Ministério da Palavra

O papel da pregação na liturgia reformada

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O tema com que lidaremos agora é de grande importância e constante relevância para a igreja¹. Quando falamos sobre o papel da pregação, estamos tratando do elemento central em todo o culto. Se retirarmos a pregação da liturgia, cortamos o coração do culto ao Senhor e removemos as vísceras da igreja.

Em princípio, pode parecer supérfluo falar sobre o papel da pregação entre pessoas reformadas. Não era a própria essência da grande Reforma que o poder da Palavra de Deus fosse redescoberto e a pregação reintegrada como momento chave na liturgia? Por muitos séculos, a pregação do evangelho têm sido nossa marca e força. A Confissão Belga no Artigo 29 não propõe, com razão, “a pura pregação do evangelho” como a primeira marca da verdadeira igreja? Por que razão nós, como reformados, teríamos de meditar juntos a respeito do papel da pregação?2

Bem, temos todos os motivos para fazê-lo. O ataque à centralidade da pregação na liturgia não cessa. Ao longo das eras, Satanás não tentou nada além de levar o povo de Deus para longe da gloriosa liberdade da Palavra, em direção à escravidão do ritualismo, simbolismo e idolatria. Ele também tenta fazer isso no tempo presente.

Ataque à pregação

No início deste século, havia na Europa um notável “movimento litúrgico” nas Igrejas Reformadas. Este movimento, liderado na Holanda, por exemplo, pelo professor Dr. G. Van Der Leeuw da cidade de Groningen, afirmou basicamente que, na liturgia reformada, a pregação havia recebido um lugar muito proeminente acima do sacramento. De fato, esse movimento procurou restabelecer a posição sublime e o caráter constitutivo que a Ceia do Senhor já tivera na igreja. O culto era visto como sendo uma ocorrência sacramental em que a pregação não teria a permissão de ser dominante.

Essa tentativa de levar a igreja de volta à “maldita idolatria” de Roma encontrou muita resistência nas Igrejas Reformadas.3 O efeito positivo desse “movimento litúrgico” foi, talvez, o de pedir mais atenção para outras partes negligenciadas da liturgia, mas o efeito negativo foi, sem dúvidas, enfraquecer o papel central da pregação e dar início a uma era de inovação litúrgica.

Desde o início deste século, entretanto, surgiu uma nova e maior ameaça em relação ao papel da pregação. O sermão “tradicional” (juntamente com toda a ideia de pregação) têm sofrido duras críticas nas últimas décadas, e atualmente em alguns círculos “reformados” é considerado um anacronismo, algo que já teve seu tempo e que agora é antiquado.4

Vejamos algumas das declarações que são feitas sobre a pregação que conhecemos. A pregação tradicional é considerada um monólogo enfadonho e sem graça, que não funciona mais nesta época orientada pela as mídias, com sua programação acelerada e comunicação instantânea. Muitas igrejas estão constantemente perdendo membresia, e muitos dos que permanecem não sentem que são adequadamente tocados na pregação. Muitos sermões são vistos por muitas pessoas como sendo pouco relevantes e completamente impraticáveis. A maioria dos pregadores parecem estar embarreirados com uma forma antiga e realmente não direcionam a mensagem a verdadeira necessidade e situação real dos ouvintes.

A teologia da comunicação

Atualmente, muitos veem a pregação como um “show de um homem só”, muito de um monólogo, essencialmente uma forma de comunicação bastante subjetiva e autoritária sem qualquer eficácia. Portanto, na tentativa de parar o êxodo de membros descontentes e desinteressados, muitas igrejas estão apimentando a liturgia com diversas atividades alternativas, maior envolvimento congregacional e um “afrouxamento” geral. Podemos ver que este processo tomou espaço não apenas nas Igrejas Reformadas (Sinodais) na Holanda, mas também na Igreja Cristã Reformada no Canadá e nos Estados Unidos5. E se a pregação em geral é desacreditada, especialmente a pregação do catecismo tornou-se impopular.

