Presbiterato

Os doentes devem tomar parte da Ceia do Senhor em casa?

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Recebi essa pergunta de um dos membros de uma das nossas congregações. Já recebi essa pergunta antes. Posso entender a questão. Irmãos e irmãs mais idosos que são muito fracos fisicamente, ou membros que precisam lidar com uma doença prolongada e, portanto, não podem comparecer aos cultos, sentem falta não apenas da sua saúde, mas também dos cultos que incluem o uso dos sacramentos. E enquanto uma gravação pode trazer o culto da igreja com a pregação da Palavra de Deus até o adoentado, isso não é o suficiente para apresentar o pão e o vinho ao que sofre. Os membros portadores de deficiência podem realmente sentir isso como uma perda. E, portanto, há a questão: a ceia do Senhor não pode ser administrada a eles em casa? Eles, em especial, não precisam do fortalecimento de sua fé em sua aflição?

Aspectos Históricos

Justino Mártir, que viveu no segundo século, escreve que em seus dias os elementos da ceia do Senhor eram trazidos aos doentes em suas respectivas casas. E o Concílio de Nicéia recomendou que este sacramento fosse administrado aos doentes terminais. Esta decisão levou ao costume romano de administrar a hóstia (o pão que se transformou no corpo de Cristo) aos moribundos. O fundamento deste costume é a doutrina de que o sacramento é o veículo da graça e é indispensável para a salvação. Além disso, a doutrina romana diz que o sacerdote, colocando a hóstia sobre o altar, oferece o sacrifício de Cristo a Deus para o perdão dos pecados dos fiéis.

É provável que Lutero tenha rejeitado a administração da ceia do Senhor aos doentes em suas casas por causa da doutrina e prática romanas. No entanto, as Igrejas Luteranas não o seguiram. Eles sempre tiveram o costume de levar pão e vinho para os doentes.

Nas Igrejas Reformadas existe uma diferença de opinião. Dr. H. Bouwman escreve em Gereformeerd Kerkrecht [Governo das Igrejas Reformadas], Vol. II, pág. 394 em diante, que Calvino administrou o sacramento aos doentes em suas casas em Estrasburgo, mas que isso não era costume em Genebra. Ao escrever de forma positiva sobre a administração do sacramento aos doentes em suas casas para o fortalecimento de sua fé para Olevianus, em Heidelberg, Calvino também disse: “Vocês sabem que a Igreja em Genebra tem um costume diferente. Estou contente com isso. Não considero saudável contender sobre este ponto. Os teólogos que consideram que a administração da ceia do Senhor aos doentes não corresponde ao mandamento do Senhor, argumentam que a santa ceia foi instituída como uma refeição sagrada, a fim de que os crentes possam ser nutridos por ela juntos em uma só comunhão. E admito de bom grado a verdade dessa afirmação”. Calvino também escreveu que tal administração em casa deveria ocorrer apenas raramente e como uma exceção.

As igrejas reformadas na Inglaterra, na Escócia, na Polônia e na Hungria estavam do lado de Calvino. Mas as igrejas na França e na Holanda não. O Sínodo Geral de Middelburg, em 1581, teve de lidar com esta questão da possibilidade de administrar a ceia do Senhor aos doentes em suas residências, “especialmente quando alguma forma de igreja (ou seja, parte da congregação e do consistório) estivesse reunida lá”. A resposta foi: “Não, os sacramentos não devem ser administrados, exceto no ajuntamento normal, no lugar onde a congregação normalmente se encontra” (Pergunta 52). Deve admitir-se que a Pergunta 81 fala sobre o problema do que o ministro deve fazer em igrejas que têm o costume de administrar a ceia do Senhor aos doentes em suas casas ou celebrar em dois momentos diferentes. Tal ministro deve sempre participar da ceia? A resposta foi afirmativa. Isto significa que, embora o sínodo tenha falado contra isso, não condenou a prática.

Em nosso século, em 1923, o Sínodo Utrecht das Igrejas Reformadas na Holanda tratou a mesma questão de novo, e formulou uma série de condições para a celebração em casa. No entanto, o Sínodo de Middleburg, em 1933, pronunciou “não ser desejável apresentar a comunhão aos doentes como um costume eclesiástico”.

O Dr. F. L. Ruthers, professor do Governo Eclesiástico nas Igrejas Reformadas nas Igrejas Reformadas do Doleantie,1 escreve sobre a mesma pergunta em seu Kerkelijke Adviezen [Conselho para a Vida da Igreja], Vol. II, pág. 184 em diante. Segundo ele, a celebração privada da santa ceia aos doentes não é saudável e não deve acontecer; e nem deveriam celebrá-la em conferências. Ela pertence ao culto da congregação. Esse foi o conselho dele.

