Ministério da Palavra

O Seminário: Uma Estufa Espiritual

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Antes de utilizarmos desse exemplo para compreendermos o que acontece no seminário, seria útil fazermos o que os seminaristas fazem, uma breve análise de uma palavra. Isso deixará claro que descrever o seminário como uma estufa espiritual não é simplesmente um exemplo conveniente, mas é baseado no próprio significado original da palavra latina. Essa palavra é seminarium. O seminarium era um lugar onde as pessoas criavam semin, ou seja, a semente. Isso significa que a raiz da palavra “seminário” traz a ideia de ser um viveiro, sementeira ou, como foi dito, uma estufa. Parece que em algum momento na Idade Média, este termo passou a ser utilizado para descrever os lugares onde os homens eram treinados para o ministério na igreja. Quando vemos o significado original da palavra, podemos entender por que o seminário pode ser chamado de estufa espiritual.

O que Acontece no Seminário

Quando vemos o seminário como uma estufa espiritual, podemos usar o nosso entendimento do que acontece em uma estufa para entender o que ocorre nos anos em que os alunos gastam estudando lá. Três pontos principais vêm à mente.

Em primeiro lugar, sabemos que o seminário é um ambiente muito protegido e abrigado.1 É verdade que os irmãos que estudam no seminário são membros das congregações locais e têm de lidar com as atividades da vida diária. Mas apesar disso, existe um certo nível de isolamento. Os alunos não estão totalmente envolvidos nos assuntos da vida. Eles são como pequenas mudas de uma estufa que são protegidas de elementos externos, vivendo em um clima cuidadosamente controlado. Isso, é claro, é feito para dar às mudas o melhor começo possível. Uma pequena semente colocada em campo aberto muito cedo é vulnerável a ser atrofiada em seu crescimento.

É claro que os alunos que chegam ao seminário não são totalmente como pequenas mudas em uma estufa. Eles já têm alguns anos de crescimento na fé cristã. Embora de alguma maneira eles possam ser fortes na fé, motivados pelo amor ao Senhor e a sua igreja para dedicar as suas energias aos estudos, eles mesmos perceberão que são meras mudas.

Em segundo lugar, pensar no seminário como uma estufa espiritual mostra que esse é um ambiente muito rico. Tudo é projetado para estimular o máximo crescimento da graça e conhecimento para o trabalho no ministério. Os alunos serão alimentados com uma dieta teológica extremamente rica, uma vez que estão imersos na Palavra de Deus. O “cardápio” inclui Bibliologia, Dogmática, Eclesiologia, e Diaconologia. Em termos comuns, isso significa que eles continuam seu estudo de hebraico e grego. Eles são alimentados com dietas ricas de estudos do Antigo e do Novo Testamento. Eles são expostos à rica herança doutrinária da igreja. Eles também receberão uma sólida visão geral da história da igreja. Além disso, eles são instruídos sobre como precisam trabalhar com toda essa informação, para que possam alimentar a congregação com a fiel pregação e ensino. A eles é ensinado o caminho para pastorear uma congregação.

Em terceiro lugar, ver o seminário como estufa espiritual mostra que ele é especializado na sua tarefa. O proprietário da estufa criará as plantas para um mercado específico. Um se especializa em flores, enquanto outro em criar verduras. Aplicando isso ao seminário, isso significa que também é muito especializado. O seminário foi criado por seus “proprietários”, ou seja, as igrejas, para um propósito muito específico. Esse propósito é treinar homens para o ministério. Este não é apenas um treinamento genérico para o ministério, mas o ministério no meio das igrejas. As igrejas têm interesse, pois querem assegurar um fornecimento constante de ministros. Então o seminário é “pelas igrejas, para as igrejas”. Ao configurar o seminário, ao nomear trabalhadores de estufa, chamados de professores, os quais cresceram nas igrejas, é feito um esforço para ter um ambiente seguro e fértil para nutrir e cultivar.

O Que Acontece Após o Seminário

As plantas não deveriam ficar na estufa para sempre. Em vez disso, elas são criadas ao ponto em que elas podem ser plantadas no campo. Isso é verdade também para o seminário. O dia chega quando os alunos são enviados ao campo. Paulo usa essa figura para descrever a igreja em Corinto, como lemos em 1 Coríntios 3.9 – “lavoura de Deus sois vós”. Os homens passam tempo na estufa espiritual não somente para que eles possam voltar ao campo e crescer junto com as outras plantas, mas para que eles possam assumir um papel de liderança, cuidando de todas as plantas no campo de Deus. Claro, existem outros trabalhadores, ou seja, os presbíteros e os diáconos. No entanto, há um papel especial para aqueles que são chamados a serem os ministros da Palavra. Por isso, eles passam quatro anos nesse ambiente rico e protegido do seminário.

