta para a mudança de petição para mandamento: “Que nos concedas” do Catecismo de Heidelberg foi alterado para “Devemos”.

Thelemann faz a mesma transição na explicação da terceira petição. A terceira seção fala sobre o cumprimento de nossa vocação. Ele diz aqui, entre outras coisas:

Não devemos pensar que devemos fazer a vontade de Deus apenas em atos particulares… Todo mundo deve estar satisfeito em sua posição e chamado… Ele deve realizar de bom grado, alegremente, fielmente e com cuidado.

Isso é diferente do que o Catecismo diz: “Também que concedas que todos cumpram os deveres de seus ofícios e vocações tão espontânea e fielmente como os anjos no céu”.

Este foi um exemplo do século XIX.

3) Um exemplo bastante recente pode ser encontrado na explicação do Dr. F. Klooster sobre o Catecismo de Heidelberg, publicado sob o título “A Mighty Comfort4. Ele percebe uma relação impressionante entre a explicação do Catecismo sobre os Dez Mandamentos e as petições na Oração do Senhor. Ele faz uma observação correta quando acrescenta: “O que Deus ordena para nossa vida de gratidão deve ser repetido em nossas orações para que ele possa nos equipar para a obediência de gratidão”.

Em sua explicação sobre a segunda petição, no entanto, Klooster fala às vezes de forma diferente:

Qualquer “bem” que fazemos deve estar de acordo com a lei de Deus.

Não só ministros, missionários e professores cristãos, mas todos nós somos chamados a fazer o trabalho de Cristo.

Orar pelo reino significa que cada um de nós deve trabalhar no reino.

Vemos, então, que as petições da Oração do Senhor são muitas vezes explicadas como se fossem mandamentos.

Se a mesma abordagem for seguida na pregação da Oração do Senhor, isso significará que o sermão começará nos dizendo como orar, mas acabará por nos dizer o que devemos fazer. Um mandamento será abordado no sermão de uma das petições.

Oração, uma categoria em si mesma.

No entanto, não devemos lidar com as petições como se fossem mandamentos. Gostaria de continuar na linha da “abordagem histórico-redentiva”. Uma das principais coisas que este método de pregação nos ensinou é que não devemos pintar toda a revelação bíblica com o mesmo pincel moralista. A Bíblia contém diferentes tipos de textos e cada um exige uma abordagem diferente. Os proponentes do método histórico-redentivo concentraram-se nas seções históricas da Bíblia. Eles notaram o fato de que, os eventos eram, frequentemente, usados para dar direções éticas: você deve fazer o que Abraão fez aqui, e, você não deve fazer o que Isaque fez lá. Contudo, história não é a mesma coisa que mandamento. A história deve ser tratada como uma categoria específica. Quando o texto mostra o que Deus está fazendo, e como Ele move a história adiante, isso deve ser central na pregação.

Gostaria de ver o mesmo princípio aplicado à oração. Uma petição não é um mandamento, nem uma parte da história. A oração é uma questão diferente. Uma petição não é algo que fazemos, mas algo que pedimos. Portanto, não devemos pregar uma petição como se fosse um mandamento. O Catecismo de Heidelberg já reconheceu a diferença fundamental entre um mandamento e uma petição. Mesmo que a seção sobre a nossa gratidão, trate da Oração do Senhor junto com os Dez Mandamentos, ela distingue claramente a oração dos mandamentos que lhe precedem. O Catecismo chama a oração de a parte mais importante da nossa gratidão. E usa a forma de mandamento para os Dez Mandamentos, mas a forma de oração para a Oração do Senhor.

Há uma boa razão para a pregação prestar atenção específica à oração. A gratidão não vem automaticamente para nós pecadores. Se fossemos deixados sozinhos, não iríamos orar corretamente. Deus, conhecendo nossas necessidades, não apenas incluiu muitas orações na Escritura, como também nos forneceu um modelo específico de oração, na Oração do Senhor. Através desta oração, devemos aprender a orar. Isso significa que temos que aprender como nos dirigir a Deus, para o qual orar, etc. Para superar nossas próprias limitações, nossa despreocupação, nosso egoísmo na oração, precisamos de uma instrução separada na oração.

A pregação na seção sobre a Oração do Senhor no Catecismo não deve ser usada para ensinar a congregação a viver, mas em vez disso, a orar. A pregação nos dias do Senhor 45-52 deve ser usada para ajudar a congregação a viver mais perto de Deus em suas orações diárias. O Catecismo de Heidelberg mostra-nos o caminho, explicando as petições como orações a Deus.

Notas:

1 Usamos a versão do CLIRE (Centro de Literatura Reformada).

2 O autor utilizou uma tradução feita por ele.

3 Catecismo Menor In: Martinho Lutero Obras Selecionadas. V.7, 1529. Trad. Arnaldo Schüler. São Leopoldo: Sinodal, 1995 págs. 447-470.

4 A Mighty Comfort: The Christian Faith According to the Heidelberg Catechism (Um poderoso conforto: a fé cristã segundo o Catecismo de Heidelberg).


Artigo publicado originalmente na Clarion Magazine, 1994.

Tradução: Elienai B. Batista.

Revisão: Ester Santos.

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