Ministério da Palavra

A pregação da Lei

BAIXE O ARTIGO

Eu já perdi a conta de quantas vezes eu preguei sobre o Catecismo de Heidelberg (ou como os puristas gostariam de colocar: “nas Sagradas Escrituras resumidas no Catecismo”1) durante os meus quase quarenta anos no ministério. Digamos, então, que tenha falado do mesmo assunto várias vezes.

Seja como for, quero compartilhar com você algo que surgiu recentemente enquanto eu estava preparando-me para pregar sobre o assunto abordado no Dia do Senhor 44. Especificamente, ele tinha a ver com a pergunta e resposta 115.

Muitos de vocês estarão familiarizados com ela. E ela é a seguinte: Pergunta — “Se nessa vida ninguém pode cumprir os Dez Mandamentos perfeitamente, por que Deus os pregava com tanta rigidez?” A resposta que segue é a seguinte: “Primeiro, para que, ao longo da nossa vida, possamos mais e mais conscientizarmos da nossa natureza pecaminosa e, portanto, buscar mais desejosamente o perdão dos pecados e da justiça em Cristo. Em segundo lugar, para que, enquanto orando a Deus pela graça do Espírito Santo, nunca deixar de nos esforçar para sermos renovados mais e mais, conforme a imagem de Deus, até após esta vida, alcançarmos o objetivo da perfeição“. 2

Não é um favorito

Agora, isso certamente não é a pergunta e resposta favorita de todos. De fato, em mais de uma ocasião ao longo dos anos, eu tive membros expressando seu desagrado, e às vezes até sua discordância com isso. É certo que alguns deles começaram com uma embutida inclinação contra a lei. O descontentamento deles aumentou quando o Catecismo vinculou a pregação a eles. Além disso, ressentiram-se da inclusão das palavras “tão rigidamente”. No que diz respeito a alguns deles, a pergunta e resposta são desnecessárias e faz parecer como despejar sal sobre as feridas.

Discordo. Embora seja verdade que esta não é uma parte popular do Catecismo, sustento que é uma parte necessária do Catecismo. A pregação rigorosa da lei é algo sadio. Na verdade, é um componente essencial quando se trata de viver uma vida cristã saudável e vibrante.

Agora, por que eu digo isso? Ainda mais, como ouso dizer isso? É uma afirmação contracultural. Quem ama a lei hoje? Quem se identifica com o Salmo 119? O clamor atual é “trazer o evangelho, excluído da lei.”

No entanto, um olhar mais atento na Resposta 115 dá uma razão suficiente para resistir a tal preconceito. Para isso a resposta nos ensina que a pregação estrita da lei produz quatro benefícios em nossas vidas.

Olhando para dentro

Primeiro, a pregação rigorosa da lei nos obriga a olhar para dentro. Resposta 115 começa “Primeiro, então ao longo de nossa vida, podemos mais e mais tornarmos conscientes de nossa natureza pecaminosa“.

Estes são dias em que muitas pessoas gastam um tempo considerável olhando para dentro. Estão fazendo isso, porque lhes foi dito que há um monte de tesouros escondidos em seu interior. Os otimistas nos dizem que todos os tipos de dons, habilidades, talentos e capacidades vivem dentro de nós e que essas coisas estão apenas esperando para serem descobertas e desencadeadas. Olhe para dentro e você descobrirá o ouro.

No entanto, esse não é o ensinamento das Escrituras e, portanto, nem do Catecismo também. Saliento que o que se esconde dentro não é tesouro, mas uma escória. O que existe é a nossa natureza pecaminosa. O Senhor Jesus diz que nossa “impureza” não é uma questão de fora, mas de dentro. Todos os tipos de coisas malignas e sujas vêm de nossos corações (Mc 7:21).

Isso é uma boa notícia? Claro que não! Por si só, é deprimente. E é o que acontece com um grande número de crentes que pararam aqui e se tornaram obcecados com esta notícia. Eles ficam desanimados. Eles sentem-se sem esperança. Eles se tornam fatalistas. Eles sucumbem à depressão.

A intenção das Escrituras, nem do Catecismo, nunca foi esta. Elas não nos ensinam essas coisas com a intensão de conduzir o povo de Deus a um estado de tristeza permanente. Não, elas nos ensinam isso como precursor e impulsionador para coisas muito melhores. Você nunca saberá quão grande e abençoada é a salvação, se você nunca veio agarrá-la, ante a sua necessidade desesperada e seu estado pecaminoso. O Senhor Jesus uma vez, com sabedoria, observou que não é o são quem necessita de um médico. São os doentes, e estes, somos nós. Todas as pessoas sofrem por natureza por conta de sua natureza pecaminosa. Todas as pessoas precisam de ajuda. Eles precisam ser informados disso e eles necessitam de reconhecer isso. Ignorar a natureza caída o faz um despreparado para a salvação. A pregação da lei destina-se a resolver esta deficiência.