A Ordem da Igreja

O Sínodo de Dort, 1618-1619, determina no artigo 62 da Ordem da Igreja que, após o fim do sermão e as preces gerais “no púlpito”, a Forma para a ceia do Senhor e a oração relacionada com ela tem de ser lida na mesa. Este artigo fala claramente de uma celebração apenas no culto público da congregação.

Quando o Sínodo de Utrecht, em 1905, revisou a Ordem da Igreja, o artigo 64 foi formulado como o encontramos na tradução inglesa na pág. 124 das Atas do Sínodo Orangeville 1968: “A administração da ceia do Senhor só acontecerá onde houver supervisão dos presbíteros, de acordo com a ordem eclesiástica e em um ajuntamento público da congregação”.

Em nossa Ordem da Igreja, revisada e adotada pelo Sínodo de Cloverdale, em 1983, no artigo 56, é dito o seguinte sobre a administração de ambos os sacramentos: “Os sacramentos serão administrados somente sob a autoridade do consistório, em um culto público, por um ministro da Palavra, com o uso das Formas adotadas”.

Nossa conclusão deve ser a de que nossa Ordem da Igreja não permite uma celebração da ceia do Senhor em uma residência privada ou em outro lugar, e que isso está de acordo com a história das Igrejas Reformadas Holandesas. Limitamos a celebração dos sacramentos ao culto público da congregação.2

Calvino sobre as Missas Privadas

Na verdade, isso está realmente de acordo com o pensamento de Calvino, embora, com exceções, ele permitiu uma tal celebração em casa por causa do fortalecimento da fé da pessoa fraca ou doente. Também para Calvino, a regra é a celebração no meio da congregação. Vemos isso, por exemplo, no livro IV, Cap. XVIII, 8, das Institutas da Religião Cristã (Tradução de Ford Lewis Battles, editado por John T. McNeill, p. 1436). Aqui Calvino escreve contra as “missas privadas” romanas. Ele se refere a missa privada de Roma, onde apenas o sacerdote age e se alimenta, enquanto o povo não precisa estar presente e não tomam parte da comunhão.

Calvino escreve:

Digo que as missas privadas são diametralmente opostas à instituição de Cristo, e são, por essa razão, uma impiedade profana da ceia sagrada. Para o que o Senhor nos convidou? Não é para tomar parte e dividir entre nós (Lucas 22.17)? Que tipo de observância do mandamento Paulo ensina? Não é o partir do pão, que é a comunhão do corpo e do sangue (1 Coríntios 10.16)? Quando, portanto, uma pessoa a recebe sem compartilhar, qual é a semelhança? Mas aquele homem, eles dizem, faz isso em nome de toda a igreja. Por ordem de quem? Não é isso uma notável zombaria contra Deus, quando uma pessoa revoga apenas para si algo que deveria ser feito entre muitos outros? Mas, pelas palavras de Cristo e de Paulo serem claras o suficiente, podemos concluir brevemente que, sempre que não existir esse partir do pão para a comunhão dos crentes, não haverá a ceia do Senhor, mas uma falsa e absurda imitação disso. Mas uma falsa imitação é uma corrupção”.

A “missa privada” romana difere completamente da celebração da ceia do Senhor aos doentes em casa. Contudo, o argumento de Calvino é de que a celebração da ceia do Senhor trata de compartilhar; e isso é basicamente o compartilhamento pela congregação como um único corpo. Esta é também a razão pela qual as Igrejas Reformadas vinculam a celebração da santa ceia ao culto da congregação. Portanto, quando nossas igrejas dão um passo além de Calvino, o argumento é totalmente consoante com o pensamento de Calvino em relação à congregação sacramental e ao culto como pertencentes um ao outro. E isso, por sua vez, é baseado no que Paulo escreve em 1 Coríntios 10.14-22, onde temos uma conexão clara entre adoração, ceia do Senhor e congregação como um único corpo, uma comunhão. Encontramos os mesmos três elementos também juntos em 1 Coríntios 11.17-34, e provavelmente em Atos 20.7.

Os que Já Sofrem, Precisam Sofrer ainda Mais?

Agora pode-se dizer que, dessa forma, privamos os fracos e doentes entre nós de algo que Deus deu à igreja com a intenção de fortalecer a fé. Isso é realmente verdade?

As nossas igrejas privam alguns membros do fortalecimento de sua fé?

Em primeiro lugar, a mesa da comunhão no meio da congregação não pode ser realizada nem possui substituto em uma residência particular. A comunhão congregacional em uma mesa permanece ausente.

