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Deveríamos Exigir Dois Cultos?

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Reconhecendo que o tempo da Nova Aliança é um tempo de maioridade e maturidade, não devemos nos surpreender com o fato de que não há uma ordem na Bíblia exigindo que os crentes se reúnam duas vezes em culto corporativo no dia do Senhor.1 Muito do que fazemos hoje, inclusive como igrejas, carece de prescrição explícita nas Escrituras. Nós administramos os batismos no contexto do culto corporativo, por exemplo, sabendo muito bem que não há, na Bíblia, ordem explícita para tal.

Parte de sermos filhos maduros da nova aliança de Deus consiste em aprendermos a viver pela Palavra de Deus, não tanto em termos de prescrições bíblicas, mas em termos de princípios e padrões bíblicos. Embora não haja uma ordem bíblica exigindo um segundo culto no dia do Senhor, há considerações bíblicas recomendando um segundo culto.

No Antigo Testamento, por exemplo, exigia-se que os israelitas oferecessem sacrifícios toda manhã e noite, uma prática que se corresponde bem, em termos de equivalência na nova aliança, as orações matutinas e vespertinas. Em nosso culto corporativo no dia do Senhor, nós fazemos juntos o que faremos individualmente (e como famílias) todos os outros dias: nos reuniremos na casa de oração de manhã e à noite (ou à tarde) para dialogarmos com nosso Senhor.

Deveríamos exigir três refeições por dia?

Perguntar se deveríamos exigir dois cultos é um pouco como perguntar se deveríamos exigir três refeições ao dia. Não seria mais simples reduzir o número de refeições que fazemos de três para duas? Sentar-se à mesa e comer consome tanto tempo e causa tantas interrupções, afinal.

Questionar se deveríamos ter dois cultos é assumir sutilmente que o culto corporativo é, de alguma forma, desimportante, desnecessário, para não dizer desagradável. Entretanto, o que torna o culto indesejável? Cantar hinos de louvor? Orar? Ofertar nossos dízimos? Celebrar a Ceia do Senhor? Ouvir os sermões?

Precisamos orar para que Deus nos presenteie com aquele espírito de entusiasmo em relação ao culto que impregnava a igreja primitiva. Imediatamente após o Pentecostes, de acordo com a narrativa de Atos, os cristãos teriam se reunido diariamente no templo para ouvir a Palavra, louvar a Deus, partir o pão e desfrutar da comunhão.

Por que eles se reuniam diariamente? As Escrituras não nos dão uma resposta explícita. A implicação, entretanto, é que eles estavam tão transbordantes de alegria quanto ao Evangelho que era difícil ficarem muito tempo sem se reunirem em culto corporativo.

Um culto em duas partes

Eu prefiro pensar sobre nossas reuniões corporativas aos domingos não como dois cultos, mas como um que é dividido em dois. A primeira parte do culto acontece pela manhã e a segunda à tarde ou à noite. Isto, a propósito, traz grandes implicações para o que é feito durante o intervalo: nada entre os dois momentos deveria seriamente interromper todo esse tema e fluxo do culto corporativo no dia do Senhor.
Por esta razão, eu prefiro falar da ausência no segundo culto não em termos de perder o segundo culto, mas de perder a segunda parte do culto. Estar presente pela manhã e não retornar à noite é semelhante a sair de um concerto na hora do intervalo: você perderá uma parte do espetáculo e seu desfrute estará incompleto. É claro que o culto está bem longe de ser um espetáculo, e é aí que a analogia falha.

É importante enxergamos que o segundo culto não é simplesmente uma cópia do primeiro. Que o segundo culto possui um caráter completamente diferente do culto matutino deveria ser evidente pela presença de certos elementos de manhã (ex.: leitura da lei) que estão ausentes no segundo culto, e vice-versa (ex.: confissão do credo).

Um princípio importante do culto corporativo é que nós nunca deveríamos presumir que podemos nos aproximar de Deus sem uma confissão corporativa de pecados. É por isso que a lei de Deus é lida pela manhã e seguida por uma confissão corporativa de pecados em oração ou hino. Você já se perguntou, dada a importância deste princípio, por que nós não temos uma oração ou um hino de confissão no segundo culto? É simplesmente porque já o fizemos no início da nossa adoração, ou seja, no culto matutino.