A essa altura, o exemplo da estufa se torna relevante mais uma vez. Qualquer um que tenha comprado plantas ou flores sabe que você não deveria simplesmente levar as plantas para casa e plantá-las no jardim imediatamente. Na linguagem da jardinagem, as plantas precisam ser endurecidas. Isso significa que, durante uma semana ou mais, as plantas precisam se tornar acostumadas ao ambiente externo desprotegido. Você não as coloca em pleno sol durante todo o dia. À noite, especialmente se são frias, é sábio deixar as plantas dentro da casa. Caso contrário, você pode perder as suas plantas e você terá que comprá-las novamente.

O mesmo se aplica àqueles que saem do seminário. Esta vulnerabilidade foi reconhecida e as igrejas tentaram abordá-la através da criação de um programa de treinamento pastoral. Os alunos são expostos aos vários aspectos do ministério, passando pelo menos seis meses trabalhando em uma congregação sob a orientação de um ministro. Isto é como o processo de endurecimento. Após a experiência, os alunos têm que sair da segurança da estufa espiritual. Eles entraram no seminário na esperança de que um dia eles seriam chamados a trabalhar em um dos campos de Deus.

Assim como a muda plantada lá no campo é plantada com grande potencial, o mesmo vale para os alunos que cumprem os estudos no seminário. Ao mesmo tempo, é muito importante para as plantas do campo em que eles foram colocados para ministrar, que elas recebam essas novas mudas vindas da estufa espiritual. Essa muda amadureceu mas permanece muito frágil. É esperado que haja algumas dificuldades nesse procedimento. Assim como uma nova muda, não é necessário muita força para esmagá-la.

Isso pode acontecer, por exemplo, se todos os tipos de exigências forem colocadas sobre o novo ministro com tanta rapidez que ele não tenha a oportunidade de desenvolver aquilo que foi ensinado a fazer, a saber, pregar e ensinar. Isso pode acontecer quando existem expectativas que não são realistas, como acontece quando uma nova muda é comparada a uma planta já bem estabelecida em sua pregação. É verdade, é claro, que um ministro deve trabalhar entre as plantas no campo de Deus, mas é preciso perceber que ele também é uma planta que precisa ser ministrada pelas outras plantas no campo, para que ele possa crescer na sua tarefa cada vez mais. Ele, portanto, vai precisar de bons presbíteros e bons membros.
Uma coisa é fazer com que o ministro esteja pronto para sua tarefa, mas deve-se prestar atenção para não aprontarmos com ele através das nossas exigências. Com o cuidado de outros, o ministro logo ficará bem ‘arrumado’. Com um pouco de descuido, entretanto, o novo ministro, ao invés de arrumado, será arruinado.

A Colheita deste Ano

No ano passado, mais uma colheita de mudas saiu da nossa estufa espiritual em Hamilton. Estes irmãos estão agora no processo para encontrar seus lugares nos campos de Deus. Que nosso Pai Celestial conceda a sua bênção para que possam desenvolver seu potencial. Além disso, que nosso Pai Celestial continue a agitar o coração dos irmãos para que encontrem o caminho do campo à estufa, para que possam, pela graça de Deus, voltar a servir em um dos campos de Deus. Também, que nosso Pai celestial abençoe as congregações que chamam e recebem um novo ministro, para que cuidem deles e providenciem um ambiente onde possam florescer e crescer. E, finalmente, que nosso Pai Celestial abençoe os professores, enquanto trabalham na estufa espiritual para fornecer trabalhadores aos campos de Deus. Como o Senhor Jesus disse: “A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos. Rogai, pois, ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara” (Lucas 10.2).

Nota:

¹ O autor escreve seu artigo imaginando um seminário confessional cujos os professores subscrevem e são comprometidos com as Confissões de Fé Reformadas – por exemplo: comprometidos com As Três Formas de Unidade ou Os Padrões de Westminster. Infelizmente há seminários abertos que, por permitirem a heterodoxia e professores liberais, deixam seus alunos desprotegidos a toda sorte de doutrinas de homens e de demônios. Este tipo de instituição é um perigo para alma de seus seminaristas e uma estufas de ervas daninhas para a Igreja de um país. [N. do E.]


Artigo publicado originalmente na Clarion Magazine, 2013.

Tradução: Jim Witteveen.

Revisão: Lidiane Cecilio.

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