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Os 27 anos de coceira

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Eu assumi, sem qualquer vergonha, o título deste editorial da reportagem de capa da revista Maclean’s (29 de janeiro de 2007). O que seriam os 27 anos de coceira? Não tenho dúvidas de que você já ouviu falar da coceira dos sete anos. Não sei exatamente qual a amplitude dessa expressão, mas em 1955 Marilyn Monroe estrelou a comédia A Coceira dos Sete anos (“The Seven Year Itch”). Este filme satirizou a tendência dos homens de “pularem a cerca” de suas esposas após sete anos de casamento. Tendo isso em mente, a expressão “Os 27 anos de coceira” parece uma evolução – vinte anos de melhora! Mas esse não é o ponto dessa expressão e certamente não é o ponto do artigo de Anne Kingston na Maclean’s. A coceira dos 27 anos indica uma tendência crescente de divórcios tardios no grupo etário de cinquenta a oitenta e cinco anos. De fato, a taxa de divórcios que mais cresce em nosso país e em todo o mundo está entre os casamentos que duraram de vinte a sessenta anos. Antigamente eram apenas os ricos e poderosos que se divorciavam e se casavam novamente, mas agora é um fenômeno transcultural.

Por que?

Anne Kingston entrevistou Deirdre Bair, que acabara de lançar um novo livro, Calling It Quits: Late-Life Divorce e Starting Over (tradução livre: “Trato feito: Divórcio Tardio e o Recomeço”). Kingston deixa claro que Bair é uma pesquisadora respeitada e realizada. Kingston a perguntou se ela observava algum padrão entre os divórcios tardios. Em outras palavras, havia algum padrão na justificativa de divórcio neste estágio da vida conjugal? Aqui está a resposta de Bair:

Um distanciamento contínuo. Eu usei uma citação de Lillian Hellman para introduzir um dos capítulos: “As pessoas mudam e esquecem de contar uma para a outra”. Uma indiferença acontece, uma falta de comunicação, um não compartilhamento de qualquer coisa em qualquer nível. Isso pareceu ser o que inspirou muitas pessoas a dizer: “Tem que haver algo melhor, tem que haver algo diferente.” Claro, a infidelidade era um importante componente, mas principalmente nas classes altas. E a razão pela qual era possível que essas pessoas se divorciassem ao invés de simplesmente terminar suas vidas vivendo separadamente dentro de um casamento morto, eu acho, foi o movimento feminista dos anos 70. Muitas mulheres trabalhavam ou tinham a experiência de saber que podiam sobreviver por si mesmas, que tinham direito a uma parte da pensão do marido ou a experiência que fosse ainda que não tivessem trabalhado fora de casa, por isso acreditavam que financeiramente seriam capazes de se manterem. Pessoas na faixa dos 60 anos estão dizendo: “Eu poderia ter mais 20 anos de vida e não quero que esses 20 anos sejam o que eu estou vivendo agora, quero algo melhor”. Acho que ter mais oportunidades de sustento financeiro, e levando a longo prazo vidas mais saudáveis, inspirou muitas pessoas a tomar essa decisão realmente surpreendente.

Em seu artigo, Anne Kingston ressalta que no lugar dos compromissos tradicionais com o casamento e a família, as pessoas estão valorizando mais a liberdade individual, a identidade própria, o recomeço e a busca da felicidade. É uma irônica distorção do que é considerado um dos “direitos inalienáveis” da Declaração de Independência dos Estados Unidos: vida, liberdade e a busca da felicidade. Basicamente, em nossa sociedade moderna, o divórcio perdeu sua infâmia e desonra e, portanto, se um dos cônjuges se sentir frustrado de alguma forma pelo outro, o divórcio se torna muito atrativo. Na verdade, Kingston mostra em uma pesquisa que um em cada quatro homens e mulheres divorciados afirmaram que não haviam grandes problemas que levassem à separação. As pessoas perderam o amor e foram se distanciando, e acreditaram que uma satisfação maior estaria esperando por eles, caso estivessem livres de seu cônjuge.

A regra geral

Uma conferência de direito da família em Chicago, realizada no ano passado, sugeriu que, em cinquenta anos, uma pessoa comum terá se casado três vezes. O primeiro casamento será uma experiência inicial; o segundo casamento será para procriação e criação de filhos; o terceiro casamento será por companheirismo. Considerando as tendências contemporâneas do casamento e do divórcio, esse não é um cenário impossível. Um cenário mais provável, no entanto, é que as pessoas se envolvam em coabitações múltiplas sem o incômodo do casamento.

Algum conselho ou esperança?

