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O Orçamento da Família Cristã

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Sem dúvida, muitos leitores estarão bastante interessados no presente tópico. A palavra “orçamento”1 vem do francês bougette, que significa “bolsa de dinheiro” ou “carteira”, e a experiência provou que sempre que nossa carteira é objeto de discussão, todos estamos profundamente envolvidos e vitalmente interessados. Uma das principais atividades da vida é o ganho e o gasto de dinheiro, e nossa riqueza e pobreza financeira é uma grande preocupação para cada um de nós.

Neste artigo, não quero lidar com dinheiro ou orçamentos em geral, mas com o orçamento da família cristã especificamente. Uma família cristã tem um orçamento diferente do que uma família não-cristã. Pelo menos, será o objetivo deste artigo demonstrar essa diferença.

A necessidade de um orçamento cristão

Parece ser uma triste realidade que a maioria dos cristãos dificilmente mostra um padrão diferente de consumo do que os não-cristãos. Quase todos os consumidores no mundo ocidental gastam todo o dinheiro da mesma maneira e nas mesmas coisas: comida, eletrodomésticos, habitação, transporte e férias. Não há, realmente, um perfil reconhecido como consumidor cristão.2

Por esta razão, as famílias cristãs também estão sujeitas a vários problemas e dificuldades financeiras. Muitas não estão administrando suas finanças como deveriam e, subsequentemente, não podem cumprir seus compromissos. Isso, por sua vez, leva a uma série de outros problemas. As estatísticas podem variar de tempos em tempos, mas pode bem ser esperado que os problemas com dinheiro estejam na raiz de 50-70% dos conflitos conjugais.3 Isso é especialmente verdadeiro para jovens casais que ainda não acumularam muitos bens e têm pouca experiência para tomar decisões financeiras responsáveis. Existe um padrão de gastos crônicos excessivos e uma incapacidade de distinguir entre necessidades e ostentação. Na maioria desses casos, não há a atuação de um orçamento cristão!

Por conseguinte, é necessário que as famílias cristãs estabeleçam um orçamento que esteja de acordo com a Palavra de Deus, que defina as prioridades certas e determine os objetivos adequados.

A base do orçamento cristão

Uma pergunta precisa ser feita: sobre qual base uma família cristã constrói seu orçamento? Certamente não pode haver outra base além daquela ordenada na Lei de Deus: o amor ao Senhor e ao próximo!

Um cristão não faz orçamento para se enriquecer. A Bíblia é clara e explícita em sua advertência sobre o lutar por riquezas. Somos lembrados pelo ensino apostólico:

Tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes. Ora, os que querem ficar ricos caem em tentação, e cilada, e em muitas concupiscências insensatas e perniciosas, as quais afogam os homens na ruína e perdição. Porque o amor do dinheiro é raiz de todos os males…” (1 Timóteo 6.8-10).

Um cristão faz um orçamento para servir ao Senhor e atender às suas necessidades. A Bíblia não nos proíbe de obter lucros, e podemos, em nosso orçamento, se possível, também dar lugar ao aumento de nossas posses, como veremos mais tarde. Mas não podemos ser motivados pela ganância, pois assim, nossas saudáveis questões econômicas tornam-se idolatria.

O orçamento familiar cristão, portanto, mostrará uma boa medida de sobriedade e um forte senso de prioridade. Não devemos viver com extravagâncias, mas colocar as primeiras coisas em primeiro lugar. Também em nosso orçamento, devemos buscar primeiro o reino dos céus, crendo que todas as outras coisas também serão nossas.

Deus e o ouro

Há sempre a dúvida quando se trata de saber se devemos primeiro determinar o que precisamos para nós mesmos e para nossa família e só depois dar o que “sobrou” ao Senhor, ou se devemos primeiro dar ao Senhor e então viver do “resto”. A mesma pergunta foi muitas vezes levantada em conexão com os gastos no ensino cristão. Posso colocar as despesas da igreja e da escola no topo do orçamento da minha família, ou isso vem em último lugar, depois que todos os outros itens foram atendidos?

Não é difícil responder a esta pergunta. Tudo o que recebemos, recebemos do Senhor. Nós somos apenas mordomos de Suas múltiplas dádivas. Nosso primeiro propósito na vida é glorificar o Senhor e adorá-Lo. Assim, o sustento do ministério e da igreja é, de fato, uma prioridade. E se somos pais, nossa primeira tarefa é ensinar aos nossos filhos o temor do Senhor. Desse modo, o sustento das escolas também é de grande importância para uma família cristã. As necessidades espirituais nunca devem ser relegadas para um lugar de menor importância do que as necessidades materiais. Nosso Senhor nos advertiu para não vivermos somente de pão, mas pela Palavra de Deus.

