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Os diáconos e o conselho da igreja

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“Qual é o correto relacionamento entre os diáconos e o conselho da igreja? Eles fazem parte do conselho? Eles deveriam se encontrar regularmente com o conselho?”

Em resposta ao que na verdade é uma sequência de perguntas, em primeiro lugar, é importante mencionar que o assunto levantado aqui tem uma longa história associada a ele. Depreende-se que, desde o tempo da Reforma esse assunto é discutido. De fato, quase todo professor de sistema de governo da Igreja Reformada, seja na Europa ou América do Norte, parece ter se pronunciado abertamente sobre isso.

Recentemente, na Holanda, esta questão emergiu novamente como resultado de um livro publicado pelo Dr. J. van Bruggen chamado “Ambten in de apos tolish kerk” (Oficiais na Igreja Apostólica). Nele, van Bruggen manifesta a opinião de que a forma como os diáconos, das Igrejas Reformadas, estão atualmente envolvidos no governo da igreja é um afastamento tanto das Escrituras quanto da história da igreja primitiva. De acordo com ele, deve haver uma rigorosa e mais precisa divisão de trabalho, resultando uma clara distinção entre o conselho (ministro e presbíteros) e os diáconos.

Naturalmente, Prof. van Bruggen tem direito à sua opinião, mas ele pode provar seu ponto conclusivamente? Um exame minucioso do que as Escrituras ensinam não nos conduz a nenhuma conclusão definitiva. Verdadeiramente, ela se refere com frequência suficiente aos ofícios de bispos, presbíteros e diáconos, mas não propriamente dito se todos os três ou somente dois pertencem ao governo da igreja. Filipenses 1.1, aparentemente sugere apoiar o caso ao incluir os diáconos quando se refere “aos bispos e diáconos”. Por outro lado, se Atos 15 for usado como ponto de referência, o argumento se alinharia mais com a exclusão dos mesmos, por ser claro que o assunto da circuncisão dos gentios foi considerado apenas pelos “apóstolos e presbíteros” (v. 6).

Seguindo para as Confissões de fé, nós perceberemos que elas também falham ao responder nossa questão de forma conclusiva. Somente a Confissão Belga toca no assunto, quanto ela declara no Artigo 30 que “deve haver também presbíteros e diáconos para formarem, com os pastores, o conselho da igreja.” A partir disto, e do que mais é mencionado neste Artigo, parece que a Confissão é de opinião que os diáconos podem e devem permanecer participantes no governo da igreja, inclusive em matéria de disciplina e supervisão. Considere, por exemplo, essa citação do Artigo 30 e perceba como isso combina em uma e mesma sentença os assuntos de doutrina e assuntos de benevolência:

“Assim preservam eles a verdadeira religião e zelam para que a sã doutrina siga o seu curso, para que os maus sejam disciplinados de forma espiritual e sejam contidos e também para que os pobres e todos os aflitos sejam socorridos e consolados segundo as suas necessidades.”

Mas, se a Confissão parece responder positivamente ao envolvimento dos diáconos, o Regimento da Igreja não segue claramente este exemplo. Por um lado, ele possibilita que em pequenas congregações os diáconos possam ser agregados ao conselho (Artigo 32). Em contrapartida, ele também declara que o conselho é na realidade formado apenas pelos Ministros da Palavra e os presbíteros (Artigo 30). A conclusão é que, em alguns casos eles são membros efetivos e em outros não.

Desnecessário dizer que tudo isso não nos dá uma resposta definitiva. E, talvez, isto é o que o Senhor determinou que fosse! O que Ele parece dizer para Sua Igreja é que, enquanto não deve haver dúvidas sobre o número e as responsabilidades dos oficiais, como essas responsabilidades funcionam e se inter-relacionam com a congregação local não deve ser especificado. Esta é uma área onde a sabedoria e orientação do Espírito Santo deve ser buscada e aplicada. Consequentemente, um entendimento que deve funcionar bem em uma congregação pode não funcionar bem em outra. Em resumo, há liberdade e arbítrio nesse assunto. Ninguém é capaz de dizer conclusivamente: “assim diz o Senhor”.

Então, este não é tanto um assunto de ordenamento quanto de consulta. Eu tenho ministrado em igrejas onde ambas as abordagens foram usadas. Em uma, os diáconos se reuniam mensalmente com os presbíteros e com o ministro, no que era chamado de “reuniões do conselho1 com os diáconos” ou “conselho”2. Em outra, os diáconos só se encontravam com o conselho a cada dois ou três vezes ao ano.

Refletindo sobre estas situações tenho de dizer que ambas “funcionaram”. Contudo, esta não é exatamente a questão principal. O ponto principal deste debate pode não ser sobre o que “funciona”, mas sobre o que “funciona melhor”. E, neste caso, eu tenho de me pronunciar claramente a favor dos encontros mensais com o conselho. É fato que isto requer mais reuniões; todavia, em termos de promover um real trabalho de equipe e um maior conhecimento pastoral da congregação, nada sobrepuja isso.

Minha experiência tem sido a de que, em locais onde os diáconos raramente se reúnem com o conselho, há um quase constante atrito entre os presbíteros e os diáconos. Primeiramente, os diáconos desenvolvem sentimentos de que não fazem realmente parte e não são mais do que oficiais de segunda categoria. E segundo, os presbíteros começam a ter uma atitude praticamente condescendente com os diáconos e veem os encontros ocasionais como uma oportunidade de convocar os diáconos a prestar contas.

Por outro lado, quando os diáconos estão regularmente presentes nas reuniões do conselho e veem a si mesmos como membros do conselho da igreja, muita da competitividade é retirada. Não é mais um assunto de superioridade ou inferioridade, pertencer ou não pertencer, ter ou não ter poder. Isto se torna mais uma questão de realizarem o serviço do Senhor juntos.

Claro que isto não significa, nem deveria significar, que as distinções entre os respectivos ofícios desaparecem. Não, cada ofício deve saber sua função, foco e responsabilidades. Pregação e ensino permanecem o chamado do ministro da palavra. Supervisionar a doutrina e a vida da congregação é o chamado dos presbíteros. Servir àqueles em necessidade permanece o chamado dos diáconos.

De qualquer forma, não é possível estabelecer uma separação rigorosa entre estas funções. Há sobreposição entre elas. Existem efeitos secundários. Frequentemente, um problema financeiro possui um aspecto doutrinário que o acompanha. É uma marca de sabedoria e maturidade quando os presbíteros, diáconos e ministros podem lidar juntos com os problemas pastorais e trabalhar juntos em direção à resolução adequada.

Os diáconos são membros efetivos? Em minha mente não tenho dúvidas sobre isso.

Notas:
1 Em inglês o autor se refere ao “consistório” que é a reunião dos presbíteros e ministros da Palavra. No Brasil, as Igrejas Reformadas, geralmente se referem a esta reunião como reunião do “conselho”.
2 No Brasil nos referimos a esta reunião como reunião do conselho com os diáconos.


Artigo publicado originalmente na Revista Diakonia (Canadá), 1994.

Tradução: Sarah Alexandre Costa Nunes.

Revisão: Ester Santos.

O website revistadiakonia.org é uma iniciativa do Instituto João Calvino.

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