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Nossos filhos e o entretenimento

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Introdução

Crianças amam brincar com brinquedos. Elas amam jogos. Ser uma criança é brincar. O que é aceitável para nossos filhos? Quais jogos, que tipo de brinquedos, ou quais atividades de lazer e entretenimento são boas para os filhos de famílias cristãs? A maioria dos pais têm dificuldade em lidar com essas questões.

Há tantos tipos diferentes de brinquedos e jogos disponíveis. Um passeio pelos brinquedos da Toys ‘R’Us deixará isso claro.1 Se seu filho assiste televisão, eles saberão tudo sobre os mais novos brinquedos e jogos. E eles irão querer tê-los.

Então, há toda a questão sobre a televisão. Devemos permitir televisões em nossas casas? Se permitirmos, o quanto as crianças podem assistir? O que eles podem assistir? A televisão leva a inúmeras discussões entre pais e filhos. Qualquer um que coloque a televisão ao lado do lixo não está fazendo uma coisa tola.

Temos computadores em nossas casas. Quanto tempo as crianças devem passar na frente do computador jogando diversos jogos? Quais jogos são lícitos e quais não são? Existem critérios úteis que podem nos ajudar a fazer esse julgamento?

E quanto aos esportes coletivos? Queremos envolver nossos filhos com o baseball e o futebol da comunidade, e etc., sabendo que isso pode causar alguns problemas com amizades indesejáveis. Haverá pressão para jogar no Domingo. “Apenas os jogos do torneio, você pensa.” As vantagens de fazer e ter as crianças envolvidas em esportes coletivos superam as desvantagens?

Essas são questões difíceis para os pais. Nós lidamos com elas. Nem tudo está decidido e é de fácil entendimento.

Referências bíblicas

A Bíblia não fornece comandos explícitos nem detalhados sobre o tipo de entretenimento que seja aceitável ou não; contudo, como veremos mais adiante, ela nos dá um padrão para tomar decisões.

A Bíblia fala algumas vezes sobre crianças brincando. Zacarias 8.5 fala de uma época em que meninos e meninas jogarão nas ruas. O profeta proclama um tempo de paz e restauração após o exílio. O Senhor retornará a Jerusalém. Homens e mulheres idosos estarão sentados nas ruas, relaxando e desfrutando de um tempo de lazer, e as ruas da cidade estarão cheias de meninos e meninas brincando.

Dizer que os idosos poderão relaxar e que meninas e meninos poderão jogar é um sinal do favor de Deus em Jerusalém. Isso mostra que há algo de bom sobre meninas e meninos brincando e se divertindo.

Não há referências no Antigo Testamento de brinquedos para crianças; entretanto, escavações arqueológicas em vários lugares da Palestina encontraram muitos apitos, chocalhos, bolas, bolinhas de gude, bonecas e animais esculpidos. Eles encontraram brinquedos semelhantes aos que nossos filhos brincam. Os brinquedos atuais são um pouco mais sofisticados. Arqueólogos também descobriram buracos feitos por meninos brincando de cabo de guerra e de meninas dançando e jogando.

No Novo Testamento, encontramos uma referência indireta aos jogos que as crianças brincavam nas ruas e no mercado. Em Mateus 11.16-17, o Senhor Jesus se referiu aos filhos do Seu dia jogando jogos de faz de conta. Assim como as crianças de hoje costumam copiar seus pais enquanto jogam seus jogos, assim faziam nos dias do Senhor Jesus. Neste texto, as crianças estão simulando primeiro um casamento e depois um funeral.

As referências bíblicas não fornecem comandos explícitos sobre jogos e brincadeiras. Zacarias 8.5 mostra que o Senhor Deus entende que as crianças gostam de brincar – na verdade, há algo de bom nisso. É um sinal de paz com Deus (conforme Is 11.8). A maneira como o Senhor Jesus falou sobre crianças brincando mostra que é uma coisa normal e natural para as crianças fazerem.