Olhando para o exterior

No entanto, isso não é tudo o que a lei se propõe a fazer, pois a Resposta 115 nos coloca em outra direção também, e essa é a direção externa. Preste atenção nessas palavras: “que ao longo de nossa vida nós … buscamos mais desejosamente o perdão de pecados e justiça em Cristo“. Essas coisas não são encontradas olhando internamente. Ambos, o perdão e a justiça são qualidades externas. São qualidades que você somente encontrará quando se voltar para Jesus Cristo em fé.

Quem tem o poder de perdoar pecado? Deus o Pai faz, mas também o Cristo. Em mais de uma ocasião nos evangelhos, Ele é retratado como o Grande Perdoador. Considere apenas esse comovente episódio descrito em Marcos 2, que se trata do homem paralítico. Seus amigos estão decididos a buscá-lo, para ser curado por Jesus. Eles se recusam a receber um “Não!” como uma resposta. Eles são persistentes, e parece que o homem que eles carregavam com eles também o é.

Finalmente, eles encontram uma maneira de chamar a atenção de nosso Senhor. Com autoridade Real, ele diz para o homem na maca, “Filho, seus pecados estão perdoados” (v. 5). Buscar o perdão é nosso dever, porém o conceder é dEle.

E o mesmo se aplica à justiça. Aqueles que creem em Jesus Cristo não somente têm seus pecados perdoados, mas também têm seu status transformado. Eles também querem ver suas injustiças lavadas, como também estão desejosos em ter uma nova justiça em seu lugar. Eles também sabem onde encontrar essa nova e gloriosa identidade. Encontra-se em Cristo. “Esta justiça de Deus vem pela fé em Jesus Cristo a todos aqueles que creem” (Romanos 3:22).

Sim, e aqui a pregação rigorosa da lei produz bons resultados no futuro. Isso nos faz lembrar a todos nós mais de uma vez que a resposta à nossa condição caída não pode ser encontrada apenas olhando para dentro. Não, também precisamos olhar para fora.

Precisamos olhar de fora de nós mesmos para Jesus Cristo. Somente ele tem a resposta, além de ser a resposta.

Olhando para cima

Agora, o Catecismo poderia ter parado aqui, mas continua a nos contar sobre uma outra direção que esta pregação da lei deve incluir. Precisa nos fazer lembrar e nos ensinar a olhar, não apenas para dentro e para fora, mas também para cima. Isso se torna claro quando examinamos de perto a próxima expressão, “enquanto orando a Deus pela graça do Espírito Santo“.

Orar é uma ação vertical. Uma postura comum de quem ora pode ser a de curvar as cabeças; no entanto, enquanto fazemos isso, precisamos estar pensando e olhando para cima. Por quê? Porque a ajuda sempre vem para nós de cima. Antigos crentes costumavam olhar para as colinas para obter conforto e alívio. Por que para as colinas? Porque, além, residia Jerusalém, a cidade de Deus. Nela estava o tempo de Deus. Neste templo estava o altar de Deus. O local de expiação e reconciliação estava lá.

Desde então, no entanto, tudo mudou. Jesus Cristo veio como o templo final e Ele ofereceu o perfeito e completo sacrifício pelo pecado. A prova de seu bem-sucedido sacrifício reside na Sua ressureição e ascensão. Uma oferta menos do que perfeita não teria produzido nenhuma vitória sobre a morte, muito menos uma triunfante caminhada rumo ao céu (Sl. 68).

Hoje ele vive acima. Ele está sentado lá e ele está reinando a partir do seu trono. Como resultado, nossas orações precisam ser dirigidas para lá também. Elas precisam ser direcionas para Aquele que está sentado no trono.

Além disso, nossas orações precisam pedir-lhe para estar atento às nossas necessidades, daqueles que vivem abaixo. E qual é a melhor maneira de nos ajudar aqui? É enchendo-nos com “a graça do Espírito Santo“. Estritamente falando, isso não é uma expressão bíblica, mas expressa uma verdade bíblica de maneira maravilhosa. Tal coisa existe e é “a graça do Espírito Santo”. O fato de que Deus deveria enviar o Espírito sobre o seu povo é toda a graça. Isto não tem nada a ver com mérito ou abandono. Não é outra coisa senão favor divino imerecido.

No entanto, não há apenas “graça” no ceder, também há “graça” no dom. Que bênção esse dom o qual outro Conselheiro representa! Pois quem nos regenera, nos renova, permanece em nós, nos provê, nos ajuda, e nos apoia? Ninguém além do Espírito Santo. Ele sozinho é capaz de substituir, tomar o lugar, dAquele outro Conselheiro, e preencher, também, nossas vidas com graça, misericórdia, verdade e amor.