Se no passado vimos várias “teologias” surgindo, como por exemplo, a teologia da esperança ou a teologia da libertação, hoje vemos um completo novo campo, a teologia da comunicação. Qualquer coisa que não atenda aos padrões científicos da comunicação moderna deve ser rechaçada como sendo inútil para a igreja de Cristo atual. E por trás de tudo isso está a ideia básica de que a própria Bíblia, escrita há 2000 anos atrás, em outra época, não tem mais valor comunicativo hoje. É o criticismo das Escrituras que levou também à experimentação litúrgica.

Nós também somos confrontados por algumas dessas questões. Precisamos da “pregação ainda hoje? Nossa liturgia não está dominada demais pelo sermão tradicional? Há alguma subestimação dos sacramentos, particularmente da Ceia do Senhor? Será que a pregação ainda é eficaz e funcional para nós hoje? Não temos muitos sermões monólogos maçantes, que acalmam as pessoas para fazê-las dormir em vez de mantê-las acordadas?

Basicamente, existem duas questões aqui.6 A primeira questão é mais geral: ainda precisamos da pregação? A segunda questão é mais específica: os sermões atuais são adequados e eficazes? E somente se respondermos positivamente à primeira questão, fará sentido ponderar sobre alguns aspectos da segunda.

O caráter do culto

Devemos, também à luz do que foi exposto acima, defender hoje vigorosamente tanto a necessidade absoluta como também a centralidade permanente da pregação na liturgia reformada. A palavra “liturgia” significa serviço, e denota o conteúdo e a ordem do culto. Não pode haver liturgia sem pregação, e na liturgia a pregação ocupa a posição chave.

Nós entendemos isso ainda mais quando olhamos para o caráter do culto. O culto é nada menos do que um encontro de aliança entre Deus e Seu povo.7 Isso significa que é uma reunião especial e única, um serviço sagrado, que não pode ser comparado com qualquer encontro na Terra.

Já no Antigo Testamento, o Senhor reunia o Seu povo no tabernáculo e no templo. Podemos encontrar ecoado nos Salmos a alegria do povo de Deus ao ser chamado para essa adoração, como por exemplo, no Salmo 122:1:”Alegrei-me quando me disseram: Vamos à casa do Senhor.” Não só o Senhor proporcionou ao Seu povo um lugar de encontro específico, como também Ele determinou um dia especial, chamado de Sabbath, um dia de descanso solene, “uma santa convocação” (Levítico 23:3).

Este ajuntamento ou convocação sempre teve um caráter de jubilação e é chamado na Bíblia de “uma festa fixa”. É uma celebração da reconciliação com Deus pelo sangue da aliança, das ofertas de sacrifício, do gozo da paz e da prosperidade com Deus que Ele concede em Sua graça. Esse caráter festivo de adoração se torna ainda mais profundo no Novo Testamento quando a congregação se alegra com a reconciliação conquistada pelo sangue do sacrifício único de Cristo! A liturgia da Igreja do Novo Testamento é completamente determinada por este, dado o sacrifício de Cristo. Cristo agora está no céu como Mediador diante do trono de Deus. Tem sido dito que a atual “liturgia” (por “liturgia” refiro basicamente a obra de Cristo que Ele realiza no Santuário celeste, veja: Hebreus 8-10) acontece no céu.8 Agora, a mesma palavra para “liturgia” significa para nós o culto e adoração, tal como acontece no ajuntamento da congregação.

A pureza da pregação

Porque a pregação da Palavra desempenha um papel central e constitutivo na liturgia, ela deve ser sempre a pura pregação do evangelho. A pregação deve ser apenas a administração da Palavra. Somente as Sagradas Escrituras são a fonte e a norma absoluta para a pregação. Até mesmo a pregação do catecismo tem por objetivo de ser um resumo completo do ensino da Bíblia.9

Consequentemente, é imperativo que os ministros da Palavra se abstenham de expressar qualquer tipo de opinião pessoal no púlpito, mas que, com fidelidade e simplicidade, apresentem o evangelho de Cristo, juntamente com seu imenso conforto e séria admoestação. A Sua obra de redenção e renovação devem ser centrais em todo o tempo. A pregação deve ser completamente bíblica, cristológica e pactual, semana após semana. Isso significa que os pregadores estarão firmados no texto que foi escolhido, em vez de ficar divagando em comentários sociais ou políticos do mundo moderno.