Critério

Devemos lamentar que a Bíblia não dê mandamentos explícitos sobre quais jogos são aceitáveis para crianças? Não, não devemos. Devemos perceber que a Bíblia não é um distribuidor automático de respostas. Não podemos apertar um botão e esperarmos que apareçam alguns textos para responder facilmente e rapidamente a todas as nossas perguntas; e mesmo assim, a Bíblia é sempre uma lâmpada para os nossos pés e uma luz para o nosso caminho. Com a Bíblia em mãos, podemos descobrir uma determinada linha, formular conclusões e tomar decisões (J. Douma, Christian Morals and Ethics, Premier: 1983, p.36).

Eu proponho, para a sua consideração, os seguintes pensamentos sobre a identidade de nossos filhos e a regra de Filipenses 4.8.

a. A identidade de nossos filhos

Quem são nossos filhos? Entender quem e o que nossos filhos são nos ajudará a tomar decisões em situações concretas sobre certas formas de entretenimento, brinquedos e jogos. O que vem a seguir não é exaustivo.

i. Nossos filhos são pecadores.

Por natureza, eles são filhos da ira. Eles nasceram com naturezas pecaminosas. Não podemos subestimar o forte desejo, o impulso de suas naturezas pecaminosas. Não devemos nos surpreender se mostrarem um desejo natural para o que é vil, o que é pecaminoso, contra a vontade de Deus. Por causa do pecado original e da nossa total depravação, as crianças serão atraídas por formas de entretenimento que não são saudáveis, edificantes ou agradáveis a Deus.

E ainda…

ii. Nossos filhos são filhos de Deus.

Os filhos do povo de Deus pertencem, em primeiro lugar, a Deus. Ezequiel 16.20-21 mostra isso de forma impressionante. Neste texto, o Senhor Deus castiga Israel por ter sacrificado seus filhos e filhas ao fogo dos deuses pagãos. No verso 20 Deus chamou as crianças “seus filhos e filhas”. No verso 21, Deus os chamou de “meus filhos”.

Nossos filhos e filhas são filhos de Deus. Se entregarmos nossos filhos e filhas para os deuses da nossa era, Deus não ficará satisfeito.

iii. Nossos filhos são crianças batizadas.

Assim como confessamos na Pergunta 74 do Catecismo de Heidelberg, as crianças pertencem à aliança e congregação de Deus. Eles têm promessas de salvação e regeneração; portanto, eles devem ser batizados. Pelo batismo, eles são enxertados na igreja e se distinguem dos filhos dos incrédulos. Deus tem a Sua aliança com os crentes e seus filhos. Deus trabalha nas genealogias das famílias. Como aprendemos com Atos 16, Efésios 5,6 e Colossenses 3, Cristo resgata famílias.

O fato de nossos filhos pertencerem à comunidade dos redimidos deve fazer a diferença na forma de se entreterem. Tem que estar relacionado. Deve haver uma coerência. Pelo fato de nossos filhos serem batizados e assim separados por Deus e para Deus, significa que eles devem viver como filhos distintos. Devemos orientá-los nisso.

Pense nas perguntas às quais você disse “eu prometo” no ato do batismo.2

iv. Nossos filhos são santos.

1 Coríntios 7.14 diz que o filho de um crente é santo. Nós afirmamos isso nos Cânones de Dort I, 17 onde confessamos “…que os filhos dos crentes são santos, não por natureza, mas em virtude da aliança da graça do qual participam juntamente com os seus pais.

Devemos manter isso em nossas famílias, uma santidade contrária em relação ao mundo em matéria de jogos e entretenimento.

v. Nossos filhos são profetas, sacerdotes e reis.

Devemos fazer cada um deles confessarem o nome de Cristo, apresentarem-se como sacrifícios vivos a Deus e lutarem a batalha contra o pecado. Eles têm um status honorável. Suas vidas, incluindo o que eles fazem como entretenimento, devem refletir isso. Nós, como pais, temos o dever de orientá-los e instruí-los. Devemos ensiná-los a serem bons e fiéis profetas, sacerdotes e reis.3

vi. Nossos filhos são feitos à imagem de Deus.

Eles são chamados a refletir Cristo, a serem como Cristo. Devemos ensinar-lhes a ter a mente de Cristo. O chamado para ser imagem de Cristo afetará as escolhas com que nossos filhos se entretêm.

