Presbiterato

Os presbíteros e seu cuidado pastoral sobre a igreja

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Há pouco tempo, fui questionado a respeito do trabalho de cuidado pastoral sobre o qual os presbíteros da igreja são responsáveis. Pensei um pouco a respeito do assunto, voltei-me para Ordem da Igreja de Dort1, e agora trago a seguir comentários breves e preliminares sobre o tema.

Cuidado triplicado

Um exame mais detalhado do Artigo 162 revela que os presbíteros da igreja precisam ter um triplo cuidado pastoral.

1. Cuidado com os membros

a) Supervisão

I. Doutrina
Os presbíteros têm responsabilidade quanto ao que os membros da igreja creem. A visão doutrinária dos membros não é algo sem importância. Os presbíteros que governam, juntamente com os responsáveis pelo ensino e pregação (os ministros), devem se manter alertas sobre a doutrina da membresia. Eles devem examinar tanto quem deseja ingressar na igreja, como quem deseja fazer profissão de fé diante da congregação. De tempos em tempos, eles também devem perguntar aos membros sobre suas crenças e discutir aspectos doutrinários com eles. Isto costuma acontecer durante a visita anual dos presbíteros aos membros.

Essa insistência na verdadeira doutrina não é uma invenção humana ou vontade de manter o controle sobre a congregação. Em vez disso, está enraizada na preocupação pela verdade encontrada no Novo Testamento. Paulo trabalhou diligentemente para que a “verdade do evangelho” permanecesse com os crentes da Galácia (Gl 2.5). Ele também alerta os presbíteros de Éfeso sobre os lobos vorazes que tentariam penetrar no meio do povo e distorcer a verdade para atrair discípulos para longe dela (At 20.29,30).

Essa grande consideração pela verdade e para que ela domine a vida da igreja é uma preocupação vital expressa em toda a Bíblia.

II. Vida
Apóstolos como Paulo e Pedro eram conscientes não apenas da verdade ou doutrina, mas também sobre como os crentes colocavam tudo isto em prática. Diversas vezes o Senhor Jesus alertou o povo sobre a hipocrisia dos líderes judeus. Da mesma forma, os escritores do Novo Testamento frequentemente exortavam os membros contra a hipocrisia e um estilo de vida antibíblico.

Sobre esse assunto, é digno de nota o fato de que em quase todas as epístolas de Paulo, ele primeiro lida com questões doutrinárias para em seguida falar sobre como essas doutrinas se aplicam na vida comum dos crentes. Romanos aborda a doutrina (capítulos 1-11) e depois trata de sua aplicação na vida dos crentes (capítulos 12-16). Gálatas consiste de doutrinas na maior parte dos capítulos 1-4, para depois dedicar-se à sua aplicação concreta nos capítulos 5 e 6. Os capítulo 1-3 de Efésios são de natureza mais doutrinária, enquanto que os capítulos 4-6 abordam sua parte prática.

A partir desses e outros exemplos, podemos concluir que o estilo de vida, o que você faz com os ensinamentos bíblicos e como os coloca em prática são importantes.

Sim, e isso deve importar também aos presbíteros. Eles são guardiões espirituais.

b) Visitação

I. Conforto
Os presbíteros precisam estar envolvidos de maneira pastoral com a vida dos membros. Como isto é feito e organizado costuma variar.

Em igrejas com muitos membros, a decisão pode ser a de definir a quantidade de presbíteros em relação a quantidade de membros. Talvez, um presbítero seria o responsável pelo cuidado espiritual de 20, 30, 40 ou 50 membros.3

Será sua tarefa tornar-se familiar a eles. Conhecer suas experiências e passado, suas vidas familiares e relacionamentos, suas situações de trabalho, sua saúde e bem-estar, enfim, todas as necessidades dos membros devem ser conhecidas pelo presbítero.

Quando um presbítero conhece os membros sob seu cuidado, ele será mais apto para confortá-los quando estiverem doentes, morrendo, sozinhos, ou em algum problema.

