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Comunhão aberta?

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Não é mais silencioso!

A Ceia do Senhor poderia ser chamada de “o sacramento silencioso” em boa parte do meu ministério. Em outras palavras, isso porque poucas questões foram feitas e quase nenhuma controvérsia foi levantada a respeito dela.

Normalmente, essa é uma realidade bem diferente dos tempos do século XVI, quando a Ceia do Senhor foi alvo de grande debate e discordância; sendo, inclusive, razão para muitas guerras!

Ao mesmo tempo, esse sacramento difere do sacramento do Santo Batismo, o qual sempre atraiu algumas disputas. Qual deve ser a quantidade de água, se é por aspersão ou imersão, quem deve receber o sacramento, são questões permanentes. Diante de tudo isto, a Ceia do Senhor parece ter se tornado um sacramento suave.

No entanto, essa realidade parece ter mudado. Novamente, existem igrejas, mesmo de nossa confederação1, em conflito com esse sacramento. Elas têm dificuldade não muito pelo significado ou pela interpretação e entendimento do sacramento, mas em como administrá-lo. O sacramento deve ser feito com cálice único ou múltiplos cálices, vinho e/ou suco de uva, mesa única ou no banco, todos esses aspectos têm sido debatidos.

Admissão

E ainda tem mais isto: trata-se da admissão, especificamente a de convidados. Quando isto vem à tona, o questionamento é quanto à participação, manter a comunhão restrita (mesa fechada) ou torná-la aberta?

É preciso dizer que esse não é um debate predominante até o presente momento. Não há muitas pessoas defendendo essa causa ao nosso redor, mas, às vezes, há perguntas, há queixas e até acusações. Então, antes que essas questões e reclamações ganhem força, seria benéfico analisarmos um pouco mais sobre esse assunto. Como a igreja de Jesus Cristo deve lidar com os convidados na Ceia do Senhor?

Diferentes perspectivas – mesa fechada ou aberta?

Uma rápida pesquisa já revela que, historicamente, houve três respostas distintas para essa questão. Algumas igrejas, como a Igreja Católica Romana, algumas Batistas e Luteranas, adotaram uma abordagem de comunhão fechada. Isto é, apenas, tão somente os membros daquela igreja específica poderiam tomar parte no sacramento, outros não. Nesse entendimento, a chave para a admissão é se tornar membro daquela igreja e/ou se beneficiar de uma prática particular daquela determinada igreja. Por exemplo, há igrejas Batistas que insistem que, apenas, os indivíduos que tenham sido batizados por imersão completa são qualificados para participar da Ceia do Senhor.

No outro lado da balança, existe a prática mais recente, e talvez mais prevalente, de comunhão aberta. Essa concepção mantém o entendimento de que, todos aqueles que se consideram crentes ou cristãos são bem-vindos a participar. Neste caso, a igreja local deixa o mérito de comer e beberexclusivamente sobre a consciência e responsabilidade daqueles que estão presentes. Todos os convidados que se sentirem inclinados, podem participar. Não importa qual igreja eles pertençam, qual é a visão doutrinária deles, ou qual estilo de vida deles, isto é uma decisão deles. Se eles assim o quiserem, eles e tão somente eles, não a igreja, terão de prestar contas a respeito disto.

Entre ambos os extremos de comunhão fechada ou aberta, existe uma terceira perspectiva. Não é tão difundida, mas é praticada por certo número de Reformados, Presbiterianos e outras igrejas ao redor do mundo2 . Esta abordagem é chamada de comunhão restrita.3

Ela atua sob a perspectiva de que a admissão ao sacramento não é simplesmente uma questão de escolha individual ou responsabilidade. A igreja local e seus oficiais precisam tomar partido sobre o assunto. De fato, a igreja, em última análise, é quem determina em quais condições os convidados podem participar. A igreja anfitriã, assim, estabelece as condições.

Mesa restrita

As condições podem e costumam variar agora mesmo entre as igrejas que praticam a mesa restrita. Algumas destas igrejas põem uma barreira na mesa com uma advertência verbal severa e enfática tanto para os membros quanto para os visitantes de que, se participarem descuidadamente, trarão juízo sobre si mesmos. Deste modo, eles restringem verbalmente, mas será que isto é suficiente?

Outras igrejas exigem uma entrevista de todos os convidados e, dependendo de seu resultado, permitem ou não sua participação. Ainda há outras que requerem que os convidados leiam uma declaração escrita, respondam a certas perguntas sobre suas crenças, estilo de vida, e da igreja onde são membros, além de assinarem de próprio punho dando fé daquilo que responderam. Depois disto, eles informam a igreja de origem que tem celebrado desta forma o sacramento com eles. Existem também poucas igrejas, como a nossa na Confederação Reformada Canadense4, que exortam os membros a usarem atestados escritos ou cartas de testemunho para garantir uma segura admissão dos convidados à mesa.