Estou convencido de que a perda da membresia em muitas igrejas — e o declínio geral das Igrejas Reformadas nesta época — é o resultado, não do fato de que a pregação é uma forma de comunicação ultrapassada, mas de que a pregação cessou de ser completamente escriturística e verdadeiramente evangélica. Quando a Bíblia foi criticada como sendo irrelevante, os pregadores tiveram de tirar o conteúdo da pregação do mundo ao seu redor; fazendo com que a mensagem deixasse de ser a verdadeira proclamação da Palavra de Deus! Somente a pura pregação pode e realmente edifica a igreja de Cristo.

Uma das principais tarefas dos presbíteros hoje é zelar para que a pregação permaneça totalmente bíblica e funcional. Pura e direta ao ponto. A pregação é tarefa dos ministros da Palavra. Mas neste trabalho os ministros não devem ficar isolados, com sua própria autoridade e capacidade. Este trabalho está sob supervisão expressa do Conselho e sujeito à aprovação dos membros que têm o ofício de todos os crentes. Apenas quando esses três grupos cooperarem em submissão à Palavra de Deus, é que a pregação permanecerá pura e verdadeira.

A pregação na liturgia

Uma vez que definimos o papel da pregação na liturgia como sendo de central significância, agora podemos falar sobre outros aspectos ligados à liturgia. A pregação é central, mas não exclusiva. Os outros elementos da liturgia também têm sua importância e função. Por meio dos estudos de homens como C. Trimp, K. Deddens e G. Van Rongen, nós podemos começar a apreciar ainda mais a beleza de toda a liturgia reformada.

A queixa levantada foi a de que a pregação está ultrapassada. O sermão, nós ouvimos, é um monólogo sem graça e entediante. É verdade que o sermão é um monólogo, pois durante a pregação Deus fala e Seu povo escuta! Dr. Trimp escreveu: “O caráter monológico do sermão tem a ver com seu conteúdo. O monólogo expressa o ditado ‘somente pela fé’. Na verdade, sendo um monólogo, o sermão é um meio de graça.”10

O sermão é um monólogo e não precisamos nos desculpar por isso. Contudo, precisamos entender também que a liturgia é um diálogo, uma conversa, uma comunhão entre duas partes, o Senhor e Seu povo. O sermão precisa refletir essa realidade também. A pregação deve dar provas de que a mensagem está sendo direcionada ao povo dentro do contexto vivo da aliança com Deus, em relação às suas necessidades específicas, e deve conduzir o povo em resposta a Deus!

Através da pregação, o Senhor procura a resposta de Seu povo e deve haver na liturgia um espaço para essa devida e atenta resposta. A liturgia é elaborada pela Palavra de Deus, mas também é consumada pela palavra (responsiva) do povo de Deus. Portanto, a escolha de salmos e hinos, assim como as palavras das orações são de suma importância. A liturgia deve ser uma unidade, formada pela Palavra de Deus para incluir a resposta do povo. E neste ponto devemos ser cuidadosos para que o tradicionalismo ou conservadorismo não sufoque a resposta viva das pessoas.

Atualmente, existe uma tendência de se buscar mais envolvimento congregacional no culto. Isso não está de todo errado. Deve-se evitar que o culto se torne uma performance individual do ministro, pois é necessário que haja uma interação entre Deus e Seu povo. Mais algumas ações podem ser encorajadas nesse sentido.

Deixe-me exemplificar. Foi discutido convincentemente por muitos respeitados estudiosos reformados11 que a palavra “amém” deve ser dita não somente pelo ministro, mas também por toda a congregação. Ainda assim, isso não costuma ser feito em nossas igrejas. Sugeriu-se que o Credo fosse cantado pela congregação ou “lido de maneira uníssona”.12 Nem todas as igrejas cantam regularmente o Credo, e muito menos leiam-no em uníssono. A oração do Pai Nosso foi apresentada como sendo uma oração comunitária, a ser dita em conjunto, e ainda assim isso não é feito nas nossas igrejas. Um box de músicas foi feito para cantar de forma antífona (cantando em turno)13, mas não é algo que pode ser tentado sem trazer imediata resistência. É verdade que tememos um retorno ao ritualismo romanista, mas também tendemos a resistir às mudanças, mesmo que essas mudanças possam, em um sentido bíblico, ser para melhor e aumentar o caráter receptivo do culto.