Pregação e ensino

Em meu ofício pastoral eu me diferencio dos presbíteros pelo ministério da palavra e da doutrina e, portanto, da pregação e do ensino. Se pregar e ensinar são minhas responsabilidades, então ouvir os sermões e receber as instruções são as responsabilidades dos demais membros da igreja, e os nossos dois cultos permitem que ambos tenhamos ótimas oportunidades de cumprir essas responsabilidades.

É comum atualmente, em alguns locais, que os ministros preguem ao longo do catecismo pela manhã e ao longo dos livros da Bíblia no segundo culto. Eu não considero tal prática terrivelmente questionável, embora acredite que haja uma importância bíblica na prioridade sintática da Palavra sobre a doutrina (1 Timóteo 5.17) e da pregação sobre o ensino (1 Timóteo 2.7; 2 Timóteo 1.11).

No nosso culto matutino, eu me empenho na Palavra, e no segundo, eu me empenho na doutrina. Não faço isso para separar os dois como se a Palavra não contivesse doutrina ou como se a doutrina não derivasse da Palavra, mas para fazer uma distinção de ambas, da forma como a Escritura faz. Pregar não é o mesmo que ensinar a Escritura e, portanto, meu sermão matutino costuma ter um caráter diferente do sermão vespertino.

Evitando Sectarismo e Biblicismo

Um dos traços que reconhecemos em relação à igreja é a sua catolicidade, ou seja, a igreja não está confinada a uma era específica na história ou a um lugar único no mundo. Ela existe desde o início dos tempos e está espalhada por todos os continentes. Nosso segundo momento culto corporativo reconhece esta importante dimensão para nossa confissão sobre a igreja de duas maneiras:

  • Primeiramente, nós recitamos um dos nossos credos ecumênicos da Igreja (quer seja o Credo Apostólico, o Niceno ou o Atanasiano). Fazendo assim, nós ecoamos os fundamentos da fé que são compartilhados com a igreja cristã ortodoxa em todos os tempos e lugares.
    Ao fazermos isso, evitamos as tendências do sectarismo. Todas as seitas derivadas do cristianismo na América do Norte (ex.: Testemunhas de Jeová e Mórmons) trazem inovações doutrinárias, insistem que possuem monopólio sobre a verdade e afirmam ensinar algo essencial à salvação que ninguém mais ensina. Em nosso culto, queremos fazer a afirmação exatamente oposta: nossa teologia não traz inovações, mas é histórica, e não é unicamente defendida por nós, mas é compartilhada por igrejas de todo o mundo e de todas as épocas.
  • Em segundo lugar, nós usamos as confissões reformadas como um guia para nossa pregação e ensino. É verdade que as confissões são os padrões doutrinários das igrejas reformadas, e não de todas as igrejas cristãs, porém elas resumem o ensino das Escrituras com uma interpretação histórica. Quando seguimos tais diretrizes interpretativas em nossos sermões/estudos, estamos nos alinhando não apenas às igrejas da Reforma, mas à igreja cristã universal.

Ao fazermos isso, evitamos as tendências do biblicismo. Biblicismo é a tentativa de estudar a Bíblia do zero, sem consideração alguma pelos consensos doutrinários da igreja histórica. O Biblicismo deseja reinventar a roda doutrinária para cada geração e, portanto, é culpado do que C.S. Lewis chamou de esnobismo cronológico. Nós humilde e alegremente aceitamos o ensino dos credos sobre a pessoa de Cristo, sobre a sua divindade e humanidade, e sobre a natureza da salvação como dom gracioso de Deus recebido somente por meio da fé.

Nosso segundo culto, então, molda nossa perspectiva doutrinária de maneiras importantes e nos livra das tendências do sectarismo e do biblicismo.

Nota:

1 A prática das Igrejas Reformadas é terem dois cultos dominicais convocados pelos presbíteros: um culto matutino e outro à tarde, ou, a noite. O culto da manhã não deve ser confundido com a escola dominical. Esta não é um culto, mas um momento de ensino da Palavra. [N. do E.]


Artigo publicado originalmente na Christian Renewal, 2009.

Tradução: Letícia Cortês.

Revisão: Arielle de Eça.

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