A verdadeira pregação da lei sempre orienta os santos a olhar para dentro e para fora, mas também para Deus e para os dons que só Deus possui.

Olhando em frente

Ainda assim, essa pregação também não termina aqui ainda. Há mais uma coisa que se busca alcançar, e tem tudo a ver com o olhar para frente.

O Catecismo, que faz eco das Escrituras, diz que devemos “nunca parar de se esforçar para ser renovado mais e mais à imagem de Deus, até que, depois desta vida, alcancemos o objetivo da perfeição “. Neste contexto, é dever da pregação da lei nos impulsionar e nos ajudar a ir adiante.

A verdadeira pregação da lei não nos permite descansar, tornando-nos auto satisfeitos, condescendentes ou inativos. Não, isso nos faz lembrar de continuar exercitando nossa “salvação com temor e tremor” (Filipenses 2:12). Encorajar-nos-á a não desistir da nossa busca pela perfeição.

Quando preguei naquele Dia do Senhor, lembrei aos meus ouvintes que, entre outras coisas, um crente é, de alguma maneira, parecido como um jogador de golfe. No jogo de golfe, não existe um jogo perfeito. Nesse sentido, é o contrário do beisebol. Pois, naquele esporte, se seu lançamento não for rebatido por todos os vinte e sete batedores, você jogou o jogo perfeito. Isso não é possível no golfe. Talvez se você pudesse bater em dezoito buracos em um jogo, você conseguiria, mas ninguém nunca conseguiu ou pode jamais conseguir isso. Perfeição no golfe é impossível.

Isso significa que as pessoas deixam de jogar? Dificilmente! Não, se eu olhar para quantas pessoas estão atrás das pequenas bolas brancas em todos os campos de golfe do meu bairro. Eles estão cheios de vontade. Eles representam uma multidão de aspirantes, de candidatos, mas nunca chegariam a ser perfeccionistas.

Bem, os cristãos são assim. Eles se esforçam e se empenham. A pregação da lei também os obriga a esforçar-se. Viver uma vida cheia de uma nova obediência e de gratidão diária, nunca termina. Ouça Paulo: “Eu persisto no objetivo de alcançar, ganhar o prêmio …” (Filipenses 3:14).

Ele persiste e também devemos persistir, mas, ao contrário do golfe, um dia alcançaremos o objetivo da perfeição. “Após essa vida”, ele será alcançado e realizado. Na verdade, Deus um dia coroará todos os nossos fracos esforços. Por meio de seu Filho, Ele “transformará nossos corpos humildes, para que eles sejam como seu corpo glorioso” (Filipenses 3:21). Um dia “seremos como Ele, pois O veremos como Ele o é” (1 João 3:2). A perfeição está chegando. A pregação da lei nos ajudará a chegar lá.

Como resultado, não seja muito rápido para ridicularizar e rejeitar esse tipo de pregação. Claro, se é uma pregação legalista, você está certo em expulsá-la para tão longe quanto possível. Mas não é isso que o Catecismo está ensinando a você aqui. Está ensinando você sobre um tipo de pregação cheio de realismo (interiormente), expectativa (externamente), direção (para cima) e esperança (para frente). Viva essa pregação!

Notas:
1 Se você deseja aprender sobre a prática homilética da pregação catequética, acesse os seguintes artigos do Dr. Gootjes na Edição 04 (Ofício e Confessionalidade), e Edição 05 (O Ministério da Palavra).
2 O texto usado é uma tradução livre da versão do CH adotada pelas CANRC.


Tradução: Sidnei Lugão

Revisão: Iraldo Luna

O website revistadiakonia.org é uma iniciativa do Instituto João Calvino.

Licença Creative Commons: Atribuição-SemDerivações-SemDerivados (CC BY-NC-ND). Você pode baixar e compartilhar este artigo desde que atribua o crédito à Revista Diakonia e ao seu autor, mas não pode alterar de nenhuma forma o conteúdo nem utilizá-lo para fins comerciais.

Próximo artigo Educação dos Filhos – Entendendo a Responsabilidade
Artigo anterior Militantes da Liberdade - Que Direito Eles Têm?

Artigos relacionados

Comentários com o Facebook (0)

Comentários com o Wordpress (0)

0 Comentário

Ainda não há comentários!

Você pode ser o primeiro a comentar este artigo!

Deixe um comentário

Os seus dados estão seguros! Seu endereço de e-mail não será publicado. Também outros dados não serão compartilhados com terceiros. Campos obrigatórios marcados com *