A pregação ocupa o lugar primaz e a posição central. Ela desempenha um papel chave. Mas não é a única parte da liturgia, e os outros elementos, como a confissão de pecados, profissão de fé, oração e louvor, também precisam de sua própria ênfase. Eles podem funcionar como uma resposta aguda à Palavra de Deus, envolvendo ativamente toda a congregação, jovem e idoso. As liturgias reformadas originais enfatizavam esse caráter responsivo mais do que talvez fazemos hoje.

“O ouvir da grande assembleia”

Seja como for, permanece o fato de que a pregação do evangelho, como primeira marca da igreja verdadeira, é fator constitutivo e contínuo da liturgia reformada. Então, agrada ao Senhor falar com Seu povo, estabelecendo e mantendo a comunhão deles com o Deus vivo por meio da poderosa Palavra do Espírito.

A congregação se reúne em torno da Palavra aberta para ouvir o que o Espírito tem a dizer à igreja. Esta é a linha vital da igreja. Nesse ajuntamento, os presbíteros proclamam as boas novas, como Davi exclama no Salmo 40. “Preguei a justiça na grande congregação; eis que não retive os meus lábios, Senhor, tu o sabes. ” (Salmo 40:9), enquanto cantamos: “A grande assembleia ouviu falar da sua Palavra confiável e do seu inabalável amor.” Aqui também reside a força da Igreja do Novo Testamento: ouvir a verdadeira Palavra de Cristo, a voz do Bom Pastor, e andar somente pela fé até que Ele venha para estar conosco para sempre, e podermos falar com ele face a face.

Notas:

1 Discurso feito para a League of Canadian Reformed Men’s Societies, 9 de Abril de 1988, ai Attercliffe, ON.

2 Confissão Belga: http://igrejasreformadasdobrasil.org/doutrina/confissao-belga

3 Veja, por exemplo, o ensaio de R. H. Kuipers em Van den Dienst des Woords, Oosterbaan em Le Cointre, Goes, 1944, p. 56 ff.

4 Aqui me refiro a várias publicações, das quais alguns materiais são emprestados:
Anne van der Meiden, Alleen van Horen Zeggen, Ten Have, Baarn1980.

Dr. K. Runia, Heeft Preken Nog Zin?, Kok, Kampen, 1981.

Dr. C. Trimp, Communicatie en Ambtelijke Dienst, De Vuurbaak, Groningen, 1976.

Dr. C. Trimp, Woord, Water en Wijn, Kok, Kampen, 1985.

Henry J. Eggold, Preaching is Dialogue, Baker, Grand Rapids, 1980.

5 Runia, o.c. p. 16.

6 Veja, por exemplo, My Everything in Christ, Premier Printing, Winnipeg, 1979, p. 135 ff.
Veja também: Dr. K. Deddens, Waar Alles van Hem Spreekt, De Vuurbaak, Groningen,1981. p. 10 ff.
G. van Dooren, The Beauty of Reformed Liturgy, Premier Printing, Winnipeg, 1980, p. 15.

7 Dr.C. Trimp, De Gemeente en Haar Liturgie, van den Berg, Kampen, 1983, p. 58.

8 Ver G. van Rongen, Zijn Schone Dienst, Oosterbaan en Le Cointre, Goes, 1956, p. 93; K. Deddens, o.c. p. 54.

9 Se você deseja aprender sobre a prática homilética da pregação catequética, acesso o artigo do Dr. Gootjes em: Edição 04 (Ofício e Confessionalidade), e Edição 05 (O Ministério da Palavra).

10 Trimp, Woord, Water en Wijn, o.c. p. 20.

11 Trimp, De Gemeente en Haar Liturgie, o.c. p. 95 ff; K. Deddens, Waar Alles van Hem Spreekt, o.c. p. 109 ff; van Rongen, o.c. p. 114 ff.

12 Veja a Forma de Celebração da Santa Ceia, Book of Praise, p. 600.

13 K. Deddens, Waar Alles van Hem Spreekt, o.c. p. 87 ff.


Tradução: André Lima

Revisão: Iraldo Luna.

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