Qual delas é bíblica?

A luz das três diferentes perspectivas, a questão que surge é “Qual perspectiva é a correta? Qual está de acordo com o ensinamento da Escritura? Qual prática deveria ser adotada e administrada pela igreja local?”

Católica – não fechada

Bem, vamos considerar a posição fechada. O que isto quer dizer? No caso da Igreja Católica Romana, eles dizem que a Igreja de Roma é a única igreja de Cristo e tão somente aqueles que são membros dela podem tomar parte do corpo e do sangue. Algumas outras igrejas reiteram a mesma exclusividade e mantém a mesma restrição. Eles dizem que “para participar da Ceia você precisa estar no rol de membros da igreja.”

Nem é preciso dizer que há algo fácil e conveniente nessa perspectiva. Entrevistas não são necessárias, nem juramentos precisam ser lidos e nem anúncios serem feitos.

Mas será que essas são as pegadas do ensinamento bíblico acerca da igreja? Especificamente, o que a bíblia diz sobre a catolicidade, o caráter universal da igreja? A igreja depois de Pentecostes não seria um corpo composto de pessoas de todas as tribos e nações? Não está em conformidade com a igreja escatológica retratada em Apocalipse 4, 5 e 21?

Um estudo detalhado no livro de Atos aponta que os apóstolos aceitaram fiéis de diversos lugares. Eles não disseram a eles, “Primeiro participe da igreja de Jerusalém e depois nós os reconheceremos como crentes irmãos e admitiremos na celebração da Ceia do Senhor.” A oportunidade de participar na Ceia de nosso Senhor deve ser dada a todos aqueles que creem e confessam a “católica e indubitável fé cristã” (Catecismo de Heidelberg, Dia do Senhor 7, Resposta 22).

Santa – não aberta

Se “fechada” não é o caminho a seguir, então o quê dizer da Ceia “aberta”? A participação não seria um mérito de escolha e responsabilidade do indivíduo? A Ceia do Senhor não deveria ser completamente aberta para todos?

Novamente, pode-se ressaltar que essa perspectiva também é fácil para uma igreja local. De tempos em tempos, pode até ser acompanhada por algumas advertências do púlpito, mas não é assim que ocorre com frequência. Tudo é uma decisão sua! E, até onde se sabe, isto estará tudo bem até que pessoas estejam com receio. Eles dirão a você que não é papel da igreja julgar ninguém de nenhuma maneira. Verdade! Claro, o julgamento pertence ao Senhor. Leia Romanos 14 em diante.

Mas isso é tudo que está escrito? E quanto ao fato da Ceia do Senhor ser, supostamente, uma santa refeição (1 Coríntios 10.14-22; 1 Coríntios 11.17-34)? O quê mais ela significa e simboliza senão o partir do corpo e o derramar do sangue do nosso Salvador (Mateus 26.20-30; Marcos 14.17-26; Lucas 22.14-30; João 13.21-30)? Em resumo, esta Ceia não é uma ceia comum. Ela é uma ceia especial, única, distinta e espiritual.

Além disso, também é uma ceia perigosa. Alguns membros da igreja de Corinto descobriram isto tarde demais. Em 1 Coríntios 10, o apóstolo Paulo alerta os crentes de que eles não deveriam comer de duas mesas diferentes. Ou você se alimenta na mesa do Senhor e é abençoado ou você come na mesa dos demônios e receberá o mesmo fim deles “o ciúme do Senhor” (1 Coríntios 10.22).

Em 1 Coríntios 11, ele diz que eles não deveriam se surpreender pelo fato de muitos deles estarem fracos, doentes, e até mesmo alguns terem morrido. Isso é o que acontece quando você come e bebe sem compromisso, e não reconhece o caráter santo e especial do corpo do Senhor (1 Coríntios 11.29).

Em Corinto, eles praticavam uma forma de comunhão aberta e os resultados foram claramente visíveis!

Católica, santa – restrita

Onde isso nos leva então? Primeiro, isso nos aponta para a necessidade de reconhecer que a Ceia do Senhor é uma refeição para todos os verdadeiros fiéis. Em segundo lugar, isso nos revela que essa refeição especial deve ser tratada com grande cuidado.