O ouro também pertence a Deus e deve ser usado para o Seu serviço e para a instrução das gerações da Aliança. Tudo o que damos a Deus, damos do que veio de Sua mão. O SENHOR repreendia a Israel quando não queriam dar ou quando davam erroneamente para Seu serviço. Também é evidente que a falta de vontade em dar significa que as bênçãos do Senhor estarão retidas. Muitas vezes, há uma relação entre pobreza material e deformação espiritual!

Igrejas e escolas foram construídas apenas porque as pessoas viram as tais como uma prioridade. Os cristãos eram preparados para viver do que restava, e foram abençoados imensamente com a crescente prosperidade. O apóstolo Paulo escreveu sobre isso:

aquele que semeia pouco, pouco também ceifará; e o que semeia com fartura com abundância também ceifará.”(2 Coríntios 9.6)

Portanto, no topo do orçamento, a família cristã colocará a igreja e a escola como itens necessários para a verdadeira vida cristã. Todas as semanas ou todos os meses, esses assuntos serão os primeiros; é o distintivo de um orçamento cristão!

Dando voluntariamente

Neste ponto é necessário fazer algumas observações sobre como devemos dar para igreja, escola e outras causas importantes ou instituições de caridade. Se não estivermos oferecendo alegre e voluntariamente, nossas doações serão vãs.
A chave para dar é o amor. Quem ama, dá com prazer. Quem ama, dá o máximo, mesmo o último centavo, se necessário. Quem não ama, dá de má vontade, e terá que ser lembrado de tempo em tempos. Foi corretamente dito que nossa doação é o barômetro da nossa fé.

Portanto, não devemos dar relutantemente, como se o dinheiro estivesse sendo desperdiçado, ou sob compulsão, por temermos as consequências de não dar. Mas devemos dar com alegria porque o Senhor nos permitiu ser frutíferos para o Seu reino (2 Co 9.7).

O orçamento familiar cristão baseia-se na fé de que o Senhor continuará a prover para nós e que podemos esperar por Sua benção sobre o trabalho de nossas mãos.

Criando um orçamento

Existem várias formas de criar um orçamento cristão responsável. Podemos distinguir entre orçamentos de longo e curto prazo. Neste último, costuma se livrar de dívidas imediatas; o primeiro, muitas vezes é aplicado para atingir metas específicas. Os dois podem até ser combinados para enfrentar as situações em que a família se encontra.

Acima de cada orçamento, devemos escrever um lembrete importante: controle seus gastos! A maior causa de falências familiares é o gasto descontrolado e a compra por impulso. Conectado a este, está outro ponto importante: conheça as suas necessidades! A falta de distinção entre o que é realmente necessário e o que não é, tem contribuído para muita dificuldade financeira em muitas casas. Combine os dois: gaste seu dinheiro apenas naquilo que você realmente precisa. Este é o princípio básico da mordomia cristã.

Algumas pessoas têm um orçamento interno. Elas sabem exatamente o que está entrando e saindo. Outros terão que criar um orçamento escrito e manter registros precisos. Para muitos, esta é a única maneira de supervisionar sua situação financeira adequadamente.

Tanto o marido quanto a esposa devem estar envolvidos no planejamento do orçamento familiar. O marido deve, contudo, ser o chefe da família, limitar os gastos e manter o controle das contas de cobrança. Esta observação é importante em vista do fato de que, a maioria das despesas é feita pelas mulheres, às vezes de forma responsável, às vezes não. Marido e esposa se comunicam livre e abertamente um com o outro sobre os gastos do dinheiro, mas deve haver uma pessoa com a última palavra. E de acordo com a Bíblia, esta pessoa é o marido.

No que diz respeito às nossas “necessidades”, podemos distinguir entre necessidades de rotina, necessidades especiais e as de emergência. Para lidar com isso, muitas famílias possuem três contas bancárias: uma conta-corrente, uma conta poupança e um fundo de emergência. Algumas combinam as duas últimas em uma: uma conta para compras especiais ou situações emergenciais. Sugere-se que esta conta contenha pelo menos três meses de salário. Pode levar algum tempo para estabelecê-la, mas certamente será útil para manter a família fora da pobreza.

