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Como é o processo de chamar um pastor

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Ofício e vocação 1
Em primeiro lugar, devemos deixar claro o que a Bíblia nos ensina sobre o caráter do pastorado. Não é uma carreira qualquer; é uma vocação. O ministro da Palavra e dos Sacramentos é um homem separado pelo Espírito Santo, através da legítima eleição da Igreja de Cristo, para o ofício. Após a ordenação, ele passa a ser ministro. A palavra “ministro” significa “servo”. O pastor é ministro da Igreja, ministro de Cristo, ministro do evangelho. Ele não constrói uma carreira; ele não procura “subir na vida” por meio de procurar igrejas cada vez maiores ou mais importantes. Muito pelo contrário, o ministro fiel vai aonde o Mestre o envia. O Mestre chama o ministro para seu ofício pela Igreja, e pela Igreja envia o ministro para o seu campo de trabalho (Rm 10.15; At 13.2,3; veja também artigo 31 da Confissão Belga).

Preparação para o chamado

A comissão

Uma Igreja sem pastor, normalmente aponta uma comissão do Conselho para investigar quais os ministros que poderão ser chamados. A comissão, às vezes, inclui alguns irmãos que não são oficiais, mas que são reconhecidos por sua sabedoria, piedade e compromisso com Cristo. Essa comissão pesquisa sobre os pastores da confederação. Normalmente, por respeito às outras Igrejas da confederação, não é cogitada a possibilidade de chamar um pastor que tem menos de três anos de serviço na sua Igreja atual. Também é levado em consideração os dons, talentos e pontos fortes dos possíveis candidatos, comparando o perfil de cada um com as necessidades da Igreja que o irá chamar.

Sobre este último ponto, devemos tomar cuidado. Todo pastor que serve às Igrejas fielmente, que prega Cristo crucificado, deve ser um bom candidato. Porém, às vezes, tem alguma característica especial na Igreja que o irá chamar, que torna um pastor mais idôneo do que o outro. Por exemplo, na Igreja Reformada da colônia holandesa em Unaí-MG, um pastor que tem algum conhecimento da língua holandesa, certamente teria preferência, pois assim, ele poderia mais facilmente pastorear as pessoas mais velhas.

A “Comissão de chamado”, normalmente lê ou ouve sermões dos pastores. Também fala com membros e oficiais da Igreja em que o pastor está servindo atualmente, para ter uma ideia de como ele cumpre com os deveres do seu ofício.

A participação da congregação

A congregação não deve ficar fora do processo da busca de um candidato. Conforme a prática da Igreja desde a época apostólica, a congregação está muito envolvida no processo de escolher novos oficiais. Vemos isso em Atos 1, quando a Igreja escolheu Matias para substituir Judas Iscariotes, e de novo em Atos 6, quando a Igreja escolheu os primeiros diáconos. A congregação deve receber oportunidade para sugerir nomes de possíveis candidatos, entregando esses nomes ao Conselho, ou verbalmente, ou por meio de carta. É recomendável que os membros coloquem as razões pelas quais estão considerando o nome proposto como um bom candidato para o ministério nesta Igreja.

A assembleia geral

Quando a “Comissão de chamado” tiver feito seu trabalho de pesquisa, apresenta um relatório ao Conselho, propondo o nome de um pastor para ser chamado. Algumas Igrejas Reformadas escolhem dois nomes para apresentar à congregação; outras apresentam apenas o candidato que o Conselho considera mais indicado.

O conselho convoca uma assembleia geral da congregação. É uma reunião do Conselho com a congregação, portanto, é necessário lavrar uma ata para registrar tudo o que acontecer. Na assembleia geral, o Conselho apresenta à congregação o(s) candidato(s). A “Comissão de chamado” apresenta um relatório sobre o pastor. Esse relatório ajuda a congregação a conhecê-lo melhor.

Um sermão escrito ou gravado pode ter sido distribuído antes da reunião, ou a congregação pode ouvir juntos uma gravação de uma pregação recente do pastor.

Depois de abrir oportunidade de fazer perguntas e comentários edificantes, o Conselho chama a congregação a votar. A votação para eleger oficiais é uma prática desde o tempo dos apóstolos (At 14.23) e também foi a prática da Igreja primitiva. Nos primeiros séculos, depois de Pentecostes, antes de a Igreja de Roma começar a dominar as demais Igrejas, a prática sempre era que os ministros da Palavra fossem eleitos pela congregação. É essa prática bíblica, apostólica e histórica que confessamos, a qual está registrada no artigo 31 da Confissão Belga:

Cremos que os ministros da Palavra de Deus, os presbíteros e os diáconos devem ser escolhidos para os seus ofícios mediante eleição legítima pela igreja, com oração e em boa ordem, como estipula a Palavra de Deus”.