Nem Kingston nem Bair dão a impressão de que gostam ou estão promovendo fortemente o divórcio. Ambos advertem contra o excessivamente romantizado divórcio (contra a romantização excessiva do divórcio). Bair adverte que o divórcio é “uma ação tão drástica” e “deve ser o seu último recurso. Não deve ser algo que você faça de mente tranquila.” Eles advertem contra perigos como a solidão, a depressão e a pobreza, que podem ser o resultado do divórcio. Mas no final, a mensagem é a seguinte: se você precisa se divorciar, faça isso com os olhos bem abertos e transforme esse fracasso no começo de um empreendimento novo e bem-sucedido.

Suponho que isso é o que se pode esperar de uma publicação secular. O desmantelamento do casamento e da família e a aceitação do divórcio e do novo casamento é um modo de vida mundano. A coceira do 7º ano ou a coceira dos 27 anos não desaparecerão, não importando qual a sua faixa etária ou classe social.

E quanto a nós?

Nas páginas de nossa pequena revista, Clarion, tem havido muitas advertências contra o espírito do individualismo ou do narcisismo, que é exatamente o que coloca o eu à frente do compromisso com os outros. Também estamos cientes do mandamento bíblico de permanecermos casados ​​“até que a morte nos separe”. O compromisso de marido e mulher com o vínculo matrimonial é sagrado. Entender isso e permanecer comprometido um com o outro nos protege da atitude indiferente que muitos têm em relação ao casamento. É claro que não podemos ser presunçosos ou complacentes: não somos imunes às atitudes e estilos de vida de nosso mundo. Podemos pensar no Livro do Apocalipse, que constantemente adverte a igreja que vive no fim dos tempos de que o compromisso com o mundo é a nossa maior ameaça. Devemos ficar em guarda, mantendo a Palavra de Deus e sendo obedientes a Jesus Cristo.

Algo mais profundo?

No entanto, resistir ao espírito e à prática de nossa era moderna e evitar a armadilha do divórcio não é suficiente. O casamento não é simplesmente uma questão de permanecer juntos, não importa o que aconteça! Quando Deus instituiu o casamento, marido e mulher foram designados para serem ajudantes um do outro. Em passagens como as de 1 Coríntios 13 e Efésios 5 fica claro que marido e mulher devem florescer no amor um do outro.

Duas coisas devem acontecer no casamento: primeiro marido e mulher devem edificar um ao outro de todas as maneiras possíveis e, em segundo lugar, ajudar-se mutuamente a viver para o louvor e a glória de Deus. Um casamento deve ser tipificado por coisas como amor, respeito, ternura, empatia e carinho. Se houver erros, eles devem ser perdoados e esquecidos. Marido e mulher devem ser confidentes um do outro. Esse é um componente muito importante para o casamento: nosso cônjuge deve ser a única pessoa em nossa vida com a qual podemos ser completamente abertos, relaxados e confortáveis. Este é o nosso amigo do peito. Essa é a única pessoa em quem podemos confiar, com quem podemos compartilhar qualquer coisa e de quem podemos esperar apoio total. Um parceiro de casamento é um presente maravilhoso de Deus para ser apreciado, desde que tenhamos uma vida juntos.

No início deste artigo, citei Bair: “As pessoas mudam e esquecem de contar uma para a outra”. Uma indiferença acontece, uma falta de comunicação, um não compartilhamento de qualquer coisa em qualquer nível.” Embora eu não goste até onde vai a pesquisa de Bair sobre divórcio, eu aprecio essa percepção de um problema fundamental com o casamento. Um problema fundamental está na falha na comunicação. Quando marido e mulher não falam um com o outro, compartilhando suas lutas, seus medos, seus sonhos, suas esperanças, quando já não ouvem um ao outro e, portanto, se conhecendo, então o casamento se torna uma concha vazia. Marido e mulher podem se tornar como dois estranhos sob o mesmo teto. Quão importante é que todos os dias marido e mulher falem abertamente e com ternura um com o outro. Não é incomum ver em um bom casamento que um casal passa pelo menos duas horas por dia em uma boa conversa um com o outro. Se houver alguma luta ou preocupação, marido e mulher podem mostrar apoio um para o outro, perdoarem-se quando for necessário e, o mais importante, levar tudo isso ao trono da graça de Deus.

O casamento é um relacionamento incrível e bonito. Foi projetado por Deus para aproximar uma pessoa a outra, como também aproximá-los a Deus. Com Sua graça e bênção, marido e mulher podem andar de mãos dadas nessa vida, ainda que por muitas décadas, indo de força em força, levando um ao outro à eternidade e à grande festa de casamento do Cordeiro.


Tradução: André Lima.

Revisão: Ester Santos.

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