Um orçamento cristão dará atenção a três áreas principais: nossas necessidades espirituais, materiais e sociais. Em necessidades espirituais, podemos incluir igreja e escola. Em necessidades materiais, devemos listar alimentos, roupas, habitação, custos médicos, seguros e também algumas economias. E como necessidades sociais, nós colocamos impostos e caridades. Um orçamento que está em falta com qualquer uma dessas áreas vitais, não é um orçamento cristão verdadeiro.
A maior parte do orçamento terá que ver com as nossas necessidades materiais. Alguns números calculam até 60%. É importante que procuremos um equilíbrio adequado.

Economizando dinheiro

É na ideia de um orçamento que equilibramos receitas e despesas. Na verdade, é importante até mesmo tentar economizar. Não há nada de errado em buscar alguma segurança financeira, mesmo para o futuro. Isso também pertence à mordomia cristã.

A economia começa com pequenas quantidades e deve ser planejada durante um longo período. Economia deve ser ensinada em casa, por exemplo, abrindo contas para cada criança e encorajando-as a depositar algum dinheiro regularmente. Desta forma, um sentimento de responsabilidade e orgulho é instilado nas crianças.

Lembre-se das pequenas quantidades regulares! Aqueles que desejam poupar muito de uma vez só, facilmente desanimam-se e desistem completamente.

O tempo é um fator importante no orçamento familiar. Nós não vivemos para nossas riquezas, e nosso objetivo como cristãos não é ganhar grande riqueza. Não precisamos acumular todos os nossos bens em alguns anos. Não precisamos ter tudo de imediato. Se o Senhor nos conceder a Sua benção, vamos com o tempo acumular muitas dádivas.

Portanto, não precisamos comprar uma aposta no jogo de loteria ou procurar um emprego com uma fórmula de enriquecimento rápido. O Senhor abençoa a fidelidade. Fidelidade em trabalhar, em dar, em economizar. Vamos descobrir que somos capazes de atender às nossas necessidades e compromissos, e ainda ter algo sobrando. Essa é a experiência de famílias que temem a Deus.

Problemas financeiros?

As famílias cristãs também terão problemas financeiros em algum tempo. Há frequentemente tantas coisas que precisam ser pagas: financiamento da casa, transporte, educação, etc. Não é sempre fácil equilibrar o orçamento, especialmente quando igreja e escola também devem ser mantidas. Exige constante diligência e gestão cuidadosa, para manter as prioridades sempre de pé. Não há saída fácil. Às vezes, há anos magros. Às vezes, precisaremos da ajuda de parentes ou da comunhão dos santos. O Senhor também fez conhecida a Sua vontade a este respeito, isto é, nós devemos cuidar uns dos outros.

A maioria dos problemas financeiros, no entanto, não são causados pelos custos de nossas necessidades espirituais. Nossas igrejas e as escolas funcionam com orçamentos cuidadosamente planejados, e o custo é mantido o mínimo possível. Se todas as famílias participassem plenamente, o custo seria ainda menor por família. Nenhuma família faliu por causa dos custos do Reino!

Quase sempre, os problemas financeiros em casa são consequências de uma má administração. Gastos excessivos e cobranças de uma conta de crédito são os principais culpados por causar a falência nas famílias. É precisamente por nossos maiores compromissos que nós, como cristãos, devemos viver com sobriedade e cuidado, tendo o cuidado de ficar longe tanto quanto possível de complicações financeiras. Apenas um orçamento cristão não resolverá os problemas. Ir com o nosso dinheiro e posses de maneira cristã é o início de uma solução duradoura. Simplesmente ter um orçamento cristão não nos isenta de dificuldades; é preciso usar nosso dinheiro e nossas posses de maneira cristã.

Outra sugestão: Não somente nosso orçamento deve ser cristão, mas também nossa maneira de usar o dinheiro e posses deve ser cristã. Este é o único caminho.

Notas:

1 Em inglês é “budget” que tem sua origem na palavra francesa bougette. [N. do E.]

2 J. Douma, Vrede in de Maatschappij, Kampen, 1985, p. 154.

3 Carole Gift Page, Let Not Money Put Asunder, B/P Publications, Denver, 1974, p. 14ff.


Artigo publicado originalmente na Clarion Magazine, 1987.

Tradução: Gabriel Reis.

Revisão: Ester Santos.

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