Recordar quem são os nossos filhos e estarmos cientes de seu altivo e soberbo status perante Deus, nos fará percorrer um longo caminho para nos ajudar a determinar quais formas de entretenimento são apropriadas e quais não são.

b. A regra de Filipenses 4.8

Filipenses 4.8 diz: “Finalmente, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento.

Esse padrão bíblico é uma regra de grande ajuda no processo de tomada de decisões. Quando ponderar se algo é aceitável, você deve se fazer algumas perguntas.

  • Isso é correto? Esta é uma qualificação muito generalizada. Um pedreiro verifica se uma parede está “correta” com uma linha de prumo. A questão deve ser levantada desde o início. A forma de entretenimento que você está considerando é algo que pode suportar o teste da linha de prumo de Deus?
  • É honrado? É adequado? Isso cabe a ocasião e a pessoa? Este critério inclui a ideia de dignidade, propriedade. É o que você está considerando digno de respeito?
  • Isso é justo? É reto e apropriado? Isso está de acordo com o que Deus exige?
  • É puro? É sem desonra, sem defeito? Isto é muito próximo de “santo”. É digno de reverência?
  • É amável? É arrogante, repugnante, ou é adorável? Há uma diferença.
  • É gracioso? É digno de aprovação? Você pode realmente falar bem sobre isso? Será que merece aprovação? É algo que deve ser louvado e recomendado?
  • Tem excelência? Tem uma bondade fora do comum? É algo incisivo?
  • É digno de louvor? É algo que deve fazer as pessoas pararem e dizer: “Isso é muito bom?”

O apóstolo Paulo nos disse para “pensar sobre essas coisas”. Devemos avaliar com essas perguntas. Devemos levar essas coisas em consideração. E não só devemos pensar em coisas que são verdadeiras, puras, honestas, e etc. Mas, como diz o versículo 9, também devemos fazer essas coisas.

Algumas especificidades

Sem querer cair no legalismo e não querendo dar a impressão de que tenho direito ou capacidade de ditar o que é bom ou ruim, permita-me introduzir um pouco de especificidade.

Do ponto de vista negativo, devemos afastar as crianças de toda violência gratuita. Por exemplo, não devemos permitir em nossas casas jogos de computador cujo único propósito é destruir algo ou matar pessoas. Não devemos ter nada a ver com os tipos de jogos de “atire neles, mate-os, esmague-os’’.

Devemos estar conscientes de que muitos brinquedos e, especialmente, desenhos animados estão ensinando as crianças a pensar que a magia é normal. Eles estão disseminando a mensagem de que o sobrenatural está na criatura. As criaturas tornam-se deuses. A distinção entre Criador e criação é desfocada.

Há muito para falar sobre “A Força” ou algum poder. Muitas vezes, o brinquedo ou o personagem de desenho animado terá uma joia brilhante no seu peito, que tem poderes mágicos. Pense nos Ursinhos Carinhosos e os Trolls.

“A Força” é uma frase famosa do filme Star Wars. “Que a Força esteja com você” foi pronunciada como uma bênção. “A Força” é um poder divino impessoal, todo penetrante. George Lucas, o produtor, abraçou o misticismo e o panteísmo do Leste. Filmes como Star Wars promovem essas filosofias religiosas. Avança a ideia de que Deus é tudo e tudo é Deus. O misticismo oriental atravessa filmes como Star Wars, O Retorno do Jedi, ET, Close Encounters, etc.

Ao permitir que as crianças vejam esses filmes e desenhos, e brincar com brinquedos que tenham tudo a ver com a magia, o sobrenatural, a Força, etc., corremos o risco de as crianças se acostumarem com as ideias de panteísmo e que fazem delas suscetíveis às filosofias da Nova Era quando se tornam mais velhas.

Há outro desenvolvimento perturbador nos brinquedos. Parece feio se tornar belo. Por exemplo, As Tartarugas Ninjas Mutantes vivem nos esgotos. Além disso, eles têm tudo a ver com nada além de violência. Há muitos brinquedos que são simplesmente feios – figurinhas de criaturas que são meio homem e meio animal com músculos sobressalentes destinados a permitir que a criatura esmague e destrua. Filipenses 4.8 teria algo a dizer sobre isso.