Entretanto, o conforto trazido por ele precisa se basear na Bíblia e deve ser acompanhado pela oração. Geralmente, partes do livro dos Salmos (16, 23, 27, 91, 121, etc) serão lidos e discutidos por serem repletos de consolações.

II. Instrução
A medida que ele conhece os membros sob sua tutela, o presbítero perceberá quem precisa ser instruído ou ensinado. Pode até ser que eles não conheçam suas Bíblias tão bem quanto deveriam, ou estejam tendo dificuldades com certos ensinamentos bíblicos, ou estejam inclinados a ideias e práticas erradas. Independente de qual seja a situação, eles devem ser capazes de se achegarem ao seu presbítero e receberem direcionamento e instrução sobre aquilo que necessitam.

Pode ser que o presbítero perceba que determinada questão doutrinária esteja além de seu entendimento. Nesses casos, ele pode requisitar a ajuda de algum membro, do ministro da palavra ou de outras fontes.

III. Admoestação
Por vezes, o trabalho de um presbítero pode se tornar muito difícil. Especialmente quando se depara com membros que estejam se desviando. Ele terá de lidar com eles e confrontá-los sobre seus caminhos errados. Esses erros podem ser de caráter doutrinário, ou um entendimento errado sobre o que a Bíblia ensina na área da conduta ou do comportamento. Neste último caso, o pecado que precisa ser confrontado geralmente será de natureza sexual.

Ainda assim, por mais árduo que seja, um presbítero precisa ter a coragem de lidar com problemas de doutrina e vida. A preocupação com o bem-estar daqueles membros e a glória de Deus devem dominar sua abordagem. Ele não deve negligenciar sua responsabilidade almejando ser popular ou ser conhecido como alguém que quer agradar aos homens.

c) Disciplina

I. Um mandamento de Cristo
No entanto, às vezes apenas palavras de admoestação não são suficientes. A parte culpada não muda. O que fazer então? Ignorar ou tolerar? Não, eles precisam passar por disciplina eclesiástica.

Mas como pecadores podem disciplinar pecadores? Eles podem porque o próprio Senhor Jesus Cristo ordenou que seus seguidores exercitem a disciplina uns para com os outros. Em Mateus 18, Cristo diz aos crentes o que fazer com seus companheiros que caem em pecado. Ele descreve quais passos devem ser seguidos.

Percebam que esses passos se encerram com a igreja. Cristo diz “conte à igreja” no versículo 17, e por “igreja” Ele quer dizer aos “presbíteros da igreja” ou “o corpo governante da igreja”.

II. O incrédulo e ímpio
Quais tipos de ofensas os presbíteros ou a igreja enfrentam? De novo, os relacionados a doutrina ou comportamento. A Ordem da Igreja refere-se a “incredulidade e impiedade”. Esta é uma categoria bastante ampla e inclui pecados de doutrina e pecados de estilo de vida.

III. Os que não querem se arrepender
Toda vez que um pecador se arrepende há gratidão na igreja e júbilo no céu. Em contrapartida, também existe quem não se arrepende, que cava sua própria cova, rejeita toda e qualquer advertência e continua a caminhar pelo caminho da mentira e da desobediência.

IV. Sem profanar os sacramentos
Se esses membros se recusam a se arrependerem, então a igreja terá de lidar com eles em termos de sua participação na congregação e no Reino de Deus.

Como isso acontecerá? Eles terão de ser admoestados repetidas vezes. Caso permaneçam no erro, os presbíteros terão de avançar no processo e impedir que participem dos sacramentos (se forem membros comungantes). Isso significa que serão impedidos de celebrarem a Ceia do Senhor dali em diante. Caso concebam uma criança, ela não poderá ser batizada. Em suma, o impuro da igreja terá acesso negado ao uso das coisas santas.

Se ainda assim essas medidas drásticas não surtirem efeito, a igreja ou os presbíteros não terão alternativa senão remover ou excomungar esses membros da igreja e colocá-los fora do Reino de Deus. Não é necessário dizer que tal poder espiritual pesa sobre os ombros dos presbíteros.