O chamado

Depois da eleição, o Conselho da Igreja se reúne. Se a congregação votar em favor do nome chamado (indicado), o Conselho envia, em nome da Igreja, uma carta para o pastor que está sendo chamado.

A carta de chamado

O Conselho envia uma carta explicando por que a Igreja está chamando o pastor. A carta contém informações sobre a história, tamanho e situação da Igreja. Também explica a necessidade de a Igreja ter um pastor pregador. Na última página da carta, o Conselho inclui informações sobre o sustento adequado que a Igreja promete ao pastor, conforme a instrução da Palavra de Deus (1 Co 9.13,14). Por via de regra, o pastor deve receber o suficiente para que possa se dedicar ao trabalho do seu ofício sem muitas preocupações, e para que possa cuidar de suas necessidades básicas, bem como as de sua família. Geralmente, a Igreja oferece ao pastor um sustento suficiente para ele ter moradia, transporte e recursos de estudo para cumprir o seu chamado. O sustento do pastor não deve deixá-lo rico, nem pobre. Normalmente, um valor que reflete a média dos salários dos membros é suficiente para o pastor viver uma vida digna. Nas congregações mais pobres, às vezes é necessário o pastor receber acima da média, pois ele pode ter muitos custos para exercitar a hospitalidade (1 Tm 3.2), para manter comunicações com suas ovelhas e colegas, e para se deslocar para fazer visitas e participar nas assembleias gerais das Igrejas. Na hora de avaliar o custo do sustento do pastor, devemos lembrar que alguém que trabalha numa empresa não paga transporte, internet, telefone, energia ou aluguel do seu escritório — esses custos a empresa cobre. No caso de um pastor, esses custos são pagos com o dinheiro do seu sustento.

A Igreja que está chamando o pastor, normalmente comunica que ela deseja uma resposta dentro de três semanas. Muitas vezes, ela também oferece pagamento dos custos de uma viagem para o pastor e a sua esposa visitarem a Igreja que o está chamando, para que ele possa se reunir com os presbíteros, conhecer a congregação, e, assim, ter melhores condições de avaliar o chamado.

Como considerar um chamado

Quando um ministro da Palavra está servindo uma Igreja e recebe um chamado de uma outra Igreja, Deus está lhe dando uma oportunidade de avaliar seu trabalho na videira de Deus. O pastor já teve um chamado de Deus para trabalhar na sua Igreja atual. Agora, Deus está abrindo a possibilidade de ele se mudar para uma outra Igreja, para um outro campo de trabalho.

Como um pastor deve considerar esses dois chamados? Um pastor mercenário irá logo olhar o valor do sustento, as condições de moradia e as oportunidades econômicas e sociais para ele e a sua família. Um verdadeiro pastor, porém, avaliará em primeiro lugar, a questão: Onde há mais necessidade? Será que a Igreja atual precisa mais, ou a Igreja que está chamando?

Esta pergunta é difícil para se responder. Portanto, durante o período em que o pastor está considerando o chamado, os membros da Igreja que o chamou podem enviar cartas, mensagens, ou até telefonar para o pastor, para comunicar como a Igreja está carente de ter um pregador do Evangelho. Ao mesmo tempo, os membros da Igreja atual podem falar com o pastor, indicando as razões pelas quais eles acham que seria melhor ele ficar. O pastor passa o tempo meditando, refletindo, ouvindo, conversando com sua esposa, e orando muito a Deus. Ele pode ter certeza de que o Espírito Santo irá usar esses meios para levá-lo a tomar uma decisão que agrade a Deus e seja uma bênção para as Igrejas.

O pastor não deve apenas se perguntar: Onde há mais necessidade? Ele deve também se perguntar: Será que eu sou o mais indicado para essa necessidade? Aqui entram as questões que não são primordiais, mas que, mesmo assim, são questões realistas que o pastor deve levar em consideração. Por exemplo, talvez o chamado venha de uma Igreja pequena, num bairro onde moradia é muito cara e os apartamentos são muito pequenos. Se o pastor tem 5 filhos, talvez ele não seja o mais indicado para servir àquela Igreja, pois a maior parte do seu sustento será gasto com moradia. Talvez o mais indicado é um pastor solteiro ou um pastor com uma família menor. Com certeza, normalmente a Igreja que o chamou já levou em consideração essas questões quando o selecionou.