Bem, mas como isso funciona? A resposta cabe aos presbíteros da igreja! Paulo disse para os presbíteros da igreja em Éfeso e em todos os lugares,

“Cuidem de vocês mesmos e de todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo os colocou como bispos, para pastorearem a igreja de Deus, que ele comprou com o seu próprio sangue.” (Atos 20.28)

Noutra passagem, ele fala dos presbíteros “que presidem bem” (1 Timóteo 5.17). Igualmente, o autor de Hebreus nos diz que eles “velam por vossa alma, como quem deve prestar contas” (Hebreus 13.17).

À luz dessas e de outras referências, permanece extremamente estranho que ainda existam igrejas que se consideram baseadas na Bíblia, mas que não têm presbíteros. Quanto às igrejas que os possuem, persiste a questão de que eles têm sido chamados a desempenhar um papel vital em todos os assuntos da igreja, e isso certamente deve incluir o sacramento da Ceia do Senhor. Como pode algo tão especial e importante não atrair a atenção deles? Eles não têm um chamado para promover seu caráter católico/universal? Não deveriam estar preocupados com sua santidade? Como podem falhar em proteger, tanto quanto puderem, todos e cada um de beber julgamento para si mesmos?

Concluindo

Assim sendo, é tarefa dos presbíteros salvaguardar este sacramento. Eles devem estar atentos aos membros sob sua responsabilidade, admitindo aqueles que estão em boas condições. Ao mesmo tempo, eles devem velar para que os convidados participantes professem a fé reformada e tenham uma vida piedosa.

Duas coisas seguem de mãos dadas aqui. Primeiro, membros e convidados devem se envolver em uma análise sincera de seus corações. Em segundo, os presbíteros devem vigiar o bem-estar do rebanho e a santidade da mesa do Senhor. Juntos, essa é uma receita para a benção!

Notas:
1 O autor refere-se à Confederação das Igrejas Reformadas Canadenses. [N. do E.]

2 Pode-se inferir dos Padrões de Westminster a responsabilidade de supervisão da Ceia do Senhor pelos presbíteros e o fechamento dela para quem não é da congregação. O teólogo Johannes Geerhardus Vos, comentando a Pergunta e Resposta 173 do Catecismo Maior de Westminster, após explicar as posições quanto à comunhão aberta, fechada ou restrita diz: Deve-se dizer de pronto que o Catecismo se opõe claramente à comunhão aberta. Quanto à comunhão restrita e fechada, o Catecismo requer no mínimo a prática da comunhão restrita e nada opõe à prática da comunhão fechada com base na questão denominacional. Não pode haver verdadeiro privilégio nem “direito” sem que haja a obrigação correspondente de submissão à supervisão espiritual e à disciplina dos tribunais eclesiásticos dessa denominação. É indubitavelmente verdade que todo crente fiel tem, pela graça de Deus, o direito de participar da Ceia do Senhor, mas não numa igreja cujas doutrinas ele não aceita e a cuja disciplina não se dispõe a se submeter. Reclamar o “direito” de participar do sacramento numa denominação, equivale a pedir a essa denominação que trate os não-membros numa base diferente da que trata os seus próprios membros. As denominações definem certos padrões de fé e de vida, que creem ser bíblicos, e assim determinam que quem não os acata é ignorante e escandaloso. Assim, uma denominação pode resolver oficialmente que o único modo de assegurar-se da exclusão de ignorantes e escandalosos da Ceia do Senhor, é limitar a participação no sacramento às pessoas sujeitas à sua própria jurisdição e aos membros de denominações intimamente aliadas que defendem padrões de fé e de vida virtualmente idênticos. É somente pela concordância mútua do que sejam ignorância e escândalo que é possível manter a disciplina eclesiástica e resguardar a pureza da igreja. (Vos, J. Geerhardus. Catecismo Maior de Westminster Comentado. São Paulo: Editora Os Puritanos, 2007. p. 560, 562- 564). [N. do E.]

3 O autor usou também o termo comunhão fechada para referir-se à prática das Igrejas Reformadas no mundo inteiro. Porém achamos que isso poderia confundir o leitor, por isso, deixamos apenas o termo “restrita”. Nas Igrejas Reformadas do Brasil, muitos oficiais adotam o termo “mesa supervisionada”. [N. do E.]

4 O mesmo se dá na Confederação das Igrejas Reformadas do Brasil. [N. do E.]


Artigo publicado originalmente na Clarion Magazine (Canadá), 2009.

Tradução: André Lima.

Revisão: Rachel Van de Burgt.

O website revistadiakonia.org é uma iniciativa do Instituto João Calvino.

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