2. Cuidado sobre a congregação

a) Administração

I. Decente e em boa ordem
Presbíteros são também administradores. O que é um administrador? No mundo antigo, um administrador era um homem responsável por uma propriedade. Seu mestre poderia sair para alguma viagem e deixá-lo como gerente sobre servos, cavalos, campos, colheitas e dinheiro. Quando seu mestre retornasse, então o administrador seria intimado para prestar contas sobre todas as suas decisões e negócios feitos.

O mesmo cenário se aplica aos presbíteros. Deus os escolheu para comandar o seu povo. Eles têm de cuidar e supervisionar o rebanho. Eles estão no comando. Mas, por certo, chegará o dia no qual Deus ou seu Filho requererá a prestação de contas deles. Como os presbíteros trabalharam? Eles fizeram tudo com decência e mantiveram uma boa ordem na igreja de Deus?

b) Pastores

I. Cuidando do rebanho
Outra proeminente imagem utilizada no Novo Testamento é a do pastor. Pastores são responsáveis pelo completo cuidado do rebanho sob seu comando. Eles precisam alimentá-lo, protegê-lo, guiá-lo, cuidar de seus membros. Eles devem ministrar todas as suas necessidades. O mesmo se aplica aos presbíteros. Eles devem se ver como pastores do rebanho de Deus. Eles devem pastorear as ovelhas de Deus.

3. Cuidado ministerial

a) Assistência

I. Um espírito ensinável
Os presbíteros devem estar envolvidos no cuidado dos membros, da congregação e também do ministério. Isto é, eles precisam estar envolvidos com a vida e o trabalho dos ministros/pastores ou dos presbíteros que pregam e ensinam. Todos em conjunto precisam ter um espírito ensinável, ou seja, precisam ser humildes o suficiente para dar ouvidos uns aos outros e aprender uns dos outros.

Às vezes, os ministros/pastores ou os presbíteros responsáveis pela pregação e ensino pensam ser superiores aos que apenas governam, e assim não precisam dar ouvidos a eles. Mentira! Presbíteros, sejam os que governam ou pregam, sempre precisam estar dispostos a ouvir e aprender uns com os outros.

II. O compromisso de trabalhar em equipe
O trabalho em equipe é outro importante elemento. Isto significa que os presbíteros precisam entender que a obra dada pelo Senhor a eles deve ser feita em conjunto. Eles precisam se ajudar, dar apoio, como também aprender uns com os outros.

Uma equipe na qual o capitão é o responsável por fazer tudo sozinho não irá muito longe. Da mesma maneira, se os jogadores não trabalham juntos, fatalmente sofrerão a derrota. O sucesso pertence aos que trabalham juntos.

III. Um entendimento sobre como viver
Outra forma pela qual os presbíteros que governam podem ajudar os que pregam e ensinam é tendo uma boa compreensão sobre a vida: suas necessidades, pressões, tentações, deveres e responsabilidades.

b) Aconselhando

I. Na área da pregação
Os presbíteros que governam precisam ser bons críticos dos sermões. Em outras palavras, eles devem ser aptos para ajudar o ministro quando este pregar dando-lhe dicas proveitosas e avaliações úteis.

II. Na área do ensino
Os presbíteros que governam também devem monitorar o ensino do ministro. Eles precisam ter certeza de que os aprendizes recebem a mensagem de forma audível, clara e efetiva.

III. Na área da visitação
Os presbíteros que governam têm uma responsabilidade quando se trata do trabalho de visita realizado pelo ministro. Ele visita os membros da igreja? Ele cuida adequadamente dos doentes, atribulados, aflitos, confusos e solitários?