Com jejum e oração, o pastor busca a vontade de Deus. Onde posso ser mais frutífero em Teu serviço, ó Deus? Quando, em um chamado, essa atitude é levada em consideração, o pastor pode ter certeza de que Deus abençoará a decisão.

Responder ao chamado

No fim do período de considerar o chamado, o pastor envia uma carta formal para a Igreja que o chamou. Se ele recusar o chamado, não é necessário colocar no papel todas as coisas que o Espírito Santo colocou no seu coração. Basta comunicar que Deus o levou a tomar aquela decisão, porque ele viu que seu trabalho na Igreja atual ainda não chegou ao seu fim.

Se o pastor aceitar o chamado, comunica também por carta oficial. Isso dá início a uma cadeia de eventos que culminarão na instalação do pastor na nova Igreja.

Aceitar o chamado

As Igrejas da confederação vivem num relacionamento pactual para promover a boa ordem entre as Igrejas de Cristo. Portanto, no artigo 5 do Regimento2 elas estipulam que a transferência de um pastor de uma Igreja para outra deve acontecer com ordem e decência. Os documentos relacionados ao chamado são apresentados a um Concílio (uma reunião das Igrejas). O Concílio verificará os seguintes documentos: primeiro, um atestado de doutrina e comportamento lavrado pela Igreja onde o pastor estava ministrando; segundo, uma carta do Conselho da Igreja de origem, liberando o pastor do seu trabalho naquela Igreja; terceiro, a carta de chamado; quarto, a carta do pastor comunicando a aceitação do chamado. O Concílio deve aprovar o chamado se tudo está em ordem e se tudo foi feito conforme a Palavra, as Confissões e o Regimento. Não cabe ao Concílio se pronunciar para concordar, ou não, com a ideia do pastor de se mudar de uma Igreja para a outra.

A aprovação por um Concílio não é um ato hierárquico. É uma medida que as Igrejas concordem em aplicar para evitar situações nas quais pastores se mudem de uma Igreja para outra, sem um devido chamado, ou sem serem devidamente liberados do seu último chamado pela Igreja. Isso promove a paz e ordem das Igrejas.

Instalação

Uma vez aprovado o chamado, a nova Igreja comunica à Igreja anterior a data em que a responsabilidade de cuidar do pastor passará desta para aquela Igreja. Também marca o dia em que haverá o culto de instalação do novo pastor e quando será comissionado pelo Conselho em nome de Deus para começar seu novo trabalho na Videira do Senhor Jesus Cristo.

Notas:
1 O artigo refere-se ao processo de chamar um pastor nas Igrejas Reformadas do Brasil. Neste artigo, o Pastor Kenneth trata apenas do chamado e instalação de homens ordenados. O chamado pode ser estendido também a proponentes. Um proponente é um homem examinado por um concílio, e por este, declarado elegível ao ministério da Palavra. No caso de um proponente, dentro da política reformada, a igreja que o chama é a mesma que o ordena ao ministério da Palavra. O chamado de um proponente deve ser aprovado por um concílio. Este observará o que está na primeira parte do Artigo 5º do Regimento das Igrejas Reformadas. No caso de igrejas presbiterianas, os proponentes são chamados de “licenciados”. A ordenação destes é feita por um presbitério. [N. do E.]
2 ARTIGO 5. Ordenação de Ministros da Palavra. Aqueles que ainda não serviram no ministério da palavra, serão ordenados somente após aprovação do chamado por um concílio. O chamado será aprovado se for apresentado um testemunho satisfatório do conselho sobre a sã doutrina e boa conduta do candidato. Aqueles que já estão servindo no ministério da palavra, serão ordenados somente após aprovação do chamado por um concílio. O chamado será aprovado se o ministro apresentar bons testemunhos de sua doutrina e conduta, junto com uma declaração do conselho. Para a aprovação de pastores que estão servindo em igrejas irmãs, ainda será necessário uma conversa fraternal que tratará da doutrina e do governo espiritual das Igrejas Reformadas do Brasil. [N. do E.]


Revisão: Maria Izabel Lins de Santana Lopes.

O website revistadiakonia.org é uma iniciativa do Instituto João Calvino.

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