Fazemos bem ao afastar as crianças dessas coisas – da violência gratuita, daquilo propositalmente feio e do fascínio pela magia e o sobrenatural.

No lado positivo, devemos fazer as coisas como uma família. Minhas melhores memórias de infância não são de brinquedos que meus pais me compraram, mas de tempos em que minha família fez as coisas juntas. É bom se divertir juntos, brincarmos juntos. As crianças adolescentes podem olhar com cara de tédio sobre “fazer a coisa em família”, mas é do que as lembranças são feitas.

Incentive as crianças a se envolverem com esportes. Deus criou nossos corpos para se moverem. Nossos corpos são maravilhosamente projetados para a atividade física. O esporte é um antídoto poderoso para o tédio. Mantém crianças e jovens sem problemas e muitas vezes longe de drogas e álcool. Os esportes coletivos, como futebol e beisebol, são bons, desde que encuquemos em nossos filhos de não buscarem suas amizades nesse contexto. Eles devem buscar suas amizades na comunidade da igreja. Devemos também garantir que o envolvimento em esportes coletivos não comprometa o chamado para se reunir com a igreja de Deus no Dia do Senhor.

A música é muitas vezes uma opção cara, mas, se a possibilidade existe, dê aulas de piano para crianças ou faça com que elas toquem um instrumento na banda da escola. A música é uma maneira maravilhosa em que uma criança pode louvar a Deus. Também pode dar à criança um senso de realização.

Conclusão

Talvez não devamos falar muito sobre o entretenimento. O entretenimento é em grande parte passivo. Você gosta de alguém. Você entretém um visitante. O significado original de “entreter” é receber alguém como convidado e provê-lo. Chegou a significar “divertir alguém”. A implicação é que uma pessoa está fazendo o entretenimento e a outra está sendo entretida.

Devemos encorajar as crianças a estarem ativas em seus momentos de lazer. Talvez devêssemos falar mais em termos de “recreação”. Nosso tempo livre, nosso tempo de lazer não existe como objetivo em si. O tempo livre é para dar-nos um novo vigor para o nosso trabalho. O tempo de lazer está lá para nos reabastecer, revigorar e atualizar. É para nos “recriar”. Devemos ver nosso tempo de diversão como um alívio temporário do trabalho para o trabalho.

Devemos ensinar nossos filhos, especialmente, à medida que envelhecem, que esse tempo de lazer deve ser usado primeiro para atividades alegres. Há um tempo para o passivo (ócio), mas devemos enfatizar o ativo (algo vívido). Os tempos em que as crianças apenas se sentam e deixam que outra pessoa faça o trabalho deveriam ser muito poucos. As crianças devem estar ativas e envolvidas.

A conclusão é que devemos ensinar às crianças que o objetivo abrangente da vida é glorificar a Deus e gozá-lo para sempre.4 Isso também deve refletir nas coisas que fazemos para o entretenimento. Se comemos ou bebemos, trabalhamos ou jogamos, deixe-nos fazer tudo para a glória de Deus.

Notas:
1 Toys “R” Us é uma empresa multinacional norte-americana responsável por uma rede internacional de cerca de 1.500 lojas de brinquedos. [N. do E.]
2 As igrejas vindas da Reforma Protestante formularam documentos que devem ser usados pela igreja por ocasiões do batismo dos filhos dos crentes. Normalmente esses documentos são chamados de “Forma para Batismo dos Filhos de Infantes”. Nessas Formas há votos que devem ser feitos pelos pais das crianças a serem batizadas. Estes votos são professados diante da congregação. O autor se refere a Forma adotada pelas Igrejas Reformadas do Canadá (CANRC). [N. do E.]
3 Ver Catecismo de Heidelberg, Dia do Senhor 12. [N. do E.]
4 Ver o Breve Catecismo de Westminster, Pergunta e Resposta 1. [N. do E.]


Artigo publicado originalmente na Clarion Magazine (Canadá), 1994.

Tradução: André Lima.

Revisão: Beatriz Sales Souza.

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