Mas e quanto ao fortalecimento da fé através do sacramento? Isso não deveria ser um argumento importante para nós, como foi para Calvino, para permitir uma celebração “privada”? A resposta do Dr. Rutgers sobre este ponto é a seguinte: “Receber e desfrutar da graça de Deus não está vinculado ao sacramento. Caso uma pessoa possa participar, mas não o faça por negligência e indiferença, ele causará danos espirituais a si mesmo. Mas por certo, esse dano não estará lá quando uma pessoa não for capaz de ir à igreja, quando o próprio Deus coloca essa incapacidade sob a forma de fraqueza física no caminho de uma pessoa doente”.

Podemos acrescentar a isso que o uso dos sacramentos não se restringe ao momento em que o batismo ou a ceia do Senhor são administrados. Isso é evidente com o batismo. O crente pode, e usará o seu batismo durante toda a sua vida, embora tenha recebido este sacramento apenas uma vez, geralmente em sua infância. Na luta da fé, ele pode, e constantemente se voltará ao seu batismo e dirá: “Fui batizado, Deus selou as promessas da aliança a mim, posso confiar plenamente que essas promessas são certas e que posso descansar nelas, Deus não mente, em Cristo, a salvação é certa para mim, é isso que Deus confirma e me assegura no meu batismo”. Desta forma, o fortalecimento da fé através desse único batismo nunca pode ser tirado dos crentes.

O mesmo acontece com a ceia do Senhor. Usar este sacramento para o fortalecimento da fé não se limita ao momento de celebração durante o culto. Também no dia seguinte e na semana seguinte, e um mês depois, e assim por diante, o crente ainda pode usar este sacramento, como seu batismo, para confirmação e fortalecimento de sua fé. Em suas aflições, ele pode continuar a lembrar de que, por exemplo, há um mês atrás, ou um ano atrás, ele comeu o pão e tomou do copo como promessas seguras do Senhor, e que as promessas do perdão do pecado e da renovação de vida são tão certamente para ele quanto é certo que ele comeu e bebeu o pão e o vinho como sinais e selos do corpo e sangue do Senhor.

Não ser capaz de ir aos cultos da congregação é uma perda. Não há dúvida sobre isso. E também se está perdendo a participação direta nos sacramentos. Mas quando nossos irmãos e irmãs mais velhos e doentes, que não conseguem ir à igreja, mantém o que fora dito anteriormente em sua memória, o que muitos fazem, eles continuaram fazendo uso do seu batismo para fortalecer sua fé e, quando a congregação estiver junta para celebrar a ceia do Senhor, eles estarão presentes em espírito e dirão a si mesmos: “as promessas de Deus, simbolizadas e seladas à congregação hoje, certamente também são para mim, embora eu não possa participar fisicamente”. E tenham por certo, Deus cuidará de que sua benção e a alegria em Cristo como Salvador não sejam tiradas, nem perdidas, pelos irmãos e irmãs mais velhos e doentes. O sinal e o selo de um sacramento podem até estar ausentes, mas não a graça que é significada e selada. Nosso Deus é fiel, especialmente aos aflitos que clamam a ele.

 

Notas:

1 No Século XIX as Igrejas Reformadas da Holanda foram assaltadas pelo liberalismo teológico. Como consequência disto ocorreram dois grandes movimentos de separação dentro dessas igrejas holandesas. O primeiro foi a Secessão de 1834. Desse movimento surgiu a “Christelijke Gereformeerde Kerk” (CGK). O principal líder da Secessão foi o Rev. Hendrik de Cock. O segundo movimento foi, em 1886, a Doleantie. Podemos dizer que foi uma Segunda Secessão. Dele surgiram as “Nederduits Gereformeerde Kerken” (NGK). O Dr. Abram Kuiper foi o principal líder da Doleantie. Em 1892 as CGK e NGK se uniram em uma só confederação de igrejas reformadas, as “Gereformeerde Kerken in Nederland” (GKN). Este foi o terceiro grande movimento. [N. do E.]

2 As Igrejas Reformadas do Brasil mantiveram a posição do Grande Sínodo de Dort (1618-19). O Regimento das Igrejas Reformadas do Brasil diz o seguinte (Artigo 46): “Os sacramentos serão administrados somente sob autoridade do conselho, num culto público, por um ministro da palavra, com o uso das formas adotadas por um concílio ou de explicações bíblicas semelhantes às formas”. [N. do E.]


Artigo publicado originalmente na Clarion Magazine, 1986.
Tradução: André Lima.
Revisão: Thiago McHertt.

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