IV. Ao atender às expectativas da congregação
Os presbíteros que governam devem agir como os ouvidos e olhos do ministro. Eles precisam saber como o ministro está sendo percebido, visto e falado na igreja. Se há críticas contra ele, eles precisam lidar com elas e com o ministro.

c) Supervisionando

I. Acima da crítica
Nenhum presbítero está acima de qualquer crítica. Nenhum conselho atua de forma perfeita. Eles precisam ser aptos para lidar de forma madura e sensata com a crítica que venha a atravessar o seu caminho.

II. Distribuindo críticas
Ao estar cientes de suas próprias falhas, os presbíteros também precisam ser capazes de criticar seus colegas ou o ministro, caso eles não estejam desempenhando seu ministério de forma adequada.4

III. Zelando pelo ministro
Os presbíteros precisam ser capazes de exortar o ministro caso seja necessário. Por certo, eles precisarão ser amorosos, cuidadosos e sábios na forma como farão isso. Ao mesmo tempo, seu objetivo final deve ser o de ajudá-lo a se tornar um ministro ainda melhor.

Esta foi minha breve e incompleta descrição do trabalho do presbítero que governa. Para mais informações sobre esse tema, gostaria de indicar a leitura de um livro escrito por Timothy Z. Witmer chamado “The Sheperd Leader: Achieving Effective Shepherding in Your Church” (Phillipsburg: P & R, 2010).5 Se os membros do seu conselho ou Confederação estão procurando por um livro para ler ou estudar em conjunto, então compre-o e coloque-o em sua agenda. Isso estimulará boas reflexões e discussões saudáveis.

Notas:
1 Refere-se ao livro de Ordem da Igreja, elaborado durante o Sínodo de Dort (1618-1619). [N. do E.]

2 No artigo original o autor se refere ao Artigo 22 da Ordem da Igreja das Igrejas Reformadas Canadenses. No Regimento das Igrejas Reformadas do Brasil o artigo que se refere aos deveres dos presbíteros é o artigo 16. [N. do E.]

3 Nas igrejas reformadas existe a prática de dividir a membresia em setores e grupos. O setor pode ser uma localidade (por exemplo: um bairro). Os grupos são compostos por famílias, casais e membros solteiros. Cada setor e grupo tem um ou mais oficiais diretamente responsáveis por eles. Esses oficiais visitam para supervisionar e servir os membros que lhes são confiados; e relatam ao Conselho (ou a Diaconia) o trabalho feito em seus setores e grupos. [N. do E.]

3 ARTIGO 16. Os Deveres dos Presbíteros: Os deveres dos presbíteros são: supervisionar a igreja de Cristo, junto com os ministros da palavra, para que cada membro se comporte em doutrina e vida conforme o evangelho; cuidar da pregação da Palavra, dos cultos, da administração dos sacramentos, do ensino e do evangelismo, fazer fielmente visitas na congregação; exercer a disciplina cristã para que os sacramentos não sejam profanados; zelar como mordomos da casa de Deus, para que tudo seja feito com decência e boa ordem; auxiliar os ministros da palavra com bons conselhos e supervisioná-los em doutrina e vida. [N. do E.]

4 Para saber mais sobre a prática dessa censura, ver o artigo “Os oficiais e a censura fraternal: http://revistadiakonia.org/os-oficiais-e-censura-fraternal. [N. do E.]

5 Em português recomendamos o livro escrito por John Sittema chamado Coração de Pastor (São Paulo, Cultura Cristã, 2014). E também o livro do Dr. Cornelis Trimp, Cuidando da Igreja: O ofício de presbítero — Um manual comentado (Maceió: Abram de Graaf, 2015). [N. do E.]


Artigo publicado originalmente na Revista Diakonia (Canadá), 2013.

Tradução: André Lima

Revisão: J. Maurício Moreira Jr.

O website revistadiakonia.org é uma iniciativa do Instituto João Calvino.

Licença Creative Commons: Atribuição-SemDerivações-SemDerivados (CC BY-NC-ND). Você pode baixar e compartilhar este artigo desde que atribua o crédito à Revista Diakonia e ao seu autor, mas não pode alterar de nenhuma forma o conteúdo nem utilizá-lo para fins comerciais.

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